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( RESENHA ) Vox – Christina Chalder

Quando comecei a ler Vox já esperava uma leitura impactante sobre a força machista e opressora presente em nossa sociedade. Mas sinceramente, acho que não imaginava a quantidade de referências ao que vem acontecendo diariamente principalmente no Brasil. Assim sendo, muito embora Vox não tenha sido uma leitura perfeita, o livro vale a pela pela importância e necessária crítica moral. 

Título: Vox | Título Original: Vox| Autora: Christina Chalder | Editora: Arqueiro| Páginas: 320| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

VoxSinopse: Uma distopia atual, próxima dos dias de hoje, sobre empoderamento e luta feminina.
O SILÊNCIO PODE SER ENSURDECEDOR #100PALAVRAS
O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo…
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
…mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

“Houve muitas vezes em que eu quis culpá-lo, mas não posso. Os monstros não nascem assim, nunca. Eles são feitos, pedaço por pedaço e membro por membro, criações  artificiais de loucos que, como o equivocado Dr. Frankenstein, sempre acham que sabem mais.”

Desde que O Conto da Aia foi relançado em formato de série, parece ter havido um estopim da literatura como fonte de alerta social, principalmente no que diz respeito as mulheres. E não é para menos, se considerarmos as perspectivas que surgem no horizonte onde governos de esquerda e manifestações ideológicas assumem papeis de destaque aliados à uma palavra assustadora: extremismo. Cristina Dalcher, ciente do papel social da literatura e dos perigos que essa ideologia oferecem aos direitos femininos, presenteia o leitor com uma obra impactante, ou melhor, provocadora por ser completamente plausível. 

“Com seis anos, Sonia deveria ter um exército de dez mil lexemas, soldados que se reúnem, ficam em posição de sentido e obedecem as ordens dadas por seu cérebro maleável. Deveria, se os três elementos básicos (leitura, escrita e aritmética não estivessem reduzidos à um: aritmética básica. Afinal de contas, um dia minha filha deverá fazer compras e cuidar da casa, ser uma esposa dedicada e obediente. Para isso, é preciso aprender matemáticas, não soletracão. Ela não precisa de literatura. Muito menos da voz.”

Narrado em primeira pessoa, o livro se equilibra entre flashes passados e momentos presentes. Dalcher nos mostra como a sociedade evoluiu – ou melhor, retrocedeu ao ponto das mulheres perdem não somente a voz mas também os direitos civis. Passamos a ser desacreditadas, impugnadas à ignorância do sexo frágil que desumaniza o feminino.

Desumaniza, pois a mulher deixa de ser uma “pessoa” para ser vista como um “objeto” reprodutivo cujo o único dever é gerar filhos e cuidar da casa. Um pensamento arcaico, que já deveria ter sido destruído com a virada dos anos e a chegada do movimento feminista, mas que sofre com os constantes rebaixamentos: “mi-mi-mi”, dito por pessoas que não enxergam ou fecham os olhos para o vigor da luta. 

“– Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada. – Ela faz uma pausa depois de cada uma das últimas cinco palavras, com os dentes trincados.”

Assim sendo, Dalcher também é certeira ao conceber três tipos de ideologias que fundamentam a formação do novo mundo. O homem machista; a mulher consciente de seus direitos; e a mulher que descrimina uma luta ao seu favor. Assim sendo, somos levados à ver outra parcela da nossa sociedade atual que não tem coragem de levantar sua voz ou pelo menos reconhecer seus privilégios.

E é assim que Dalcher nos apresenta sua protagonista. Jean não lutava por seus direitos, sequer via o voto como necessidade social. Ela estava estagnada na sociedade deixando que os outros – a maioria extremista – decidissem seu futuro. Foi dolorido ver como Jean se comportava e enxergá-la como reflexo dos meus amigos ou parentes próximos. Isto, vem acompanhado do medo. Medo que a percepção do futuro cada vez mais próximo só aconteça quando o extremo estiver em voga, ou que a negação continue até depois disso. Pois Jean só entende o que aconteceu depois de ter perdido tudo.

“Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. Na verdade eu não fui votar.”

O sistema político da obra também foi muito bem construído. Se você pensar na ideologia civil, os pilares fomentadores da sociedade deveriam ser colocados em duas bases: a política, que rege os direitos e deveres civis; a comunidade que põe as leis em prática.

Entretanto, uma avaliação mais atenta, nota-se que a civilização é moldada quase que exclusivamente pelos fundamentos religiosos. Seja na pública ou privado, a religião define os parâmetros de comportamento onde o resultado é comumente encontrado em assuntos simples que passam a ser considerados tabus, ao passo que assuntos tabus se tornam corriqueiros. Assim, é fácil entender porque a mulher tem uma visão ameaçada. Pois no sentido religioso, o homem foi feito para comandar (o provedor) e a mulher para servir (procriadora). E assim como O Conto da Aia, será a religião que molda o universo de Cristina Dalcher de maneira arcaica e ortodoxa. 

“É difícil identificar contra o que – ou quem – estávamos protestando. Sam Myers era uma opção terrível para presidente. Jovem e inexperiente em políticas importantes, com formação militar de um ano no curso preparatório de oficiais da reserva na época de faculdade, Myers fez sua corrida presidencial apoiado em duas muletas. Bobby, seu irmão mais velho e senador de carreira, dava os conselhos práticos, um monte de bosta. A outra muleta era o reverendo Carl, fornecedor de votos, o homem a quem as pessoas ouviam. Anna Myers, bonita e popular, não prejudicava a campanha, se bem que no final a campanha a prejudicou. Muito. Nossa única esperança.”

Além disso, ainda cito como chocantes os trechos que imitavam a realidade agravando o sentimento de pertencimento ao universo inexistente. Se pensarmos que o livro foi lançado ano passado e algumas declarações polemicas saíram este ano, Dalcher quase que previu os rumos sociais de como a sociedade extrema parece começar. As manifestações sociais femininas sendo desvalorizadas. A bancada religiosa que tenta ditar o mundo através das passagens bíblicas. Os muros construídos ao redor de países ricos e politizados. O homem como peça central do silenciamento. As mulheres em diferentes estágios de aceitação.

“As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo. A de Olívia é rosa; a de Evan é azul. Você nunca os vê trocar, nunca vê o livro azul nas mãos de Olivia.”

Entretanto, alguns pontos da obra acabaram por  ficar desconexos. O romance que surgiu parece algo descartável que, por um acaso, reforça um esteriótipo ruim sobre a mulher feminista (Selecione, mas pode conter spoilers “Jean é casada e mantém um relacionamento fora do casamento o que ratifica  a mulher como “puta” quando liberta“). Além disto, o final da obra pareceu fácil de mais, onde todos conseguiram um final feliz e nem todas as repostas foram concluídas.

Mas, pesando as partes ruins e boas, ainda sim Vox foi uma leitura genial. Eu recomendo esse livro para mulheres, homens que precisem de um choque de realidade. É uma leitura necessária que nos abre os olhos para uma das possibilidades que o futuro tão próximo de nós.