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( Resenha ) As Crônicas Lunares – Marissa Meyer

Oii amores. Essa resenha vai ser um pouco diferente do que normalmente eu faço. Como vocês podem perceber, será relacionada a uma série completa de livros e não referente a cada componente dela. O motivo de estar fazendo desse modo é a percepção que adquiri sobre As Crônicas Lunares que cada livro está intimamente relacionado ao anterior, tanto de um ponto de vista de história quanto de um ponto de vista de personagens. Explicando melhor: o que acontece em Cinder influencia na história de Scarlet que influencia na história de Cress que se finaliza na história de Winter. Desse modo, seria impossivel fazer resenha desses livros sem dar spoiler do anterior. Assim, mesmo sabendo que essa resenha vai ficar um tanto longa, também vai ser spoiler free como bem gostamos.

Titulos: Cinder, Scarlet, Cress e WinterSérie: As Crônicas LunaresAutora: Marissa MeyerEditora: RoccoPáginas: 448, 480, 496 e 688 Anos: 2013, 2014, 2015 e 2016 | Avaliação:  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤

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“Uma garota. Uma máquina. Uma aberração.”
– CINDER –

A  série As Cronicas Lunares é uma releitura dos clássicos contos-de-fadas que todos conhecemos. Acredito que tenha sido uma das poucas séries dentro desse contexto de releitura que realmente tenha usado as histórias originais e não os filmes Disney como base para sua construção. Assim, estamos lidando com novas versões (e põe novas nisso!) de Cinderella, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e Branca de Neve. Um dos pontos mais atrativos desses livros, foi justamente a capacidade da autora de recriar um mundo conhecido em algo completamente novo. De certo modo, eu diria que Marissa se equipara a J. K. Rowling nesse sentido de inovação. Ambas as autoras usam de bases batidas (no caso de Rowling o mundo mágico e Marissa contos-de-fada), mas colocam sob roupagens novas que as deixam inesquecíveis. Por isso, se você pretende ler o livro de Meyer, não fique com medo de encontrar mais do mesmo pois a autora vai te surpreender em diversas raias diferentes.

“Tudo que Cinder sempre quis foi liberdade. Liberdade da madrasta e de suas regras dominadoras. Liberdade de uma vida de trabalho constante sem nenhum reconhecimento. Liberdade dos olhares de desprezo e palavras de ódio de estranhos que não confiavam na garota ciborgue. Agora, conquistara a liberdade, mas não era nem um pouco como tinha imaginado.”
– SCARLET – 

A narrativa não poderia ser mais encantadora e forte. Por estar lidando com um novo universo que praticamente não tem semelhanças com o nosso, a autora equilibra a narrativa entre sentimentos, ações e explicações para manter o nível de mistério sem nunca jogar uma grande quantidade de informações em cima do leitor. Assim os livros ganham bastante fluidez pois concentram-se no que é relevante e não expõe o leitor ao marasmo que normalmente poderíamos encontrar em livros tão grandes. Além disso, a narrativa além de ser flúida, ela também cresce de modo grandativo cheio de conexões de um livro para outro. Basta dizer que os livros ganham massa a medida que novos personagens são inseridos. Não estamos falando sobre personagens inseridos simplesmente para encher tigela, mas sim de personagens relevantes que completam o sentido da história que está sendo contada, sejam eles vilões, sejam eles mocinhos. 

“Cress se sentia um pássaro cujas asas foram cortadas e que foi jogado em uma gaiola, mais uma gaiola, nojenta e podre. Ela viveu em uma gaiola a vida toda. De alguma forma, nunca esperou encontrar uma horrível assim na Terra.”
– CRESS

Em relação aos personagens é possível enxergar nesse livro a quantidade de referencias aos clássicos originais que realmente os insere nessa gama, mas mesmo assim com quantidade significativa de mudança que os torna para além da releitura. Nós temos uma Cinderella que não precisa de fada madrinha para ser corajosa. Uma Chapeuzinho que não é tão facilmente enganada pelo lobo mau. Uma Rapunzel sonhadora presa em um satélite. Uma Branca de Neve negra que é bondosa não porque nasceu assim, mas por ter percebido os horrores que poderia causar se usasse seus dons para o mal. Além disto, desta transgressão de personalidade, a autora enlaça as histórias das protagonistas com coragem para mudar o rumo delas pelas mãos da amizade, muito além do amor. Eu achei fantástico perceber que não estamos lidando com garotas bobinhas, mas sim mulheres fortes que tomaram muitos “socos” da vida para dependerem dos outros. Mesmo Cress que sonha em viver um romance de novela é corajosa quando o momento lhe pede para ser. 

“Ela teve esperança de que o incidente fosse passar despercebido. Mas devia ter sabido. A esperança era a ferramenta do tolo.”
– WINTER –

Cinder
Capa vietnamita.

Cinder foi um começo excepcional para uma série maravilhosa. O livro em si tem menos história e menos surpresa que os outros, mas por ser introdutório da história da “personagem principal” eu diria que foi um choque perceber o quão além a autora poderia ir. A personagem que dá nome ao enredo foi minha segunda favorita. Forte e determinada, Cinder representa a garota que não se entrega as ilusões da vida. Ela não fica refém de uma determinada situação, mas se torna alguém que busca a melhor maneira de contorna-la usando a criatividade e inteligência para sair dela. 

Scarlet
Capa vietnamita.

Scarlet em termos de obra foi uma ótima continuação que teve plots twists na medida certa mantendo alinhado tanto ao novo enfoque do enredo como ao que se deu do livro passado. Apesar disso, Scarlet não foi um de meus livros favoritos muito devido a personagem que dá nome a obra. A protagonista Scarlet para mim foi intragável. Dona de uma personalidade que acredito que a autora desejava que fosse forte, tive um encontro com Scarlet que mais me deixou com raiva do que impressionada. Diferente de Cinder, Scarlet é bastante presunçosa e me lembra bastante as mocinhas dos YA que normalmente tem um nariz empinado e que sempre me remetem a infantilidade. Isso que me fez pegar ranço da protagonista, logo eu torci o nariz toda vez que ela entrava em jogo. 

Cress
Capa vietnamita.

Cress tanto como livro como personagem foram meus favoritos. O livro em si foi de constantes reviravoltas além de possuir aquela que acredito ser a história melhor trabalhada. Com novos segredos e enfim caminhando para algo maior que todas as protagonista juntas. essa obra culminou em uma profusão de sentimentos que me prenderam durante um dia inteiro. Como personagem, Cress simplesmente ganhou meu coração. Sendo a mais ingênua e sonhadora, a loira tinha tudo para ser uma das personagens mais chatas. Mas Cress mostra que timidez não é um fator que coíbe a coragem, mas sim que a propulsiona para lutar por aquilo que acredita. Além de ter sido minha personagem favorita, ela e seu par Thorne foram meus shipps do ano, basicamente. Os dois juntos foram uma explosão de sentimentos. 

Winter
Capa vietnamita

Winter finalizou a série de modo digno. Eu acredito que Meyer não poderia ter feito de uma maneira melhor cheia de surpresas e com muitas reviravoltas. Foi meu segundo favorito da série pela rapidez dos acontecimentos, mas principalmente pela maneira com o qual a autora conseguiu entrelaçar as histórias. Winter como personagem não teve muito destaque, acredito que tenha sido a protagonista que menos apareceu. Mas apesar de estar meio apagada, fez aparições fantásticas sendo o ponto de calmaria no livro. Mesmo em sua loucura, ela representou o equilíbrio para a história. 

“Todos os peões dela se encontravam em posição, e o ataque final estava prestes a começar.”
– WINTER

Com personagens secundários igualmente bem trabalhados e uma vilã digna de ter o título de Rainha Má, Marrissa Meyer parte de uma releitura para criar uma obra inesquecível. Depois de uma semana inteira com esses personagens maravilhosos, eu com certeza voi sentir muita falta desse universo que me conquistou e já entrou para lista das melhores séries que eu li na vida. Uma obra sem falhas, que vai te mostrar realmente o significado de recriar de uma maneira que você nunca viu antes. 

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(Motive-se à ler) Trilogia Millennium – Stieg Larsson

Oii Corujinhas. Estou criando mais uma categoria no blog pois tenho percebido que têm muitos livros independentes, séries e trilogias que ainda não fiz resenha para vocês pois realizei leitura antes mesmo de criar o blog. De modo que a Motive-se À Ler será uma categoria onde vou apresentar motivos para que vocês leiam minhas obras favoritas ao longo da minha vida de leitora. 

Espero que gostem.

Títulos: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, A Menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. | Título original: Män Som Hatar Kvinnor,  Flickan Som Lekte Med Elden e Luftslottett Som SprängdesTrilogia: Millennium (Original)Editora: Companhia das LetrasPáginas: 528, 608 e 688Anos: 2010Encontre: Amazon | SaraivaAvaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤

trilogia millenium

Conheci essa trilogia ao comprar um exemplar de Millennium na Leitura. Naquele dias, estava tendo uma daquelas promoções bombásticas (na Leitura, gente, na Leitura!) e eu saí de lá com três livros (Millenium e os dois primeiros volumes da Trilogia dos Espinhos) gastando menos de 60 reais. Mas como mamãe sempre diz, a ganância é uma cegueira, o que se aplicava a mim pois se eu tivesse olhado direito para tudo e não só para o preço teria percebido que estava comprando o segundo volume de uma série e não uma obra única como bem imaginava (francamente, eram 600 páginas e não tinha nenhuma obra meramente parecida ao redor). Então dei aquela leve broxada, mas para minha surpresa, meu amado irmão naquele mesmo dia trouxera o filme sueco referente ao primeiro livro da trilogia para casa. Então sim, assisti o filme e em seguida passei a obra e caramba! Foi espetacular… Havia gostado tanto que algumas semanas mais tarde, adquiri o primeiro e o segundo volume lendo-os logo em seguida. A conclusão foi que a ganância me ajudou a ler uma das melhores trilogias da vida e

E agora vou te dar cinco motivos para te que vai ser uma das melhores da sua também.

1 – Uma narrativa lenta, mas que funciona.

Um dos grandes diferenciais da trilogia de Stieg Larsson é a maneira com o qual se dá a narrativa centralizada na vida de seus protagonistas. Feita em terceira pessoa, relata  a a história de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist através do gênero supense dramático. Mas devo admitir que é um tanto procrastinada pois o autor sempre se atém aos detalhes mínimos durante os retratos de vida e locações ao redor dos personagens. São 600 páginas em média que sem tantos detalhes poderiam facilmente ter 400. Apesar de não ser o tipo de leitora que curte essas enrolações, acabei não ligando para esse detalhe porque conseguir perceber que Larsson não estava apenas contando determinado suspense, mas sim dramatizando as situações de vida como um todo, de modo que assim ele conseguiu aproximar ainda mais o leitor da história.

Não existem inocentes, existem variados graus de responsabilidade. 

2. Enredos.

Em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, a história gira em torno da busca por Harriet Vanger, uma mulher desaparecida vinte anos antes no interior da Suécia. Esse primeiro livro é independente, ou seja, não tem relação direta com o enredo dos volumes seguintes. De certo modo, é como se Larsson estivesse apenas introduzindo os personagens para que o leitor consiga formar opinião sobre cada um. Para muitos, esse é o mehor livro da trilogia por apresentar um suspense mais focado na ação. Eu particularmente amo esse primeiro, mas percebo que ele não é tão complexo como os outros o que acaba não me fazendo considerá-lo como um dos melhores. Mas mesmo assim é uma história que vale a pena conhecer pois ele ressalta insere quais os pontos terão maior abordagem na série: Lisbeth, Mikael e mulheres em situações de abuso.

O segundo volume, A Menina que Brincava Com Fogo inicia um ano após os acontecimentos de seus antecessor. A história refere-se a um casal que estava prestes a fazer uma denúncia ao ministério público sobre o tráfico de mulheres que é brutalmente assassinado em seu apartamento no dia anterior. Lisbeth se torna a principal suspeita do assassinato e Mikael é o único que acredita em sua inocência. Esse livro apresenta um crime, e o livro posterior A Rainha do Castelo de Ar irá trazer as consequências deles. Assim, diferente do anterior, torna-se crucial que esses dois volumes sejam ser lidos na sequência para que o time da história não seja perdido. 

Ações impulsivas levariam a problemas, e problemas poderiam ter conseqüências desagradáveis

3. Personagens.

Com vidas conturbadas, Mikael e Lisbeth não poderiam ser mais diferentes. 

Mikael Blomkvist é jornalista. Receptivo, bem humorado e fiel a princípios o protagonista masculino apresenta o lado heroico do livro, onde o mocinho consegue se manter acima das necessidades individuais do homem. Muito embora Larsson não o fundamente como um personagem perfeito, Mikael tem suas particularidades que acabam por transformá-lo em um herói típico do suspense ao qual os leitores vão ter mais acesso ao que está acontecendo em histórias paralelas ao redor da trama principal. 

Lisbeth Salander, por outro lado, toma um caminho que extremamente oposto do de Mikael. Esquiva, fria e calculista não é amistosa jamais demonstrando apreço por outras pessoas ou quaisquer traços de empatia. Ela é uma anti-heroína que não tem apego aos princípios morais muito embora também não cause danos à ninguém. No decorrer dos três livros, principalmente do segundo, a história de Lisbeth vai sendo revelada para que nós entendamos o passado da hacker que é essencial para o conjunto de sua personalidade tão atípica. 

Eu tive muitos inimigos ao longo dos anos. Se há uma coisa que aprendi, é que você nunca deve se envolver em uma briga que você certamente perderá. Por outro lado, nunca deixe ninguém que tenha insultado você se safar. Aguarde seu tempo e revide quando estiver em uma posição de força, mesmo que você não precise mais, é hora de revidar.

4. Críticas sociais. 

Além do suspense que envolve a obra, os três livros apresentam críticas sociais não que são raramente discutidas em nossa sociedade muito embora sejam presentes nela. Corrupção, negligenciamento de menores e assassinatos por religiosidade são apenas alguns dos pontos levantados por Larsson. Mas a principal crítica são os abusos e a violência física e moral que as mulheres sofrem simplesmente por serem mulheres. No decorrer das três obras, o autor dá duros golpes em toda e qualquer sociedade machista que é omissa a esses comportamentos. Acredito que esse seja o motivo pelos qual a série é tão famosa. As críticas levantadas pelos autor são objetos de discussões que nos ajudam a refletir sobre a falta de postura contra os opressores. Em cada livro, Larsson coloca um ponto de vista ideológico diferente sobre a questão do abuso: No primeiro, o homem que abusa porque a mulher é dependente dele; No segundo, porque ela é ludibriada e todos os seus direitos como cidadã são perdidos; E no terceiro, porque a Justiça muitas vezes se nega a simplesmente acreditar na palavra de uma mulher tratando-a como propulsora do crime e não como vítima dele. 

Todo mundo tem segredos. É apenas uma questão de descobrir o que eles são.

5. Produção cinematográfica. 

A trilogia Millennium foi adaptada duas vezes para as telonas. A primeira adaptação foi realizada pela produtora Yellow Bird que adaptou os três livros em 2009. Já a produtora americana Sony Pictures o fez em 2010. Existem certas divergências entre as duas obras, mas o cerne do livro é mantido e muito bem explorado pelos diretores das películas. O destaque vai para Noomi Rapace e Rooney Mara que deram a vida brilhantemente a Lisbeth Salander considerada pela crítica especializada uma das melhores personagens femininas do cinema mundial. Assistam o trailer:

 

Então é isso Corujinhas. Espero que vocês tenham gostado do primeiro Motive-se e em breve teremos muito mais do meus clássicos pessoais para vocês. Beijos. 

( Resenha ) O Jardim das Borboletas – Dot Hutchison

Esqueça quem você é e entre no Jardim das Borboletas. Esqueça suas convicções e esteja preparado para choque de um relato sobre a face mais hedionda e psicótica da humanidade.

O Jardim das BorboletasTítulo: O Jardim das Borboletas
Título original: The Butterfly Garden
Série: The Colector #01
Autora: Dot Hutchison
Editora: Planeta
Páginas: 304
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Quando a beleza das borboletas encontra os horrores de uma mente doentia. Um thriller arrebatador, fenômeno no mundo inteiro. Perto de uma mansão isolada, existia um maravilhoso jardim. Nele, cresciam flores exuberantes, árvores frondosas… e uma coleção de preciosas “borboletas”: jovens mulheres, sequestradas e mantidas em cativeiro por um homem brutal e obsessivo, conhecido apenas como Jardineiro. Cada uma delas passa a ser identificada pelo nome de uma espécie de borboleta, tendo, então, a pele marcada com um complexo desenho correspondente. Quando o jardim é finalmente descoberto, uma das sobreviventes é levada às autoridades, a fim de prestar seu depoimento. A tarefa de juntar as peças desse complexo quebra-cabeça cabe aos agentes do FBI Victor Hanoverian e Brandon Eddinson, nesse que se tornará o mais chocante e perturbador caso de suas vidas. Mas Maya, a enigmática garota responsável por contar essa história, não parece disposta a esclarecer todos os sórdidos detalhes de sua experiência. Em meio a velhos ressentimentos, novos traumas e o terrível relato sobre um homem obcecado pela beleza, os agentes ficam com a sensação de que ela esconde algum grande segredo.

Mas, quando eu adormecesse, o pesadelo ainda estaria lá. Quando eu acordasse, o pesadelo ainda estaria lá. Todos os dias, durante três anos e meio, o pesadelo sempre, sempre estaria lá, e não havia conforto para isso. Mas, por algumas horas, eu podia fingir. Eu podia ser a menininha dos fósforos e jogar minhas ilusões contra a parede, perdida no calor até a luz diminuir e me levar de volta ao Jardim.

Uma das vantagens de se começar obras sem saber absolutamente nada sobre elas é a falta de expectativa. Eu já disse várias vezes em outras resenhas como me decepcionei com livros que pareciam ser uma coisa na sinopse e no fim das contas foram outra, não por serem totalmente diferentes, mas por apresentarem divergências sutis que acabam por contribuir para a decepção. Quando comecei O Jardim das Borboletas eu não tinha noção do que poderia esperar. Tudo na capa apresenta certa dualidade que se enquadraria em vários gêneros. Se eu soubesse que se tratava de um suspense teria formulado milhares de suposições. Mas ao em vez disso, fui presenteada com surpresas dadas pela ignorância. E assim o livro de Dot Hutchison me prendeu por sua sagacidade dramática e pela maneira com o qual os personagens foram desenvolvidos de modo a serem implacavelmente doentios e realistas.

Você parece sempre imaginar que fui uma criança perdida, como se tivessem me largado na rua como lixo. Mas as crianças como eu nunca estão perdidas. Talvez sejamos as únicas que nunca se perdem. Sempre sabemos exatamente quem somos e aonde podemos ir. E aonde não podemos ir, é claro.

A história é contada de forma branda não possuindo momentos de tensão caracteristicos de um thriller. Contudo  não considero isso algo ruim porque pela vista geral da obra não era estritamente necessário. O enredo é contado de modo póstumo ao fato fazendo com o que o leitor já entre na leitura sabendo que de modo que as cativeiras sobreviveram. Baseado nisso, posso afirmar que a questão do livro não é a fuga, mas a vida das Borboletas no Jardim. Por isso não espere nada eletrizante por conta de uma tensão factual, mas sim por causa de uma tensão sentimental.

Eu estava lá dentro, sem chance de escapar, sem ter como voltar à vida que conhecia, então por que me apegaria a isso? Por que causar a mim mesma mais dor lembrando-me daquilo que não possuía mais?

A configuração da narrativa é feita por duas pessoas em dois tempos  verbais. No presente, não temos o domínio da emoção nas falas de VictorEddison (os investigadores), pois, apesar dos homens verem reflexos de suas histórias na  da adolescente, ambos se privam de expressar sentimentos pela necessidade da realização de seu um trabalho para descobrir qual segredo a entrevistada esconde. Assim, o relato presente é uma condução mais aberta da narrativa. São passagens rápidas que ajudam o leitor a entender por meio de explicações mais diretas o que estava acontecendo de verdade. Quando a narrativa corta para o passado, Maya conta como era sua vida antes e depois de parar no cativeiro. Neste ponto sim temos o emaranhamento de sentimentos à contagem da história. Maya não se torna apenas a locutora dos fatos, mas também uma janela entre a mente das garotas sequestradas e o homem que havia feito isso. Através desses dois pontos contrários a autora amplia o poder da narrativa. Ao mesmo tempo em que Hutchison te bombardeia com emoções ela também te dá tempo para processar o significado daquilo causando um efeito devastador.

É uma forma de pragmatismo, acho eu. Pessoas carinhosas e amorosas que precisam desesperadamente da aprovação dos outros acabam sendo vítimas da síndrome de Estocolmo, já o resto de nós se rende ao pragmatismo. Por já ter vivenciado as duas possibilidades, sou a favor do pragmatismo.

A originalidade da história concentra-se nos personagens que a autora criou de modo tão crível. Antes de ler O Jardim das Borboletas nunca tinha tido contato com a mente de uma vítima de um psicopata de maneira tão clara e pavorosa em um sentido mais humanistico da coisa. Quando dá vida a protagonista, a autora se preocupa em explorar todos os antes e todos os depois que levaram Maya a se tornar tão introspectiva ao mesmo tempo tão corajosa. De certo modo, Hutchison parece criar duas histórias ao mesmo tempo com a finalidade de fortalecer sua heroína e fazer com que ela passasse pelo cativeiro de modo senil. Qualquer outra garota que não tivesse o passado tão conturbado teria se desesperado, mas a experiência faz com que Maya assuma o controle de sua mente. Assim a narrativa permanece lúdica e plausível e a protoganista torna-se inesquecível.

Algumas pessoas desabam e nunca mais levantam. Outras recolhem os próprios cacos e os colam com as partes afiadas viradas para fora.

Assim  como a principal, os personagens secundários também brilham dentro da narrativa. É interessante perceber como Hutchison não desperdiçou nomes e descrições  se delimitando a criar tipos consistentes que contribuem para a evolução do enredo. As outras Borboletas, por exemplo, são muitas mulheres embora grande parte delas seja apenas um borrão em uma multidão. A autora só deixa em contato com o leitor aquelas que possuem relevância para o enredo. Eu diria que aqui fica um dos pontos mais altos da narrativa pois Hutchison emoldura seu jardim com mulheres que variam suas emoções desde a raiva e o desespero à alegria e submisão. Cada qual lutando da melhor maneira que pode para se sobreviver aos horrores daquele lugar.

A beleza perde o sentido quando nos cerca em grande abundância.

Entre os personagens secundários que mais merecem destaque estão o Jardineiro e seus filhos que apresentaram personalidadades bastante controversas auxiliando o leitor a ter uma visão geral dos tipos existentes de sequestradores. Começando pelo Jardineiro, eu diria que ele é o mais assustador dos três. Isto porque é carinhoso com “suas” Borboletas e parece realmente acreditar que as garotas, quando transformadas  nos espécimes através das tatuagens, passam a ser sua propriedade. Mais que isso, ele acredita que está salvando-as do esquecimento e lhe dando uma vida perfeita. Cuida delas exatamente como quem cuida de animais. Parece gostar de seus espíritos diferentes, percebe a beleza delas, mas nunca as deixa sair do cativeiro. O Jardineiro é um maníaco obsessivo, a representação de um maníaco obsesseivo cheio de sentimentos loucos e doentios.

A covardia pode ser um estado natural nosso, mas ainda assim é uma escolha.

Os filhos do Jardineiro, Avery e Desmond são opostos. Avery é um psicopata verdadeiro não apresentando empatia alguma pelas garotas. Suas ações são feitas para provocar dor porque ele simplesmente gosta disso. Gosta de sentir o medo que emana de seus poros e da submissão que vem com ela. Ja Desmond é apenas um covarde que não consegue ir contra os pais. De certo modo, o rapaz representa uma parcela da sociedade que vê o que está errado mas não tem coragem suficiente para dizer alguma coisa. Desmond foi sem sombras de dúvida o vilão que eu mais odiei pela sua impotência covarde. Da tríade, é o pior porque é o único que apresenta sanidade intacta mas que por conta de seu egoísmo só serve a si mesmo.

Não fazer uma escolha é uma escolha. Neutralidade é um conceito, não um fato. Ninguém vive a vida desse jeito, não realmente.

A única coisa que me incomodou no livro foi a reviravolta final. Não que tenha sido ruim, mas achei um tantinho inverossímel de mais me dando a sensação de estar faltando peças para que o conjunto fizesse sentido. Talvez possa ser explicado por conta da protagonista que tentou esconder o fato durante toda a narrativa. Contudo, mesmo sabendo disso, não consegui entender as motivações de modo que acabei perdendo a sintonia com a obra: o encanto do poderia ser verdade foi arruinado naquele momento.

Não é bem assim. Digamos que eu seja mais uma criança esquecida e negligenciada do que problemática. Sou o ursinho de pelúcia acumulando poeira embaixo da cama, não o soldado de uma perna só.

Contudo, vendo pelo aspecto geral da obra e de tudo que ela me proporcionou, afirmo que O Jardim das Borboletas vai acabar se tornando uma das melhores leituras do ano. Dotado de profundas reflexões e de uma narrativa espetacular, o livro de Dot Hutchison é original e cativante ao seu modo doentio. Ao aproximar-se dessa obra, você verá o horror como nunca viu antes. Se serve de sugestão, esqueça tudo que você já leu, dispa-se de quem é e não vá atrás de explicações simplórias. Apenas observe esse mundo doentio não trazendo para a leitura nada de fora dele.

 

 

( Resenha ) Os 27 Crushes de Molly – Becky Albertalli

Quem nunca se apaixonou e ficou com medo de se declarar que atire a primeira pedra. Em Os 27 Crushes de Molly, Becky Albertalli vai te cativar com a sutileza de uma história sobre amadurecimento, amor e muita representatividade.

os 27 crushes de mollyTítulo: Os 27 Crushes de Molly
Título original: The Upside of Unrequited
Autora: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Páginas:
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Molly já viveu muitas paixões, mas só dentro de sua cabeça. E foi assim que, aos dezessete anos, a menina acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que ela precisa ser mais corajosa, Molly não consegue suportar a possibilidade de levar um fora. Então age com muito cuidado. Como ela diz, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. Tudo muda quando Cassie começa a namorar Mina, e Molly pela primeira vez tem que lidar com uma solidão implacável e sentimentos muito conflitantes. Por sorte, um dos melhores amigos de Mina é um garoto hipster, fofo e lindo, o vigésimo sétimo crush perfeito e talvez até um futuro namorado. Se Molly finalmente se arriscar e se envolver com ele, pode dar seu primeiro beijo e ainda se reaproximar da irmã. Só tem um problema, que atende pelo nome de Reid Wertheim, o garoto com quem Molly trabalha. Ele é meio esquisito. Ele gosta de Tolkien. Ele vai a feiras medievais. Ele usa tênis brancos ridículos. Molly jamais, em hipótese alguma, se apaixonaria por ele. Certo? Em Os 27 Crushes de Molly, a perspicácia, a delicadeza e o senso de humor de Becky Albertalli nos conquistam mais uma vez, em uma história sobre amizade, amadurecimento e, claro, aquele friozinho na barriga que só um crush pode provocar.

É uma coisa bem incrível não se importar de verdade com o que as pessoas pensam de você. Muita gente diz que não se importa. Ou age como se não se importasse. Mas acho que a maioria se importa muito. Eu sei que eu me importo.

Nunca fui o tipo de pessoa que se prende totalmente à representatividade como marco de toda obra. Não me entenda mal, não é que não ache importante, mas apenas creio que não seja o mais importante. Principalmente porque sempre percebo que acabamos por perder o real significado de representar. Explicando melhor: no meu ponto de vista, o simbolismo deve ser colocado de maneira natural, sem estardalhaço. Pois quando ao contrário, torna-se forçado e o contexto parece ser reduzido. Não estamos mais falando de uma história de superação que consequentemente se torna um manifesto de igualdade, mas passamos a ver a obra como uma procuração que tem o sentido apenas de representar. Exemplificando, depois do lançamento do filme Pantera Negra vi muitas pessoas comentando ser o melhor filme da Marvel por conta disto, afinal pela primeira vez tínhamos um herói negro nas telonas. Mais uma vez não é que eu considere inválido o argumento, mas sinceramente, Pantera Negra não devia ser o melhor filme porque apresenta a melhor história?

Nunca contei para ninguém, nem para minhas mães e para Cassie, mas é o que me dá mais medo: não ter importância. Existir em um mundo que não liga para quem eu sou. É um outro nível de solidão.

Partindo desse princípio, quando comecei a ler Os 27 Crushes de Molly, já sabia que se tratava da história de uma mulher acima do peso ideal (isso existe?), por isso havia me preparado para uma revolução em favor da quebra de determinados tabus. Mas para minha grata surpresa, Becky Albertalli chega com uma narrativa cheia de sutilezas. Ela não cria aquele plot twist de início, mas sim situações reais que tem o propósito de nos mostrar que somos todos humanos de carne e osso. Podemos passar pelas mesma situações e ter os mesmos sentimentos. Não será nossa aparência que determina se somos capazes disso ou daquilo, muito menos de orientação sexual. Ao criar um livro cheio de representatividade, Becky Albertalli não impõe nada por conta dela, mas sim expõe a normalidade que todos deveriam saber.

Odeio estar pensando nisso. Odeio odiar meu corpo. Na verdade, nem odeio meu corpo. Só fico com medo de todo mundo odiar. Porque garotas gordinhas não têm namorados e claro que não fazem sexo. Não nos filmes, não de verdade, a não ser que seja piada. E eu não quero ser piada.

Quando Becky começa seu livro, deixa claro que não estamos falando de uma obra surpreendente cheia de drama adolescente, mas sim de uma história dotada de conflitos que todo adolescente sente, principalmente os mais inseguros. Na época que eu fazia ensino médio, apesar de não ser gorda, nunca me considerei exatamente bonita: era magrela de mais, buchuda de mais (sim as duas coisas existem juntas!), cabelo alto de mais. No entanto nada disso me impediu de ter meus crushes, que apesar de não serem 27, foram paixonites importantes, mas eu também nunca tive coragem de falar com nenhum deles. Dessa forma, ao conhecer Molly me identifiquei facilmente com ela por conta da Jessica do passado. Nós duas achávamos que nunca nos apaixonaríamos e, apesar de sermos felizes assim, queríamos saber qual era a sensação. Não é questão de ser dependente de romance, mas sim de querer ter um tipo de sentimento que parece que todo mundo a sua volta tem menos você.

Passo muito tempo pensando em amor e beijos e namorados e todas as outras coisas para as quais as feministas não tinham que dar muita bola. E eu sou feminista. Mas não sei. Tenho dezessete anos e só quero saber como é beijar alguém.

Pelo fato de ter me visto na protagonista (de uma forma que poucas vezes, ou mesmo nunca, havia acontecido) me conectei a obra ao fundo. Tanto pelo fator inicial de insegurança quanto pela trajetória da personagem para ganhar auto-confiança. Mais uma vez, Becky é sútil ao evoluir sua personagem sem nunca mudá-la. Para tanto, Molly  vai aos poucos percebendo as qualidades que possui entendendo que de modo que o amor não virá apesar de ser gorda, mas sim ciente e acima disto aceitando-a. Afinal de contas, o corpo é só uma casca e muitas outras coisas a definem não existindo motivo para Molly ser rejeitada, ainda mais por padrões de sociedade que nem sequer deveriam existir.

Tem alguma coisa em momentos assim, quando esse fiozinho tênue me liga a um total estranho. É o tipo de coisa que faz o universo parecer menor. Adoro isso.

Outro ponto que me fez amar o livro foram os personagens secundários que realmente fizeram a diferença no enredo. Realmente detesto livros em que os secundários vêm apenas para encher linguiça. Quando li Simon Vs A Agenda do Homosapiens  meu incômodo com foi a criação de tantos personagens que acabaram não tendo relevância no contexto principal. Como que para corrigir seu erro, Becky não perde ninguém e demonstra como a amizade e a família são importantes para a aceitação de si mesmo. Nadine e Patty (mães de Molly e Cassie geradas por meio da proveta) são lésbicas (obviamente né, Jéssica?) evidenciam o primeiro passo: se aceitar e ser feliz sozinhos. Reid (crushe 27) revela o segundo: somente aquele que nos aceita merece estar em nosso amor. E Cassie, Mina, OliviaAbby (lembra dela em Simon?) apresentam o  último sobre amizade e o modo com o qual elas nos mantém de pé.

A amizade é assim: nem sempre é determinada pelo que as pessoas têm em comum.

De todas as maneiras que consigo pensar, Os 27 Crushes de Molly foi um livro espetacular, diria que é um dos melhores livros no gênero e da vida. Becky Albertalli não se prende ao esteriótipo e nem sequer trata seus personagens como absolutamente especiais por apenas serem diferente. Somos naturalmente divergentes um dos outros devemos entender e respeitar isso, mas sobretudo nos aceitar e sermos felizes pela abundância de vida refletida em nós.

( Resenha ) Ladrões de Sonhos – Maggie Stiefvather – Livro 02

Minhas caras Corujinhas. Existem muitos segredos esperando para serem revelados. Em Ladrões de Sonhos Maggie Stiefvater vai te mostrar que o primeiro passo de tudo é acreditar no inacreditável que tudo pode se tornar possível.

ladrões de sonhos

Titulo: Ladrões de Sonhos
Titulo Original: The Dreams Thieves
Série: A Saga dos Corvos #02
Autora: Maggie Stiefvater
Editora: Verus
Páginas: 429
Ano: 2014
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Ladrões de sonhos, o segundo volume da Saga dos Corvos, traz de volta a imaginação selvagem e as reviravoltas eletrizantes que somente uma autora original como Maggie Stiefvater é capaz de criar. Ao lado de Blue, os garotos corvos — o privilegiado Gansey, o torturado Adam, o espectral Noah e o sombrio e perigoso Ronan — continuam sua busca pelo lendário rei galês Glendower. Mas suas explorações enfrentam um duro contratempo conforme segredos, sonhos e pesadelos começam a enfraquecer a linha ley — um canal invisível de energia que conecta lugares sagrados e que pode levá-los até o rei. Será por isso que a floresta mística de Cabeswater sumiu inexplicavelmente? Quem é o misterioso Homem Cinzento e por que ele está procurando o Greywaren, uma relíquia que permite tirar objetos de sonhos? E o que isso tem a ver com o indecifrável Ronan? Conforme Blue e os garotos corvos procuram respostas a essas e outras questões, o perigo que os envolve se torna cada vez mais real, e será preciso apostar todas as fichas nessa aventura enigmática.

Esta resenha não conterá spoilers do livro anterior.

Com sua narrativa poética e personagens singulares, Maggie Stiefvater conduz um livro diferente de tudo. Aliados as novas descobertas, Os Garotos Corvos possuem um ciclo devastador de mistério, aspereza, amor e solidão traçando caminhos que levam tanto eles como o leitor para além do que se possa imaginar.

Às vezes, algumas raras vezes, um segredo permanece desconhecido porque é algo grande demais para a mente guardar. Estranho demais, vasto demais, aterrorizador demais para ser contemplado. Todos nós temos segredos na vida. Nós os guardamos ou temos alguns guardados de nós, jogamos ou somos jogados. Segredos e baratas — é o que restará no fim de tudo.

Os Garotos Corvos foram evoluídos. Gansey parece mais isolado dos amigos durante sua busca por Glendower, mas isso não o torna frívolo. Eu diria que ele apenas se tornou pensativo pois sua busca se tornou que o desejo pela recompensa e sim pelas verdades que deseja descobrir. Adam que sempre foi um personagem ansiador pelo poder esta divido pela percepção que suas ações podem prejudicar os amigos. De longe, Adam foi o personagem mais forte, que ao tentar lutar contra o passado, prejudica seu futuro mesmo que não precise ser transformado em um vilão para isto. Blue foi um tanto controversa, muito embora continue perspicaz e independente, mas de todos eu diria que foi a que menos cresceu. Noah está instável pela inconstância  da linha ley, mas vai se tornando mais corajoso a medida que o livro passa, o que é surpreendente se levarmos em consideração suas atitudes no volume anterior. Já Ronan é ainda mais imersivo em seu próprio mundo, mas se antes ele parecia ter necessidade de guia agora caminha para uma independência quase que sem limites.

Por esses motivos, meu ponto favorito da história é a peculiaridade dos personagens. Eu poderia completar dizendo que não são clichês do gênero, mas com certeza estaria mentindo. A questão porém não é eles o serem, mas o modo como vão para além disto. É uma visão que você tem do livro anterior mas acredito que só pude ter uma visão clara e aperfeiçoada do que foram os personagens de Maggie durante essa obra. Cada um apresentou uma mudança significativa em sua personalidade que o fez se tornar ainda mais palpável, pois quanto mais denso um determinado personagem se constrói, mais força ele toma dentro da narrativa.

Ele podia se lembrar de toda sorte de nomes para ela agora, e todos pareciam mais adequados. Estrada das fadas. Caminho espiritual. Linha de canções. O velho caminho. Linha de dragões. Caminho dos sonhos. O caminho dos corpos.

Dizer que Maggie Stiefvater tem uma maneira única de contar seria um eufemismo. Ao narrar em terceira pessoa por inúmeros personagens diferentes, a autora sequencia os atos de modo encadeado para que estes se tornem quase que um processo químico onde nada se perde, tudo se transforma. Conceitos que foram apresentados são refeitos. Existe uma redução do que parecia ter sido importante e um aumento aos pequenos detalhes que não havíamos dado importância. É fantástico perceber o crescimento da história, muito embora deva ressaltar que esse segundo livro toma muito mais a característica de obra única do que continuação. Isto porque o foco da história teve uma mudança significativa.

Ao iniciar Ladrões de Sonhos você percebe que o primeiro plano de narrativa não está mais na busca por Glendower, mas sim na revelação feita por Ronan no volume anterior. Eu não tinha maiores explicações do porque havia ocorrido essa mudança de foco, de modo que no início fiquei confusa pois tive a sensação que Maggie havia perdido a linha de raciocínio. Contudo, ao perceber a obra como um todo nata-se que tal mudança foi bastante necessária já que apenas através dela o arco de explicações referentes aos acontecimentos desse volume pudessem serem plenamente concluídos e assim não comprometessem o entendimento geral da saga do leitor.

Em uma postagem no tumblrStiefvater comentou sua saga não havia começado com Os Garotos Corvos e Blue Sargent; mas sim com Ladrões de Sonhos, e Ronan Lynch. Dessa maneira Ladrões de Sonhos é anterior ao primeiro volume da série. Pode parecer estranho que Maggie tenha optado por começar sua saga do segundo volume e então retornar ao primeiro, mas vejo como uma ótima criação de fluidez a saga. O que não foi explicado no primeiro livro é feito no segundo, e o que poderia causar estranheza no leitor neste,  já havia sido devidamente explicado no primeiro. Portanto, estamos lidando com uma obra muito mais estruturada em termos narrativos, conectivos e explicativos que apesar de começar e terminar aqui, é fundamental para compreensão de tudo que já aconteceu e tudo que está por vir.

Naquele momento, Blue estava um pouco apaixonada por todos eles. Pela magia deles. Pela busca deles. Pela voracidade e pela estranheza deles. Seus garotos corvos.

Ladrões de Sonhos foi um livro que mudou minha perspectiva sobre A Saga dos Corvos. Maggie Stiefvater conseguiu dar uma continuação e um recomeço maravilhoso de todos os modos que podemos pensar. Apesar da minha confusão inicial, tudo que foi adicionado deixou um gosto de quero mais. Acredito que a partir desse ponto, essa saga tem tudo para se tornar uma das favoritas da vida. Afinal de contas, tenho a impressão que além das diversas surpresas que esse livro vai me trazer, a narrativa e os personagens devem continuar sendo tão espetacularmente peculiares.

A questão sobre Ronan Lynch, Adam havia descoberto, era que ele não gostava de — ou não conseguia — se expressar com palavras. Então cada emoção tinha de ser soletrada de alguma outra maneira. Um punho, um fogo, uma garrafa. (…) e ele precisava extravasar sozinho com seu corpo. Pela janela traseira, Adam viu Ronan pegar uma pedra no acostamento e jogá-la no mato

( Resenha ) Um de Nós Está Mentindo – Karen M. McManus

Cinco jovens, quatro segredos e uma morte. Esteja preparado para juntar os pedaços desse quebra-cabeça ou você estará fadado a se perder neste jogo onde as mentiras podem valeram sua própria vida.

um de nos esta mentindoTitulo: Um de Nós Esta Mentindo
Titulo Original: One Of Us Is Lying
Autora: Karen M. McManus
Editora: Galera Record
Páginas: 384
Ano: 2018
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon 

Sinopse: Cinco alunos entram em detenção na escola e apenas quatro saem com vida. Todos são suspeitos e cada um tem algo a esconder. Numa tarde de segunda-feira, cinco estudantes do colégio Bayview entram na sala de detenção: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, nunca quebra as regras. Addy, a bela, a perfeita definição da princesa do baile de primavera. Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas. Cooper, o atleta, astro do time de beisebol. E Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Na segunda, ele morreu. Mas na terça, planejava postar fofocas bem quentes sobre os companheiros de detenção. O que faz os quatro serem suspeitos do seu assassinato. Ou são eles as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? O que realmente importa é até onde você iria para proteger os seus.

De qualquer forma, a culpa é das pessoas. Se elas não mentissem e traíssem, eu estaria na rua.

Um de Nós Está Mentindo é o livro perfeito para todos aqueles que precisam de um choque de realidade sobre a perversão das mídias sociais que estão tomando conta do mundo. Mas não se engane, essa obra não se trata de um thriller como subtendido na sinopse, mas sim como um drama estruturado através do suspense. Existem partes tensas e segredos dentro da narrativa, mas o ponto principal do enredo são os segredos dos personagens e a maneira com o qual lidam com eles. Sua vida, a adolescência e as provações que todo jovem passa ao chegar na idade de decidir o futuro é o verdadeiro foco de Karen M. McManus que apesar de não construir um livro perfeito, consegue nos deixar as mais diversas reflexões.

Algumas pessoas são tóxicas de mais para viver. Simplesmente são.

O livro é narrado em primeira pessoa pelos quatro personagens principais que acredito terem sido meus maiores problemas com a trama. Começando pela narração, eu senti certa incapacidade de McManus em construir personalidades divergentes. Muitas vezes acabei me perdendo no contexto da obra porque as narrações eram muito parecidas, mesmo com os nomes acima do capítulo indicando quem estava contando naquele momento, tanto que várias vezes tive que me guiar pelo círculo de personagens secundários em volta dos protagonistas. Isso tornou tudo confuso de um jeito negativo pois eu demorei a ganhar um ritmo para com a história.

Ainda em relação a falta de divergências dos personagens, apesar de ter gostado da maneira com o qual cada um lidou com suas questões particulares, tenho que admitir que tive certa decepção ao perceber que nenhum foi além do clichê. De certo modo, acredito que a autora planejava diferencia-los apenas não conseguiu o efeito desejado. Tanto que antes de morrer, Simon comenta que todos integrantes daquela detenção é o esteriótipo de alguma coisa: uma nerd, a gostosona, o astro do time e o bad boy misterioso. Assim quando a autora faz a inversão de suas personalidades através do segredos de cada um, ao invés de inovar e criar contextos que tragam surpresas, ela retoma o clichê não conseguindo alcançar as expectativas, pois se McManus queria mostrar que ninguém é o que parece, ela fez isso usando um clássico de cometerem “crimes” que vão ao oposto das aparências.

– Ela é uma princesa, e você, um atleta – responde ele, apontando para Bronwyn e depois para Nate, – E você é um crânio. E também um criminoso. Vocês são todos estereótipos ambulantes de filmes de adolescentes

Mas como sou uma pessoa do contra, apesar dessas primeiras falhas, não posso negar que o que me manteve presa a narrativa foi a evolução dos personagens, principalmente de Addy e Cooper.  De certo modo, foram elas que deram sentido a narrativa apresentando críticas sociais muito importantes para o cenário geral da obra que envolviam os amigos, família e relacionamentos amorosos. Acredito na importância desse tipo inserção no enredo porque ajuda a edificar o livro tornando-o bem mais sustentável. Não vou falar um pouco de cada protagonista porque para isso teria que dar spoilers dos segredos que eles escondem, mas é interessante perceber que essas críticas sociais estão presentes na obra de forma consciente aos próprios personagens. São elas que regem os segredos e as ações, pois é o medo das críticas geradas pela exposição que os mantem mentindo.

Porém, o que mais me chamou a atenção dentro da narrativa foi a percepção que autora teve em relação as mídias sociais e como estas afetam diretamente a vida de todos. De certo modo, o Falando Nisso – aplicativo criado por Simon – é basicamente a crueldade humana personificada. Ninguém faz fofoca porque quer ajudar, mas sim pela humilhação que ela propõe. As mídias sociais como um todo participam ativamente da propagação dessa crueldade. Quantas vezes não pudemos observar pessoas caindo ou sendo exaltadas por simples boatos levantados em fotos ou trends-topics? Ninguém realmente se preocupa em investigar apenas acreditam no que veem por terem a noção de que, se está em alta logo deve ser verdade. Por esse motivo, a exposição dos segredos assusta tanto os protagonistas. Pois caso apareça uma nota sobre eles no Falando Nisso, ninguém iria pensar que se tratavam de boatos, mas sim de verdade absolutas que poderiam destruir suas vidas.

Todas essas redes sociais… é como se você não pudesse cometer um erro, não é? Elas te seguem por toda parte. O tribunal é bem indulgente com jovens impressionáveis que agem as pressas quando têm muito a perder.

Apesar dos contrapontos, eu indico sim a leitura de Um de Nós Está Mentindo pelas reflexões que a autora coloca em suas páginas. Apesar de ser confuso, não é livro difícil de ler, tanto que o fiz em um único dia. É uma obra que tem significância ao abordar tantos assuntos que estão presentes em nosso dia-a-dia. Karen McManus te implica a pensar em como você julga as pessoas, como manter segredos é difícil e essencialmente como a vida pessoal pertence unicamente ao individuo.

Não sei porque é tão difícil para as pessoas assumirem que às vezes elas são idiotas que estragam tudo por acharem que nunca vão ser pegas.

( Resenha ) O Rei Demônio – Cinda Williams Chima – Livro 01

Minhas caras Corujinhas. Preparem-se para uma aventura inesquecível. Um prenúncio da grande história que esta por vir. Pois era uma vez um ladrão e uma princesa com segredos escondidos e mistérios em seus corações que prometem abalar os alicerses de seu mundo.

O Rei DemonioTítulo: O Rei Demônio
Título original: The Demon King
Serie: Os Sete Reinos – 01
Autora: Cinda Williams Chima
Editora: Suma das Letras
Páginas: 284
Ano: 2014
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: O jovem ladrão reformado Han Alister é capaz de quase qualquer coisa para garantir o sustento da mãe e da irmã, Mari. Ironicamente, a única coisa valiosa que ele possui não pode ser vendida: largos braceletes de prata, marcados com runas, adornam seus pulsos desde que nasceu. São claramente enfeitiçados — cresceram conforme ele crescia, e o rapaz nunca conseguiu tirá-los. Enquanto isso, Raisa ana’Marianna, princesa herdeira de Torres, enfrenta suas próprias batalhas. Ela poderá se casar ao completar 16 anos, mas ela não está muito interessada em trocar essa liberdade por aulas de etiqueta e bailes esnobes. Almeja ser mais que um enfeite, ela aspira ser como Hanalea, a lendária rainha guerreira que matou o Rei Demônio e salvou o mundo. Em O Rei Demônio, primeiro de quatro livros, os Sete Reinos tremerão quando as vidas de Han e Raissa colidirem nesta série emocionante da autora Cinda Williams Chima.

Há mil anos, havia uma poderosa casa de feiticeiros chamada Casa Waterlow. Sua insígnia era um corvo, e o brasão de feiticeiro era uma serpente enroscada.

Sempre quando você lê a sinopse de uma determinada obra, espera no mínimo que o que está escrito aconteça. Por esse motivo, eu não costumo ler sinopses pois volta e meia uma editora erra de modo considerável na descrição do livro gerando euforia que normalmente resulta  em decepção. Por esse motivo, não levem ao pé da letra o que foi descrito sobre O Rei Demônio já que, apesar de não ser completamente diferente, não faz juz a história de Cinda Williams Chima.

Narrado em terceira pessoa, o livro faz sua narrativa quase que exclusivamente por meio de seus dois personagens principais. Se trata de uma alta fantasia ambientada em um ambiente completamente novo e cheio de magia, mistério e disputas por poder. Dona de uma narrativa única, Chima conduz sua obra de modo que o leitor se sinta envolto por uma camada não somente de descoberta mas também de suspense que vem junto à ela. É uma narrativa muito fácil de lidar, que não é nem carregada nem leve de mais funcionando como um meio termo que nos auxilia a construir cada pedacinho da obra. Mas o mais encantador é que Chima tem o cuidado de fazer com que seu livro flua não se perdendo no tempo da narrativa: há uma construção de acontecimentos evolutivos que são caminhos para o culmino da grande reviravolta final.

Havia algo de malévolo, mas fascinante, naquele amuleto. Ele emanava poder como o calor de um fogão num dia de frio.

Mas o mais encantador dentro da narrativa, foi perceber que, apesar de ser um mundo novo e em quase todos os aspectos que podemos pensar, a autora não tratou o leitor como ingênuo que precisava de explicações em favor de tudo que dizia. Não, ela formou pontos de referência de modo a sempre deixar que o leitor fosse o construtor das significâncias do livro. Assim, a obra perdeu uma parte do quê de obviedade que normalmente é impregnado aos primeiros livros de uma determinada série. Na verdade, ela ganhou outra vertente que é a de conectar verdadeiramente o leitor a obra.

Em relação aos personagens principais, posso dizer que ainda não cai de amores por nenhum muito embora tenha lá minhas preferência. Contudo, existe a liberdade da afirmação que ambos foram muito bem trabalhados para ganharem contexto e ir além dele. Tanto Han com Raisa apresentam características unitárias que os levam a si tornarem personagem bem difundidos dentro da literatura fantástica.  Se Cinda não se prende à enrolação na narrativa, com seus personagens ela além saindo do clichê de heróis de personalidade incorrigível. Não estou dizendo que estamos lidando com anti-heróis ou algo do tipo, mas sim que não estamos presos a personagens que tem tanta preocupação com a honra que esquecem do resto. Pois a autora se prontifica a criar pessoas reais, com sonhos e medos reais, capazes de lutar por eles utilizando de todas as armas que têm. É brilhante perceber que Chima não cria mais do que cada personagem pode oferecer, mas que também luta para que eles tenham o máximo de liberdade que na situação em que vivem podem possuir.

– Uma vocação não é algo que você consegue cobrir ou disfarçar, como uma camada de tinta, e trocar sempre que quiser. Se tentar fazer outra coisa, você fracassa.

A única coisa que me incomodou surgiu nas páginas derradeiras que foi a previsibilidade. Eu sei que disse que a obra perdeu a obviedade, mas naquele sentido, seria como um todo do que esperar das ações dos personagens em determinadas situações. Contudo, para o fechamento do livro em si, a autora optou pelo caminho mais fácil que consequentemente retirou parte do arrebatamento que poderia causar caso o final tivesse sido outro.

Apesar do ponto contrário, gostei bastante do livro como um todo que se tornou uma grande descoberta para mim no gênero fantasia. Mas posso ressaltar que não importa de qual gênero estamos falando, Cinda Williams Chima consegue inovar O Rei Demônio através dele com um pouco de tudo: romance, suspense, e bastante ação são apenas indícios do enredo magnífico que se pode esperar.

“O vale reluzia como uma esmeralda incrustada no alto das montanhas – protegido pelo picos que, diziam, eram as habitações das rainhas das terras altas, mortas havia muito tempo. Era aquecido durante todo o ano pelas fontes termais que borbulhavam sob o solo e irrompiam através de fissuras na terra.”

( Resenha ) Nunca Julgue Uma Dama Pela Aparência – Sarah MacLean – O Clube dos Canalhas – Livro 04

Minhas caras Corujinhas preparem-se para um livro de amores sensuais, mentiras perfeitas e amor à toda prova, pois se existe três coisas que unem os protagonistas deste livro são estas aliadas ao escândalo e a rendenção de dois corações.

Nunca julgue uma dama pela aparenciaTitulo: Nunca Julgue Uma Dama Pela Aparência
Titulo Original: Never Judge A Lady By Her Cover
Autora: Sarah MacLean
Editora: Gutemberg
Páginas: 320
Ano: 2016
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ ❤
Encontre: SkoobSaraiva  | Amazon

Sinopse: Duncan West, assim como todos os homens, enxerga apenas o que quer… Mas ele estava prestes a ver o que não queria. Para a aristocracia, Lady Georgiana é a pobre irmã de um duque, rejeitada pela família após ter sido arruinada no pior tipo de escândalo possível: uma mulher que fez escolhas infelizes ao entregar-se de corpo e alma para um rapaz que todos desconhecem. Mas a verdade é sempre muito mais chocante! Nos recônditos mais obscuros de Londres, Lady Georgiana é uma das mulheres mais poderosas da cidade fazendo parte da elite do Anjo Caído, o clube mais exclusivo de todo o reino. Circulando disfarçada pelos corredores como a prostituta Anna, ela sabe dos piores segredos dos figurões da sociedade e tem todos os poderosos na palma de sua mão, mas durante anos os seus próprios mistérios nunca foram descobertos… Até agora! Brilhante, inteligente e bonito como o pecado, o jornalista Duncan West está intrigado com a linda mulher – que de alguma forma está ligada a um mundo de trevas e perdição. Ele sabe que Georgiana é muito mais do que parece e promete desvendar todos os seus segredos, expondo seu passado, ameaçando seu presente e arriscando tudo o que ela tem de mais precioso. Inclusive seu coração.

– Eu caso, eu escolho você.
– Quando?
– Agora. Amanhã. Semana que vem. Para sempre.
– Para sempre, eu escolho para sempre.

Antes de começar Nunca Julgue Uma Dama Pela Aparência, um livro que eu já queria ler muito antes dos três anteriores, deixei a série de lado para perder toda a euforia em relação à obra. Esperar de mais sempre é um problema pelo amargo sabor da decepção que vêm quando algo não atende as expectativas. Aliado a isso, no skoob vi várias resenhas negativas em que Sarah MacLean havia criado um livro bem fora da casinha com atitudes discrepantes de seus personagens. De modo que ao ler a obra fiquei não somente surpresa pelo desenrolar da trama, como acho que por estar preparada à tudo fui além das páginas e entendi ainda mais sobre o mundo e a vida de mulheres que viveram naquela época. Ao contrário da decepção que eu esperava, Sarah MacLean me deu um livro maravilhosamente bem escrito que apesar de não ter sido meu favorito da autora, está sim entre os três livros que mais gostei dela.

É inegável dizer que MacLean tem um formato único para modelar suas histórias. Desde os segredos que a envolvem até as criticas que ela faz nunca estamos falando de apenas um romance, mas sim de personalidade, sobre querer ser mais do que a sociedade nos impõe. Desde a época em que a trilogia Os Números do Amor, percebi que Sarah tem um quê de diferente ao trazer seus romances ao mundo. Isto se deve ao fato de suas mocinhas nunca serem dependentes de ninguém, e mesmo quando são sua trajetória é travada para que elas se tornem maiores e mais fortes. Apesar disto, não posso classificar suas personagens como feitas para serem mulheres empoderadas, porque na verdade, elas são feitas para mostrarem os dois lados do ser feminino: a força que toda mulher tem e a vontade de amar e ser amada. Parecem dois sentimentos contraditórios, mas Sarah te mostra que na verdade eles se completam, pois ao oposto do que muitos pensam um não exclui o outro.

 A Sociedade odiava as mais lindas quase tanto quanto odiava as feias. Era a beleza que tornava o escândalo tão envolvente – afinal, se Eva não fosse tão linda, quem sabe a serpente a teria deixado em paz. Mas foi Eva quem se tornou a vilã da história, não a serpente. Assim como era a mulher quem perdia a honra, nunca o homem.

Em livros de época, normalmente não se tem personagens desonradas de acordo com as regras morais da sociedade. Normalmente são mulheres que nunca viveram uma aventura ou querem fazer isso, mas nunca aquelas que já viveram alguma coisa. Um dos grandes diferenciais dessa obra é justamente o fato de Georgiana já ser uma mulher vivida e, como consequência dessa vivência, ter sido duramente rechaçada pela sociedade. Seu propósito então não é viver o amor ou uma aventura, mas se casar para fazer com que a sociedade esqueça o seu amor e sua aventura do passado para que sua filha tenha a oportunidade de se tornar uma bela aristocrata. Pode parecer estranho que Georgiana queira essas coisas, mas partindo do principio que ela vive em um mundo onde o que importa sobre mulheres é quão integra sua virgindade se encontra, não parece existir alternativa razoável para que ela dê à sua filha a vida que esta merece. Chega ser bastante revoltante tal situação, pois, assim como Georgiana esta carregada dos pesos da sociedade, nós mulheres hoje em dia estamos também sujeitas aos olhos do povo. A única diferença é que temos mais liberdade (muito embora esta pareça pouca) para escolhermos a vida que queremos.


Baseando-se nesse contexto que MacLean constrói três pilares para o livro. Em primeiro plano, Georgiana quer ser mais forte e mais poderosa que todos aqueles que um dia ousam lhe julgar. É bastante presunçoso de sua parte, obviamente, mas também é o que todas as mulheres desejariam. Mostrar que não são os erros que te definem, mas sim o modo como você dá a volta por cima. O segundo é a incapacidade dela de conseguir a totalidade o primeiro; ora, se uma mulher não pode ter uma filha do casamento, imagine participar de um cassino? Soa irônico perceber que por mais que Georgiana tenha poder ela parece nunca conseguir exercê-lo com sua verdadeira personalidade, pois caso o fizesse sua ruína e consequentemente a de sua filha estariam perdidas para sempre. E por último, o amor que é tão próximo de Georgiana mas que jamais ela poderia acreditar que um dia irá ter. Em sua perspectiva, o amor destrói como fez com ela a tantos anos antes.

Aprendi, por experiência, que existem poucas coisas que valem ser salvas. Quando um homem encontra uma, ele deve fazer seu melhor para mantê-la em segurança.

Em qualquer outra obra, uma mocinha que nega a verdade do amor normalmente me irrita ainda mais quando ela foge dele. Contudo, o fato de Georgiana ter amado e ter se ferrado por conta disto (de todos os modos possíveis) torna o livro bastante plausível. O romance que ela tem com West fica mais interessante, pois mesmo sabendo do seu desejo de não se apaixonar também é possível enxergar o caminho que ela trilha para chegar a isso. Contudo aqui também não se trata de amor, desejo ou ódio a primeira vista porque os dois já se conheciam e Georgiana já desejava estar com Duncan (de um lado puramente sexual, acredite), mas ele jamais a tinha enxergado antes de perceber quem ela era realmente. Fiquei bastante encantada por esse lado da história, pois Georgiana tem dois pontos que a transformam na heroína de época mais inusitada de todos os tempos. O primeiro é que o amor não faz parte de seus planos e o segundo que apesar disso abrir mão dos suas fantasias não esta na linha de descarte, mesmo que ela deseje estar apenas com este determinado jornalista.

Duncan também tem seu brilho próprio, contudo acho mais interessante que você leitor (a) descubra os segredos e a personalidade dele por si mesmo, posso apenas adiantar que ele é tão inteligente quanto bonito e que existe bem sobre sua casca de canalha do que podemos imaginar. Por isso, para finalizar esta resenha só lhe digo uma coisa: não tenha medo de ler Sarah MacLean e se decepcionar, porque mesmo que este não sejam os melhores livros da sua vida, eles vão com toda certeza mudar seu ponto de vista sobre inúmeras coisas, mas principalmente sobre o que é ser uma mulher forte, determinada e ainda sim permanecer feminina.

Amor. A matéria prima dos sonetos e galanteios e contos de fadas e romances. Amor. A emoção ardilosa que faz homens chorarem e cantarem e arderem com desejo e paixão.

( Resenha ) Em Casa Para O Natal – Cally Taylor

Minhas caras Corujinhas. Na vida as coisas podem acontecer como um turbilhão mesmo quando tudo parece estar acontecendo as mil maravilhas. Nossa história de hoje será sobre uma mulher que precisa aprender à se amar e encontrar seu destino através de suas próprias pernas.

Em Casa Para o Natal

Titulo: Em Casa Para O Natal
Titulo Original: Home for Christmas
Autora: Cally Taylor
Editora: Bertrand
Páginas: 350
Encontre: Skoob| Amazon| Saraiva
Avaliação:⭐ ⭐ ⭐ ⭐

Sinopse: Ela tem a vida quase perfeita. Seu único desgosto é nunca ter ouvido as três palavras mágicas: eu amo você. Beth Prince sempre adorou contos de fadas e acredita que está prestes a viver um final feliz: tem o emprego dos sonhos em um charmoso cinema independente e um namorado maravilhoso chamado Aiden. Ela faz parte de um grupo privilegiado de pessoas que trabalha com o que ama, e o entusiasmo pelos filmes intensifica a busca por seu próprio “felizes para sempre”. Só há um problema: nenhum homem jamais declarou seu amor por ela. E, apesar de acreditar que Aiden é o príncipe encantado, a protagonista desconfia de que ele tem medo de dizer “eu amo você”. Desesperada para escutar essas palavras mágicas pela primeira vez, ela resolve assumir as rédeas do destino — e acaba se arrependendo. Com Em casa para o Natal, Cally Taylor brinda o leitor com uma deliciosa comédia romântica que tem como pano de fundo o espetacular universo do cinema e os tempos festivos do Natal. 

Às vezes sinto como se houvesse algo errado comigo. Se não, por que os homens tomam tudo o que ofereço e depois me dão um pé na bunda? É como se eu não fosse boa o suficiente ou algo do gênero. Às vezes tenho a sensação de que quanto mais eu corro atrás do amor, mais rápido ele foge de mim.

Ler livros de comédia romântica é um desafio para mim. Isto, porque eu nunca consigo rir onde deveria acabando por terminar o livro com aquela sensação li errado, vou ter que ler de novo. Por isso sempre evitei novos autores para livros deste tipo fixando apenas naqueles que já estava acostumada. Até que em dezembro, numa linda promoção das lojas americanas, adquiri um exemplar de Em Casa Para O Natal de Cally TaylorUm dos meus projetos era até resenhá-lo para o natal, mas sabe como é a preguiça foi mais forte (kkk). De modo que acabei lendo ele somente em Fevereiro. E, para minha surpresa, foi uma leitura super gratificante que me deixou bastante satisfeita no final.

Como o bom chik-lit que é, Em Casa Para O Natal tem uma leitura que é pautada pela simplicidade de uma moça atrapalhada. Apesar do clichê clássico do gênero, nossa heroína acaba por ter uma personalidade bem complexa que vai além do esperado. Diferente da maioria, Beth não chega a ser uma mulher dotada de força e independência mas sim o oposto: ela precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir mais plena. Chega à ser assustadora essa necessidade da personagem pois demonstra como o ser humano consegue ser frágil e insatisfeito consigo mesmo. Por isso, a partir disto, a autora toma para si a necessidade de mostrar a evolução da personagem. De frágil e desamparada, Beth transforma-se numa mulher independente para lutar por aquilo que deseja.

Um dos meus pontos favoritos da história foram os personagens secundários que carregaram a leveza na obra e os ensinamentos à serem passados para Beth. Tanto seu par romântico, como sua melhor amiga e também sua mãe trazem algo de novo a protagonista. O amor não deve ser fantasioso, a amizade não deve ter mentiras e a força de uma mulher está naquilo que ela – por si própria – é capaz de conquistar.

Em Casa Para O Natal deve ser um livro tomado sem nenhuma expectativa. Não é um livro de romance apesar de ele existir dentro da obra. É um livro sobre amadurecimento, sobre se encontrar. Um livro que realmente pode ser lido em todas as épocas do ano.

( Resenha ) O Conto da Aia – Margareth Atwood

Minhas caras Corujinhas. Para algumas pessoas, o mundo é preto e branco forjado naquilo que elas alimentam como verdade absoluta. Digo isso para que vocês possam se preparar para entrarem em uma sociedade onde a verdade que tentaram esconder de nós esta em pleno movimento.

o conto da aiaTítulo: O Conto da Aia
Título original:
 The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth
Editora: Rocco
Páginas: 368
Ano: 2017
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐❤
Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano

Observações: Este post vai ser metade resenha e metade spoiler. Haverá sinalização de onde a segunda começa. 

Antes de mais nada, quero de cara pedir desculpas. Esse vai ser, com toda certeza, um dos mais longos posts do blog. Eu não costumo fazer isso, mas pelo conteúdo de O Conto da Aia e pelas minhas considerações durante a leitura e pós, me sinto a vontade para falar de modo mais aberto possível o que vai resultar em uma longa discussão.

Conheci O Conto da Aia pelo blog da Vivi (O Senhor dos Livros) através uma resenha fabulosa dela, que me deixou bastante interessada em ler esta obra. Dessa forma, quando tive a oportunidade de ler livro por intermédio da minha amiga Cris, não perdi a oportunidade e corri pra obra. E ao finalizar a leitura, ganhei a certeza de ter sido um dos melhores livros de minha vida. É uma ficção com cara de real que me fez pensar muito além daquilo que estou acostumada.

Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que tudo era assim.

O Conto da Aia é, antes de tudo, um livro sobre a humanidade. De certo modo, representa com clareza os seres primitivos que somos. Acima de tudo nosso egoísmo, nossa dependencia e nossa vontade de fazer nossas verdades mais fortes que as de outrem. Com uma narrativa lenta, mas profunda, Margareth Atwood demonstra como a República de Gilead está terrivelmente próxima à nossa. Não somente pelo tempo, mas pela maneira com que os cidadãos pensam sobre papéis de uma pessoa em sociedade.

O livro é pautado através dos preceitos biblicos interpretados ao pé da letra. É estranho ver como a autora se apropria de pedaços da Biblia para embasar a teoria que rege sua república. Pois do mesmo modo que podemos perceber a verdade de suas palavras, também é possível o tendecionalismo que a envolve. Isto simplifica então o verdadeiro paramêtro do livro: o machismo que predomina para retirar das mulheres o direito delas de serem livres pela premissa que isso não é digno delas.

Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo nascido.

De todas as formas que consegue, então, a autora busca demonstrar como nós mulheres somos rejeitadas como individuos nessa sociedade. Deixamos de ser nossas, e passamos à pertencer aos comandantes. Isto é tão forte que você passa a si ver como componente da obra e não mais como somente um leitor. Somos levados a nos colocar na pele daquelas mulheres para sentir o que elas sentem. Os choques são nossos bem como o ódio pela situação imposta.

Os personagens propostos por Atwood são opostos com versões diferentes de um mesmo pensamento. É interessante perceber que mesmo narrado em primeira pessoa por Offred, a autora tem o trabalho de deixar pistas sobre o que os personagem refletem sobre o que está acontecendo. Mas muito mais do que isso, como existe um cuidado especial dela em colocar as filosofias dos personagens a mostra de maneira que não somente possamos entendê-las, mas conceber os caminhos que levaram esses personagens a terem essas verdades. Esse ponto é um dos fundamentais de Atwood: você entende – mesmo não concordando – e é levado a refletir os motivos pelos quais consgue ou não dar razão a estas pessoas.

Margaret Atwood escreveu um livro que merece ser lido por razões inúmeras. A principal dela, diria eu, é entender que certas concepções por mais que as neguemos ainda estão infiltradas no seio da nossa sociedade como se esperassem o momento certo para nos dominarem como aconteceu com a República de Gilead. Recomendo este livro à todos aqueles que almejam refletir sobre a importância de mudar e não aceitar nenhum tipo de destratar.

A partir deste ponto esta resenha conterá spoilers.

Melhor nunca significa melhor para todos… sempre significa pior para alguns.

Ler O Conto da Aia me trouxe alguns sentimentos estranhos e diria até que fundamentais. Certas coisas, certas compreensões todos sabemos que estão presentes em nosso cotidiano. E por mais que saibamos disto, é sempre difícil falar sobre o assunto. Geram discussões que a maioria busca evitar pela dor de cabeça que traz. Mas a verdade é que muitos de nós ficamos acovardados em lutar ou achamos infrutíferos o fazer. Por isso que ao ler esse livro tomei mais uma vez uma percepção de como as lutas são importantes, como precisamos criar novos permancer fortes perante aqueles que desejam nos subjulgar. E baseando-se na atual estrutura política não somente do país bem como de todo mundo, lutar pelo feminismo e contra o totalitarismo nunca foi tão importante.

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No cartaz: “O Conto da Aia não é um manual de instruções.” – Fonte: HuffPost Brasil.

O nome do livro já demonstra uma luta. Uma Aia em termos históricos é uma serva sem voz. Ela pertence aos seus donos e não tem posicionamento social ou político. Dessa maneira, a autora já deixa uma pista sobre não se calar, ser ouvida mesmo quando não podemos abrir a boca. Contar nossa versão da história mesmo quando formos levadas à não sermos ouvidas. Outro ponto que ressalta a importância de não se calar é o prefixo e radical dos nomes das mulheres: todas começam com Of  que em inglês significa De associada ao nome do Comandante ao qual elas pertencem. Isto é explicado no livro, mas também deixa margem para pensar sobre o desligamento. Afinal se fosse um diminutivo de Off  poderia ser interpretado como a perda em relação à si mesmo como pensante. Elas não tem mais autonomia sobre sua própria mente. Você não está mais online em si mesmo, sim offline para receber os pensamentos de outras pessoas.

Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça nesse labirinto

Causa certa estranheza entender como uma sociedade se deixa chegar ao ponto de ser subjulgada de tal modo. Mas devemos perceber que temos aqui, o funcionamento da lei do mais forte e daqueles que acreditam passos que apenas se adequam à sua trajetória, não levando em consideração o que eles querem dizer em realidade. As mulheres perderam muito porque machismo – e aqui incluo também as mulheres que também pensam dessa forma – foi retirando aos poucos seus direitos começando dos mais essenciais aos mais importantes. Nas memórias do passado de Offred é perceptivel como foram sutis as mudanças, sendo estas bem aceitas pela parcela da sociedade que queria ter o domínio sobre as vidas de todos. Como o pensamento de inferioridade feminina esteve – e está – presente em cada ação que todos tomam.

A maior ponte de ilustração em como a sociedade anterior já possuía aquele pensamento antes deste ser homologado vem do marido de Offred. Este homem sempre fez comentários machistas dissimulados em forma de brincadeiras. Isto apenas se prova quando ele fica extasiado ao saber que as contas das mulheres, inclusive a da sua, foram congeladas; que ela perdeu o emprego tomando para si o sentimento antiquado de importância, onde sua esposa voltará a depender dele para tudo. É tão revoltante isso, porque é cruelmente real. Quantos homens hoje em dia não acreditam mesmo que o lugar da mulher é em casa? Quantos não gostariam que as mulheres fossem impedidas de trabalhar?  Somos frutos desse pensamento, sim e como a própria autora afirma, é uma concepção que queremos acreditar que foi extinta mas que se faz presente em cada momento de nossas vidas.

Além desta questão feminista que Atwood denota em sua obra, também não podemos esquecer a fé radical que rege a República de Gilead. A autora toma como princípio para a fundação deste país a biblía e uma fala de Raquel que deseja que seu marido tome sua empregada como amante para que assim os dois tenham filhos. De modo à demonstrar como a ignorância é perigosa, a autora transforma o contexto dessa passagem outra. Ela é tomada ao pé da letra para que os habitantes sejam atraídos por esse pensar, sem que haja desconfiança do verdadeiro próposito opressão que o governo está se tornando. Em tempos atuais como não enxergar isso como o terrorismo e xenofobia? Pois existem tantas passagens de fé que são deturpadas para se tornarem armas daqueles que apenas precisam de um induto para cometer um crime. Não é uma verdade, mas sim uma desculpa fajuta para se tornar um radical de suas próprias opiniões.

Dessa forma, de todas as formas que consegue, Margareth Atwood transforma um livro provocativo. O mundo parece ter se perdido mais uma vez em suas ideias retrógradas onde somos levados à ser uma coisa ou outra: lascivos ou puritanos, forte ou fraco, direita ou esquerda. Não existe mais tolerância apenas raiva contra quem julgamos ser diferentes. Desse modo, O Conto da Aia se torna obrigatório por ser um manual de instruções daquilo que não devemos aceitar. Um livro que usa do passado para construir um futuro e com o intuito de modificar o nosso presente.

Como todos os historiadores sabem, o passado é uma escuridão, e repleta de ecos. Vozes podem nos alcançar a partir de lá; mas o que dizem é imbuído da obscuridade da matriz da qual elas vêm; e por mais que tentemos, nem sempre podemos decifrá-las precisamente à luz mais clara de nosso próprio tempo.