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| RESENHA | Mestre das Chamas – Joe Hill

Oii Corujinha, tudo bom? Esses últimos meses do ano têm sido recheados de grandes leituras. Mestre das Chamas de Joe Hill foi com certeza uma delas. Em uma ficção científica — mas intrigantemente classificado também como terror — o autor cria um universo apocalíptico onde o medo e a incerteza são peças chaves para o enredo.

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Título: Mestre das Chamas
Título original: The Fireman
Autor: Joe Hill
Editora: Arqueiro
Páginas: 592
Ano: 2017
Avaliação: 👑 👑 👑 👑
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Ninguém sabe exatamente como nem onde começou. Uma pandemia global de combustão espontânea está se espalhando como rastilho de pólvora, e nenhuma pessoa está a salvo. Todos os infectados apresentam marcas pretas e douradas na pele e a qualquer momento podem irromper em chamas. Nos Estados Unidos, uma cidade após outra cai em desgraça. O país está praticamente em ruínas, as autoridades parecem tão atônitas e confusas quanto a população e nada é capaz de controlar o surto. O caos leva ao surgimento dos impiedosos esquadrões de cremação, patrulhas autodesignadas que saem às ruas e florestas para exterminar qualquer um que acreditem ser portador do vírus. Em meio a esse filme de terror, a enfermeira Harper Grayson é abandonada pelo marido quando começa a apresentar os sintomas da doença e precisa fazer de tudo para proteger a si mesma e ao filho que espera. Agora, a única pessoa que poderá salvá-la é o Bombeiro – um misterioso estranho capaz de controlar as chamas e que caminha pelas ruas de New Hampshire como um anjo da vingança. Do aclamado autor de A estrada da noite, este livro é um retrato indelével de um mundo em colapso, uma análise sobre o efeito imprevisível do medo e as escolhas desesperadas que somos capazes de fazer para sobreviver.

Comecei Mestre das Chamas com uma pitada de incerteza sobre o que poderia me esperar no caminho. Conheci o livro através de uma resenha fantástica da Bia do blog Literatura Estrangeira (clique aqui para ler a resenha dela também) e fiquei com a obra na cabeça desde então. Em tempos cada vez mais assombrosos onde parece que estamos sempre a beira de um colapso, ler um livro que retrata o apocalipse parece ser obrigatório. É como vislumbrar o poder que a humanidade têm de ser bondosa e gentil ao mesmo tempo que é capaz de atrocidades para salvar a própria pele. Por isso, ao me deparar com a narrativa de Joe Hill sabia que teria um caminho permeado por verdades cruéis sobre quem somos e o que podemos ser. O livro não é apenas uma estória do mundo acometido pelo caos, mas uma quase história de porque esse caos existe.

Existe algo de terrivelmente injusto no fato de morrer no meio de uma boa história, antes de  ter oportunidade de ver como tudo acaba. Em certo sentido, claro, eu acho que todo mundo sempre morre no meio de uma boa história. Da sua própria história. Ou da história dos seus filhos. Ou dos netos. A morte é sempre dureza para os viciados em narrativas.

Joe Hill tem uma narrativa ao mesmo tempo lenta e fluída. Aquele tipo que você vai ler durante horas sem cansar, mas que vai precisar de tempo para diregir o que esta sendo contado. Usando de uma linguagem comum e referências maravilhosas, em uma camada superficial Joe dá um mundo comum apesar da doença que se espalha. É perceptível aqui como o autor tenta ligar o leitor à narrativa como se dissesse: Hey, esse mundo aqui um dia foi o seu. Foi uma maneira absurdamente brilhante de conectar os fatos presentes no livro à vida do leitor. Quando você percebe a camada de referências entende-se também como parte da história. Poderia ser sua mente fazendo ligações aqui e lá.

A morte e a ruína são o ecossistema preferido do homem. Já leu sobre a bactéria que prospera dentro dos vulcões, bem à margem da rocha fervente? Somos nós. A humanidade é um germe que prospera bem na fronteirada catástrofe.

Mas apesar de ter gostado do modo como o autor conduziu seu enredo tenho que admitir que senti uma certa proscastinada em suas páginas. O livro poderia facilmente ter umas cem páginas a menos. Entendo que boa parte dessa procrastinação foi a criação de aliserce da obra mais seguro da obra ou a enfatização de certos pensamentos, mas também percebo que o mesmo efeito teria sido produzido de uma forma ou de outra.

Desespero é apenas um sinônimo de consciência, e demolição é quase o mesmo que arte.

Em relação aos personagens, foi interessante ver como a abordagem de suas ações foi comum. Todas as decisões tomadas foram frutos de algo que realmente poderia ter acontecido. Ao ler livros, uma coisa que me irrita bastante é quando o personagem toma uma decisão bem viajada, daquele tipo que qualquer um pode notar que se fosse na vida real não teria sido feita. Então fico feliz em dizer os personagens de Mestre das Chamas não se entregam à esse erro. Pelo contrario, suas ações — idiotas ou não — provém dos pensamentos de personalidades verossímeis sendo guiadas pelo medo e pelo instinto de sobrevivência.

O medo não tende a fazer as pessoas moderarem seu uso de táticas extremas.

O medo é uma das — se não a — condição mais pura do homem. O medo nos faz crianças tolas que precisam de um guia ou adultos cruéis que faram de tudo para sobreviver. Quando estamos amendrontados viramos um produto do instinto de sobrevivência. A racionalidade se extingue e somos dominados pela vontade simples e pura de continuar vivendo. É exatamente isso que Joe Hill vai expor em seu apocalipse. O medo é o elemento central que irá guiar todos os outros, pois sempre que existe uma criança tola existe um adulto cruel para lhe guiar. Hill demonstra como ficamos a mercê de qualquer pessoa querendo acreditar que tudo aquilo é para o nosso bem ou tudo que fazemos é para o bem de quem amamos.

Mas aí penso, ué, mesmo antes da Escama do Dragão a maioria das vidas humanas era injusta, brutal, cheia de perda, tristeza e confusão. A maioria das vidas humanas era e é curta demais. A maioria das pessoas passou a vida faminta e descalça, fugindo de uma guerra aqui, de uma fome ali, de uma epidemia aqui, de uma enchente acolá. Mas as pessoas mesmo assim precisam cantar. Até mesmo um bebê que não come há dias para de chorar e olha em volta quando ouve alguém cantar de alegria. Quando você canta, é como dar de beber à quem tem sede. Uma gentileza. Isso faz você brilhar.

Mas se Joe nos mostra o lado fraco da humanidade, ele também nos mostra como supera-lo. Foi tocante ler cenas de compaixão em meio à tanta raiva. Desvendar que se para dez pessoas horríveis existe uma que se levanta contra. O medo não possui somente um lado. Com ele vem também a coragem para lutar por um dia melhor. Não precisamos nos ajoelhar, como também devemos lutar por quem acreditamos. Alguns de personagens nos guiam a acreditar nisso. Harper, por exemplo, tanto quer proteger seu filho como também zelar pelas pessoas que conheceu. A monstruosidade lhe faz ter medo, mas o amor lhe da coragem.

A sua personalidade não é só uma questão do que você sabe, mas do que os outros sabem sobre você. Você é uma pessoa com sua mãe, outra com seu par, e uma terceira com seu filhoou filha. Essas outras pessoas criam você tanto quanto você mesmo se cria, elas lhe dão seu acabamento. Quando você se vai, aqueles que deixou para trás guardam a mesma parte sua que sempre tiveram.

Em meio a todos esses contextos, Mestre das Chamas é um livro supreendene pela proeza de nos fazer pensar. O mundo acabou pela primeira vez em água e pela segunda pode ser em chamas. Mas ambos talvez tenham em comum a maldade do homem como sua própria ruína. Não é a natureza em si que nos matará, mas a verdadeira natureza do homem que sempre o conduz rumo à sua destruição. A diferença entre viver ou morrer esta em quem todos iremos ser quando este tempo chegar.