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| CONTO | Os Tentáculos da Escuridão

Você esta de pé dentro do quarto observando as sombras tomarem conta do ambiente. O tempo parece passar mais rápido enquanto os últimos raios de sol desaparecem e os desenhos negros escorrem pelo chão. Dali à alguns segundos o quarto mergulha em um escuridão quase total com apenas alguns raios de luar atravessando a penumbra. Você então fecha os olhos e pressiona seu corpo contra a parede. Encolhe-se escorregando lentamente até o chão colocando o queixo sobre o joelho abraçando suas pernas. A partir daí você sabe que a única coisa que pode fazer é aguardar que Aquilo venha embora esteja rezando para que seus pesadelos não ganhem vida novamente naquela noite. Você precisa de um pouco de paz. Precisa que Aquilo não venha. Precisa que nada aconteça para aparentar estar bem de modo que todos fiquem convencidos a lhe tirarem desse lugar e lhe levarem para casa.

Sem aviso prévio, um som se espalha pelo ambiente ao mesmo tempo que frio inunda o quarto, mas suas mãos esquentam e ficam suadas. Você sente que aperta os olhos ao mesmo tempo que uma lágrima solitária escorre a força pelas pálpebras fechadas. Não existe ninguém que você possa chamar, que poderá lhe socorrer quando Aquilo chegar. Você sabe disso, porque não é primeira vez que Aquilo lhe aparece. Se fosse não estaria presa naquele quarto. Sabe disso, porque quando Aquilo chegar somente você vai ouvir seus passos e sentir o cheiro que emana. Apenas você vai ver quando estiver inerte na eternidade criada a partir do instante em que ver sua aparência negra e monstruosa. Porque somente você realmente pode vê-lo pois é única pessoa que pode lhe dar o que Aquilo mais deseja.

Mas então, quando tudo parece perdido, uma coisa nova acontece. A porta do quarto se abre e um homem de cabelos castanhos aparece na moldura porta. É seu pai que está com um olhar perturbado, mas determinado dizendo que irá apanhar suas coisas pois está na hora de você sair daquele lugar não importa o que qualquer outra pessoa pense. Seu pai não lhe dá tempo para pensar e quando você se dá conta já está sob em uma cadeira de rodas com uma mochila cor de sangue colocada sobre o colo. Você não entende porque ele está te levando para o exterior sendo que tudo que já fizeram com você foi te trancar naquele lugar pois todos diziam que era ali que você deveria ficar. Para se tratar e se recuperar até que pudesse ser uma pessoa normal. Sua segurança não estava garantida fora daquele prédio. Lhe diziam isso porquê achavam que mais uma vez você tentaria machuchar a si mesma. Mas eles não entendiam que machucar à si mesma talvez fosse sua única válvula de escape.

Enquanto pensa nisto, a cadeira de rodas desliza silenciosamente sob as cerâmicas brancas. Você estranha o fato de que não há nenhuma outra pessoa viva além de você e de seu pai em qualquer parte. Os olhos passeiam de um lado para o outro procurando qualquer movimentação. Seu pai ao perceber sua reação sussurra que aquele horário todos devem estar dormindo e que os plantões só ocorrem nos andares onde à perigo. Nesse instante, você se dá conta que seu pai já planejava te tirar dali pois demonstra ter tudo planejado. Um suspiro de alívio sai dos seus lábios em um fio de esperança de que talvez você se liberte daquela prisão.

Vocês param à frente do elevador e seu pai aperta o botão que assume uma cor azulada. Ele lhe olha enquanto esperam e sorri, mas você percebe que é um sorriso estrangulado, como se estivesse o fazendo obrigação para te dar a sensação que tudo irá darto. Embora esteja nitido que seu pai está com medo dos cálculos terem saído errados e vocês serem pegos.

No instante que você sorri de volta, as portas do elevador se abrem e logo os dois estão ouvindo uma musiquinha idiota enquanto descem para o estacionamento. Mas quando as portas tornam a se abrir não é mais no estacionamento que vocês estão. E sim no primeiro andar muito embora a luz do botão indique estacionamento. Sua cadeira desliza para frente até que ela para no corredor que da à recepção. Como que em um filme, as luzes piscam e as correntes elétricas zumbem como se estivessem em mal contato. E pela segunda vez aquela noite, você fecha os olhos e sente que as sombras estão se aproximando.

Seu pai coloca a mão no seu ombro e pede que você fique calma. Ele percebe que você está com medo de algo, mas afirma que logo aquilo tudo irá passar pois o erro que ele havia cometido no passado iria ser corrigido quando ele à tirasse dali. Você balança a cabeça assentindo muito embora saiba que aquilo não é verdade. Os medos são muito maiores que os lugares onde estamos. Pois quando eles se enraizam na mente se tornam muito mais densos e muito difíceis de serem retirados de lá.

Seu pai pede que você faça silêncio e tira a mão do seu ombro. Ele volta para suas costas e empurra sua cadeira através do corredor. Com o som suave dos passos ecoando pelo ambiente fechado, você sente-se melhor e abre os olhos. Agora, os dois passaram pela recepção e estão próximos à porta de vidro automática que se encontra trancada. Chove do lado de fora, de modo lento mas denso fazendo com que uma neblina encubra parcialmente a visão que você tem do lugar. E mesmo assim é bonito observar as nuvens amarelo-esbranquiçadas em contraste com o preto do céu.

A cadeira volta à se movimentar, mas você não tira os olhos do vidro. Esta em estado de encantamento com aquela visão que parece ser ao mesmo tempo apocalíptica e paradisíaca. Observa esta beleza por vários segundos, até que um clarão rompe na escuridão e torna o vidro uma espécie de espelho. E então, ao observar a cena que se desenrolar atrás de você fica inerte de medo. Tudo paralisa-se em um segundo inexplicável onde você consegue perceber todos os detalhes na cena refletida.

No espelho, seu pai esta caído no chão com o rosto desfigurado e o pescoço cortado em uma aparência medonha enquanto o monstro está com um objeto brilhoso nas mãos com um sorriso jubilante de vitória, andando até você. Ele tem a aparência exata do seu sonho. Olhos negros, um rosto contorcido de ódio e algo mais que você não consegue identificar. Os tentáculos que formam os membros do seu corpo estão parcialmente escondido pelas sombras daz luzes exatamente como deve ser já que estas não conseguem lhe alcançar. E mesmo quando o espelho volta a ser um vidro você sabe que o monstro ainda está ali indo na sua direção.

Apesar de saber que deveria correr e se esconder você não faz isso pois tem consciência que não adiantaria muita coisa. De todo modo, o monstro lhe alcançaria. Ele é mais rápido, mais forte e facilmente te subjulgaria. Não há como fugir. Você olha para seus pés e ao mesmo tempo percebe que o sangue de seu pai chegou às rodas da sua cadeira em uma poça densa. E é por esse sangue que você mais uma vez o reflexo do monstro. Agora ele está de pé ao seu lado. Ele coloca a mão do objeto em suas costas e você sente o frio, dessa vez com um distante toque do metal. Mas ao invés de deixar-se ficar na inércia, em um lapso de coragem que nunca havia tido antes — não por sua vontade pelo menos —, você levanta os olhos e encara o monstro. Então, ao olha-lo com sua mente despida do medo você realmente o vê e, em um momento de lucidez, compreende o que nunca havia conseguido.

Enquanto, o sangue do segurança que também tem cabelos castanhos e é muito parecido ao homem que está ao seu lado escorre pelo chão, seu pai lhe encara abrindo um sorriso. Onde antes você via um herói, agora você uma criatura sem pudores e desejosa do seu corpo. Você tem acesso à antigas memórias de quando era criança e seu pai entrava em seu quarto para lhe ensinar como era brincar como se ambos fossem adultos. Lembra-se de como ficava com medo, naquelas noites frias de outubro e como conduzia-se à pensar que aquele não era seu pai. Mas sim um monstro de dedos, ou melhor, de tentáculos assombrados que tomava o lugar de seu pai e fazia-lhe todas aquelas coisas tocando-te e penetrando em seu corpo. Você então percebe que o monstro dos seus sonhos é apenas uma invenção que sua mente inventou para lhe poupar da verdade. Percebe que monstros existem sim, mas eles não são feitos de partes inumanas como os filmes fazem acreditar e nem são fruto da imaginação. Os monstros são feito de carne, osso e sangue: eles são os humanos pois estes sim são verdadeiros atrozes capazes das maiores monstruosidades.