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( RESENHA ) Vox – Christina Chalder

Quando comecei a ler Vox já esperava uma leitura impactante sobre a força machista e opressora presente em nossa sociedade. Mas sinceramente, acho que não imaginava a quantidade de referências ao que vem acontecendo diariamente principalmente no Brasil. Assim sendo, muito embora Vox não tenha sido uma leitura perfeita, o livro vale a pela pela importância e necessária crítica moral. 

Título: Vox | Título Original: Vox| Autora: Christina Chalder | Editora: Arqueiro| Páginas: 320| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

VoxSinopse: Uma distopia atual, próxima dos dias de hoje, sobre empoderamento e luta feminina.
O SILÊNCIO PODE SER ENSURDECEDOR #100PALAVRAS
O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo…
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
…mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

“Houve muitas vezes em que eu quis culpá-lo, mas não posso. Os monstros não nascem assim, nunca. Eles são feitos, pedaço por pedaço e membro por membro, criações  artificiais de loucos que, como o equivocado Dr. Frankenstein, sempre acham que sabem mais.”

Desde que O Conto da Aia foi relançado em formato de série, parece ter havido um estopim da literatura como fonte de alerta social, principalmente no que diz respeito as mulheres. E não é para menos, se considerarmos as perspectivas que surgem no horizonte onde governos de esquerda e manifestações ideológicas assumem papeis de destaque aliados à uma palavra assustadora: extremismo. Cristina Dalcher, ciente do papel social da literatura e dos perigos que essa ideologia oferecem aos direitos femininos, presenteia o leitor com uma obra impactante, ou melhor, provocadora por ser completamente plausível. 

“Com seis anos, Sonia deveria ter um exército de dez mil lexemas, soldados que se reúnem, ficam em posição de sentido e obedecem as ordens dadas por seu cérebro maleável. Deveria, se os três elementos básicos (leitura, escrita e aritmética não estivessem reduzidos à um: aritmética básica. Afinal de contas, um dia minha filha deverá fazer compras e cuidar da casa, ser uma esposa dedicada e obediente. Para isso, é preciso aprender matemáticas, não soletracão. Ela não precisa de literatura. Muito menos da voz.”

Narrado em primeira pessoa, o livro se equilibra entre flashes passados e momentos presentes. Dalcher nos mostra como a sociedade evoluiu – ou melhor, retrocedeu ao ponto das mulheres perdem não somente a voz mas também os direitos civis. Passamos a ser desacreditadas, impugnadas à ignorância do sexo frágil que desumaniza o feminino.

Desumaniza, pois a mulher deixa de ser uma “pessoa” para ser vista como um “objeto” reprodutivo cujo o único dever é gerar filhos e cuidar da casa. Um pensamento arcaico, que já deveria ter sido destruído com a virada dos anos e a chegada do movimento feminista, mas que sofre com os constantes rebaixamentos: “mi-mi-mi”, dito por pessoas que não enxergam ou fecham os olhos para o vigor da luta. 

“– Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada. – Ela faz uma pausa depois de cada uma das últimas cinco palavras, com os dentes trincados.”

Assim sendo, Dalcher também é certeira ao conceber três tipos de ideologias que fundamentam a formação do novo mundo. O homem machista; a mulher consciente de seus direitos; e a mulher que descrimina uma luta ao seu favor. Assim sendo, somos levados à ver outra parcela da nossa sociedade atual que não tem coragem de levantar sua voz ou pelo menos reconhecer seus privilégios.

E é assim que Dalcher nos apresenta sua protagonista. Jean não lutava por seus direitos, sequer via o voto como necessidade social. Ela estava estagnada na sociedade deixando que os outros – a maioria extremista – decidissem seu futuro. Foi dolorido ver como Jean se comportava e enxergá-la como reflexo dos meus amigos ou parentes próximos. Isto, vem acompanhado do medo. Medo que a percepção do futuro cada vez mais próximo só aconteça quando o extremo estiver em voga, ou que a negação continue até depois disso. Pois Jean só entende o que aconteceu depois de ter perdido tudo.

“Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. Na verdade eu não fui votar.”

O sistema político da obra também foi muito bem construído. Se você pensar na ideologia civil, os pilares fomentadores da sociedade deveriam ser colocados em duas bases: a política, que rege os direitos e deveres civis; a comunidade que põe as leis em prática.

Entretanto, uma avaliação mais atenta, nota-se que a civilização é moldada quase que exclusivamente pelos fundamentos religiosos. Seja na pública ou privado, a religião define os parâmetros de comportamento onde o resultado é comumente encontrado em assuntos simples que passam a ser considerados tabus, ao passo que assuntos tabus se tornam corriqueiros. Assim, é fácil entender porque a mulher tem uma visão ameaçada. Pois no sentido religioso, o homem foi feito para comandar (o provedor) e a mulher para servir (procriadora). E assim como O Conto da Aia, será a religião que molda o universo de Cristina Dalcher de maneira arcaica e ortodoxa. 

“É difícil identificar contra o que – ou quem – estávamos protestando. Sam Myers era uma opção terrível para presidente. Jovem e inexperiente em políticas importantes, com formação militar de um ano no curso preparatório de oficiais da reserva na época de faculdade, Myers fez sua corrida presidencial apoiado em duas muletas. Bobby, seu irmão mais velho e senador de carreira, dava os conselhos práticos, um monte de bosta. A outra muleta era o reverendo Carl, fornecedor de votos, o homem a quem as pessoas ouviam. Anna Myers, bonita e popular, não prejudicava a campanha, se bem que no final a campanha a prejudicou. Muito. Nossa única esperança.”

Além disso, ainda cito como chocantes os trechos que imitavam a realidade agravando o sentimento de pertencimento ao universo inexistente. Se pensarmos que o livro foi lançado ano passado e algumas declarações polemicas saíram este ano, Dalcher quase que previu os rumos sociais de como a sociedade extrema parece começar. As manifestações sociais femininas sendo desvalorizadas. A bancada religiosa que tenta ditar o mundo através das passagens bíblicas. Os muros construídos ao redor de países ricos e politizados. O homem como peça central do silenciamento. As mulheres em diferentes estágios de aceitação.

“As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo. A de Olívia é rosa; a de Evan é azul. Você nunca os vê trocar, nunca vê o livro azul nas mãos de Olivia.”

Entretanto, alguns pontos da obra acabaram por  ficar desconexos. O romance que surgiu parece algo descartável que, por um acaso, reforça um esteriótipo ruim sobre a mulher feminista (Selecione, mas pode conter spoilers “Jean é casada e mantém um relacionamento fora do casamento o que ratifica  a mulher como “puta” quando liberta“). Além disto, o final da obra pareceu fácil de mais, onde todos conseguiram um final feliz e nem todas as repostas foram concluídas.

Mas, pesando as partes ruins e boas, ainda sim Vox foi uma leitura genial. Eu recomendo esse livro para mulheres, homens que precisem de um choque de realidade. É uma leitura necessária que nos abre os olhos para uma das possibilidades que o futuro tão próximo de nós. 

( Resenha ) A Invasão de Tearling – Érica Johansen – Livro Dois

O segundo livro da trilogia escrita por Érica Johansen atingiu um novo patamar deixando a promessa de uma grande finalização. A história evoluiu para nos deixar com água na boca e promover uma leitura inesquecível de uma série que pode entrar para as melhores que já li.

Esta resenha não terá spoiler.
Para garantir isto pule a sinopse.

Título:  A Invasão de Tearling | Título Original: The Invasion of the Tearling| Autora: Érica Johansen | Editora: Suma| Páginas:  400 | Ano:  2017|  Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ❤️ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir (1).jpgSinopse: Kelsea Glynn é a rainha de Tearling. Apesar de ter apenas dezenove anos e nenhuma experiência no trono, Kelsea ficou rapidamente conhecida como uma monarca justa e corajosa. No entanto, o poder é uma faca de dois gumes. Ao interromper o comércio de escravos com o reino vizinho e tentar conseguir justiça para seu povo, ela enfurece a Rainha Vermelha, uma feiticeira poderosa com um exército imbatível. Agora, à beira de ver o Tearling invadido pelas tropas inimigas, Kelsea precisa recorrer ao passado, aos tempos de antes da Travessia, para encontrar respostas que podem dar ao seu povo uma chance de sobrevivência. Mas seu tempo está acabando… Nesta continuação de A rainha de Tearling, a incrível heroína construída por Erika Johansen volta para outra aventura cheia de magia e reviravoltas.

“Eu acho que esse é o ponto crítico do mal neste mundo, Majestade; os que se sentem no direito de fazer o que quiserem, de ter o que quiserem. Pessoas assim nunca se perguntam se têm direito. Não consideram o custo para ninguém além de si mesmas.”

A narrativa de Érika Johansen é peculiar. Somos trajados por uma escrita diferenciada, cadenciada e com descrições que fundamentam e parafraseiam a trama. Mesmo se tratando de uma fantasia com uma personagem adolescente, seu texto envolve pouca ação e quase nenhum romance, onde a política se sobressai. Parece algo que George R. R. Martin teria escrito, com o diferencial que Johansen tem os pés fixados em nosso mundo – e não na alta-fantasia -, para recriar a realidade que conhecemos para torná-la algo mais.

Mas muito embora a política de Tearling seja um dos grandes focos da trama, esse livro em questão trata bem mais do passado do que da atualidade. A Invasão de Tearling vai ser pautada dentro dos episódios que levaram à construção do país e, consequentemente ao seu declínio. Assim sendo, Johansen traz explicações sobre A Travessia, fato muito falado mas pouco explicado no livro anterior, mas aonde estão alocados os princípios para a fundação da sociedade utópica idealizada por William Tear que se tornou “do passado”, distópica e tão mais próxima do que o futuro nos reserva hoje.

“Nós sempre pensamos que sabemos o que coragem quer dizer. Se eu fosse escolhido, nós dizemos, eu atenderia ao chamado. Eu não hesitaria. Até o momento que chega nossa vez, e aí percebemos que as exigências de verdadeira coragem são bem diferentes do que tínhamos imaginado, muito tempo antes, naquela manhã clara em que nos sentimos corajosos.”

O livro recomeça alguns dias depois de onde A Rainha de Tearling foi finalizado. Kelsea Glynn está lidando com as consequências de suas escolhas. É bom ressaltar que Johansen não cria uma princesa irreal, que não entende os problemas de suas ações ou que os descobre depois de ser tarde de mais. Mas sim uma personagem sábia, criada para ser rainha que coloca seu povo em primeiro lugar. Por esse motivo, diria que Kelsea é uma das minhas personagens favoritas. Sua presença e sua força são verdadeiras, e suas ideias políticas poderiam realmente dar certo.

Mas como havia aludido anteriormente, o livro tem um foco maior nos acontecimentos pré-Tearling. Na primeira obra existem algumas menções à fatos do nosso presente que haviam causado estranhamento. Como uma sociedade medieval poderia ter acesso aos livros de J. K. Rowling? A única explicação seria ser uma sociedade póstuma. De modo que a pergunta mudou para: como a nossa sociedade moderna mudou para uma sociedade medieval?

Assim, com a prerrogativa de Kelsea precisar entender o antes para enfim conquistar um futuro glorioso, somos apresentados à visões do passado pelos olhos de Lily. Foi doloroso acompanhar a história e adianto a vocês que conteúdos pesados – cenas de violência e estupro – surgiram na trama.

O mundo futurístico manifesta-se como um aprofundamento da sociedade patriarcal. Os homens literalmente dominaram o mundo através dos preceitos religiosos tornando-se donos da mulheres. Lily é casada e tem grande estabilidade econômica. Entretanto, tem que suportar as ameaças veladas do marido que ter os filhos que Lily não deseja. Tudo mundo quando ela descobre um movimento, idealizado por William Tear em busca de um horizonte melhor.

Dessa forma, entre presente e passado Joahansen insere um belo paradoxo que envolve as ações de ambas as mulheres: será que o futuro glorioso, quando liderado por alguém de visão, pode ser seguro?

“O sucesso de uma grande migração humana depende do encaixe de muitas peças individuais. Deve haver descontentamento comum status quo desagradável, talvez até intolerável. Deve haver idealismo para motivar o movimento, uma crença poderosa em uma vida melhor além do horizonte. Deve haver grande coragem diante de probabilidades terríveis. Mas, mais do que tudo, toda migração precisa de um líder, a figura indispensável e carismática que até homens e mulheres apavorados vão seguir sem pestanejar em direção ao abismo.”

A Invasão de Tearling é uma obra surpreendente, cheia de política e desafios. Eu não somente indico o livro para os fãs do gênero, como digo que para todos aqueles que precisam de um vislumbre de para onde a sociedade atual está nos levando, esta obra é um horizonte assustador.

( Resenha ) O Conto da Aia – Margareth Atwood

Minhas caras Corujinhas. Para algumas pessoas, o mundo é preto e branco forjado naquilo que elas alimentam como verdade absoluta. Digo isso para que vocês possam se preparar para entrarem em uma sociedade onde a verdade que tentaram esconder de nós esta em pleno movimento.

o conto da aiaTítulo: O Conto da Aia
Título original:
 The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth
Editora: Rocco
Páginas: 368
Ano: 2017
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐❤
Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano

Observações: Este post vai ser metade resenha e metade spoiler. Haverá sinalização de onde a segunda começa. 

Antes de mais nada, quero de cara pedir desculpas. Esse vai ser, com toda certeza, um dos mais longos posts do blog. Eu não costumo fazer isso, mas pelo conteúdo de O Conto da Aia e pelas minhas considerações durante a leitura e pós, me sinto a vontade para falar de modo mais aberto possível o que vai resultar em uma longa discussão.

Conheci O Conto da Aia pelo blog da Vivi (O Senhor dos Livros) através uma resenha fabulosa dela, que me deixou bastante interessada em ler esta obra. Dessa forma, quando tive a oportunidade de ler livro por intermédio da minha amiga Cris, não perdi a oportunidade e corri pra obra. E ao finalizar a leitura, ganhei a certeza de ter sido um dos melhores livros de minha vida. É uma ficção com cara de real que me fez pensar muito além daquilo que estou acostumada.

Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que tudo era assim.

O Conto da Aia é, antes de tudo, um livro sobre a humanidade. De certo modo, representa com clareza os seres primitivos que somos. Acima de tudo nosso egoísmo, nossa dependencia e nossa vontade de fazer nossas verdades mais fortes que as de outrem. Com uma narrativa lenta, mas profunda, Margareth Atwood demonstra como a República de Gilead está terrivelmente próxima à nossa. Não somente pelo tempo, mas pela maneira com que os cidadãos pensam sobre papéis de uma pessoa em sociedade.

O livro é pautado através dos preceitos biblicos interpretados ao pé da letra. É estranho ver como a autora se apropria de pedaços da Biblia para embasar a teoria que rege sua república. Pois do mesmo modo que podemos perceber a verdade de suas palavras, também é possível o tendecionalismo que a envolve. Isto simplifica então o verdadeiro paramêtro do livro: o machismo que predomina para retirar das mulheres o direito delas de serem livres pela premissa que isso não é digno delas.

Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo nascido.

De todas as formas que consegue, então, a autora busca demonstrar como nós mulheres somos rejeitadas como individuos nessa sociedade. Deixamos de ser nossas, e passamos à pertencer aos comandantes. Isto é tão forte que você passa a si ver como componente da obra e não mais como somente um leitor. Somos levados a nos colocar na pele daquelas mulheres para sentir o que elas sentem. Os choques são nossos bem como o ódio pela situação imposta.

Os personagens propostos por Atwood são opostos com versões diferentes de um mesmo pensamento. É interessante perceber que mesmo narrado em primeira pessoa por Offred, a autora tem o trabalho de deixar pistas sobre o que os personagem refletem sobre o que está acontecendo. Mas muito mais do que isso, como existe um cuidado especial dela em colocar as filosofias dos personagens a mostra de maneira que não somente possamos entendê-las, mas conceber os caminhos que levaram esses personagens a terem essas verdades. Esse ponto é um dos fundamentais de Atwood: você entende – mesmo não concordando – e é levado a refletir os motivos pelos quais consgue ou não dar razão a estas pessoas.

Margaret Atwood escreveu um livro que merece ser lido por razões inúmeras. A principal dela, diria eu, é entender que certas concepções por mais que as neguemos ainda estão infiltradas no seio da nossa sociedade como se esperassem o momento certo para nos dominarem como aconteceu com a República de Gilead. Recomendo este livro à todos aqueles que almejam refletir sobre a importância de mudar e não aceitar nenhum tipo de destratar.

A partir deste ponto esta resenha conterá spoilers.

Melhor nunca significa melhor para todos… sempre significa pior para alguns.

Ler O Conto da Aia me trouxe alguns sentimentos estranhos e diria até que fundamentais. Certas coisas, certas compreensões todos sabemos que estão presentes em nosso cotidiano. E por mais que saibamos disto, é sempre difícil falar sobre o assunto. Geram discussões que a maioria busca evitar pela dor de cabeça que traz. Mas a verdade é que muitos de nós ficamos acovardados em lutar ou achamos infrutíferos o fazer. Por isso que ao ler esse livro tomei mais uma vez uma percepção de como as lutas são importantes, como precisamos criar novos permancer fortes perante aqueles que desejam nos subjulgar. E baseando-se na atual estrutura política não somente do país bem como de todo mundo, lutar pelo feminismo e contra o totalitarismo nunca foi tão importante.

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No cartaz: “O Conto da Aia não é um manual de instruções.” – Fonte: HuffPost Brasil.

O nome do livro já demonstra uma luta. Uma Aia em termos históricos é uma serva sem voz. Ela pertence aos seus donos e não tem posicionamento social ou político. Dessa maneira, a autora já deixa uma pista sobre não se calar, ser ouvida mesmo quando não podemos abrir a boca. Contar nossa versão da história mesmo quando formos levadas à não sermos ouvidas. Outro ponto que ressalta a importância de não se calar é o prefixo e radical dos nomes das mulheres: todas começam com Of  que em inglês significa De associada ao nome do Comandante ao qual elas pertencem. Isto é explicado no livro, mas também deixa margem para pensar sobre o desligamento. Afinal se fosse um diminutivo de Off  poderia ser interpretado como a perda em relação à si mesmo como pensante. Elas não tem mais autonomia sobre sua própria mente. Você não está mais online em si mesmo, sim offline para receber os pensamentos de outras pessoas.

Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça nesse labirinto

Causa certa estranheza entender como uma sociedade se deixa chegar ao ponto de ser subjulgada de tal modo. Mas devemos perceber que temos aqui, o funcionamento da lei do mais forte e daqueles que acreditam passos que apenas se adequam à sua trajetória, não levando em consideração o que eles querem dizer em realidade. As mulheres perderam muito porque machismo – e aqui incluo também as mulheres que também pensam dessa forma – foi retirando aos poucos seus direitos começando dos mais essenciais aos mais importantes. Nas memórias do passado de Offred é perceptivel como foram sutis as mudanças, sendo estas bem aceitas pela parcela da sociedade que queria ter o domínio sobre as vidas de todos. Como o pensamento de inferioridade feminina esteve – e está – presente em cada ação que todos tomam.

A maior ponte de ilustração em como a sociedade anterior já possuía aquele pensamento antes deste ser homologado vem do marido de Offred. Este homem sempre fez comentários machistas dissimulados em forma de brincadeiras. Isto apenas se prova quando ele fica extasiado ao saber que as contas das mulheres, inclusive a da sua, foram congeladas; que ela perdeu o emprego tomando para si o sentimento antiquado de importância, onde sua esposa voltará a depender dele para tudo. É tão revoltante isso, porque é cruelmente real. Quantos homens hoje em dia não acreditam mesmo que o lugar da mulher é em casa? Quantos não gostariam que as mulheres fossem impedidas de trabalhar?  Somos frutos desse pensamento, sim e como a própria autora afirma, é uma concepção que queremos acreditar que foi extinta mas que se faz presente em cada momento de nossas vidas.

Além desta questão feminista que Atwood denota em sua obra, também não podemos esquecer a fé radical que rege a República de Gilead. A autora toma como princípio para a fundação deste país a biblía e uma fala de Raquel que deseja que seu marido tome sua empregada como amante para que assim os dois tenham filhos. De modo à demonstrar como a ignorância é perigosa, a autora transforma o contexto dessa passagem outra. Ela é tomada ao pé da letra para que os habitantes sejam atraídos por esse pensar, sem que haja desconfiança do verdadeiro próposito opressão que o governo está se tornando. Em tempos atuais como não enxergar isso como o terrorismo e xenofobia? Pois existem tantas passagens de fé que são deturpadas para se tornarem armas daqueles que apenas precisam de um induto para cometer um crime. Não é uma verdade, mas sim uma desculpa fajuta para se tornar um radical de suas próprias opiniões.

Dessa forma, de todas as formas que consegue, Margareth Atwood transforma um livro provocativo. O mundo parece ter se perdido mais uma vez em suas ideias retrógradas onde somos levados à ser uma coisa ou outra: lascivos ou puritanos, forte ou fraco, direita ou esquerda. Não existe mais tolerância apenas raiva contra quem julgamos ser diferentes. Desse modo, O Conto da Aia se torna obrigatório por ser um manual de instruções daquilo que não devemos aceitar. Um livro que usa do passado para construir um futuro e com o intuito de modificar o nosso presente.

Como todos os historiadores sabem, o passado é uma escuridão, e repleta de ecos. Vozes podem nos alcançar a partir de lá; mas o que dizem é imbuído da obscuridade da matriz da qual elas vêm; e por mais que tentemos, nem sempre podemos decifrá-las precisamente à luz mais clara de nosso próprio tempo.

Delírio – Lauren Oliver – Livro 01.

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Muito tempo atrás, não se sabia que o amor é a pior de todas as doenças. Uma vez instalado na corrente sanguínea, não há como contê-lo. Agora a realidade é outra. A ciência já é capaz de erradicá-lo, e o governo obriga todos os cidadãos a serem curados quando completam dezoito anos. As pessoas também enfrentam outras duras imposições das autoridades, como toque de recolher, fiscalização sobre as artes e intensivo controle através de escutas telefônicas e agentes nas ruas, sempre atentos a qualquer atividade suspeita. Lena Haloway acredita que todas essas regras são para o bem da população e aguarda ansiosamente o dia de sua intervenção. Essa é a coisa certa e esperada a se fazer. Mas tudo que ela conhecia e em que acreditava desmorona no momento em que Lena se apaixona por Alex. Faltando apenas noventa e cinco dias para sua intervenção, será que Lena ainda escolherá a cura?

Há uns dois anos li o primeiro livro da trilogia Delírio de Lauren Oliver. Em primeira estância achei que a trilogia era um pouco forçada por ser contra ao amor. Quer dizer, quem em sã consciência seria contra ao amor? Porém depois de pensar um pouco pude visualizar a lógica da questão. Sobre o que um governo é capaz de fazer para manter o controle sobre as pessoas e retirar aquilo que faz delas humanas é uma boa maneira de fazer isso.

Antes de começar a serie eu não tinha tido contato com alguma obra de Oliver. Agora, depois desse tempo eu não a considero uma ótima escritora e que me faz querer ler mais livros dela. A capacidade que ela tem de fazer o leitor pensar no que é certo e no que é errado e quais são limites para que o governo possa interferir na vida das pessoas. Fiquei muito impactada com a escrita da moça e muito satisfeita de tê-la conhecido.

A única ressalva que tenho quanto ao livro é a personagem principal Lena. Eu não gostei da personagem por acha-la antipatica e bem chatinha. Contudo isso não atrapalhou muito a desenvoltura do livro que é maravilhoso.

Título: Delírio
Titulo Original: Delirium
Autora: Lauren Oliver
Ano: 2012
Editora: Intrínseca
Avaliação: 🌟🌟🌟🌟

Feios – Scott Westerfelds – Série Feios 01

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Séculos depois da destruição da civilização industrial em um apocalipse ecológico, a humanidade vive em cidades-bolha cercadas pela natureza selvagem. Lá, Tally Youngblood é feia. Não, isso não significa que ela é alguma aberração da natureza. Não. Ela simplesmente ainda não completou 16 anos. Em Vila Feia, os adolescentes ficam presos em alojamentos até o aniversário de 16 anos, quando recebem um grande presente do governo: uma operação plástica como nunca vista antes na história da humanidade. Suas feições são corrigidas à perfeição, a pele é trocada por outra, sem imperfeições ou – nem pense nisso – espinhas, seus ossos são substituídos por uma liga artificial, mais leve e resistente, os olhos se tornam grandes e os lábios, cheios e volumosos. Em suma, aos 16 anos todos ficam perfeitos.
Tally mal pode esperar pelo seu aniversário. Depois da operação, vai finalmente deixar Vila Feia e se mudar para Nova Perfeição, onde os perfeitos vivem, bebem, pulam de paraquedas, voam a bordo de suas pranchas magnéticas, e se divertem (o tempo todo). Seu único trabalho é aproveitar muito. Mas, enquanto espera que as poucas semanas até completar 16 anos passem, Tally precisa se distrair.
Uma noite, ela conhece Shay, uma feia que não está nem um pouco ansiosa para completar 16 anos. Pelo contrário: Shay pretende fugir dos limites da cidade e se juntar à Fumaça, um grupo de foras-da-lei que sobrevive retirando seu sustento da natureza.
Para Tally, isso é uma maluquice. Quem iria querer ficar feio para sempre, ou se arriscaria a voltar para a natureza e queimar árvores para se aquecer, em vez de viver com conforto em Nova Perfeição e se divertir à beça? Mas, quando sua amiga desaparece, os Especiais, autoridade máxima deste novo mundo, propõem um acordo com Tally: unir-se a eles contra os enfumaçados ou ficar feia para sempre. Tally, porém, acaba se envolvendo em uma conspiração e descobrirá que, por trás de tanta perfeição, se esconde um terrível segredo. Sua escolha irá mudar o mundo para sempre.

Imaginar um mundo perfeito onde todos os seres humanos são tratados como iguais é parte da vida de todo mundo. Quem nunca imaginou viver em uma sociedade justa igual para todos? Quando eu inicei a leitura de Feios eu tinha uma ideia errada do livro. Não esperava que fosse gostar tanto da história porque eu a imaginava cliché e sem um pingo de emoção. É claro que eu me enganei algo do tipo nã julgue um livro pela sinopse rs.

O mundo construído por Westfelds é aparentemente sem falhas imaginaveis e Tally é uma garota como qualquer outra com sonhos e aspirações que de cara não a levam mais do que a vida que sonha ter. Até que ela conhece Shay, que de todas as maneiras é diferente de Tally. E além disso, Shay a leva a conhecer uma vida e uma sabedoria que ela desconhecia.

Muito embora os personagens e a descoberta sejam os centros da história, não dá para pensar que Scott transmite de uma maneira nova o que hoje nós temos como o preço da beleza. A busca padrão. Pois embora todos sejam pessoas diferente, pelo padrão de cirurgia estabelecido – não pode haver uma cidade com Perfeitos mais Perfeitos que outra – tudo se mistura transformando a multidão em uma massa de rostos iguais. O que faz das pessoas especiais, as diferenças que as tornavam tão diferentes foram perdidas. Isso nos trás ao presente, onde muitos de nós, principalmente adolescentes temos a premissa que se não for no padrão não somos aceitos.

Eu gostei bastante deste livro que tem um ritimo gostoso pela dinâmica da escrita. As emoções que eles me ensinaram são impressionantes e a abordagem do tema é espetacular.

Título: Feios
Série: Feios 01
Autor: Scott Westerfelds
Ano: 2010
Editora: Galera Record
Avaliação: 🌟🌟🌟🌟

A Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – A Rainha Vermelha 01

Uma sociedade definida pelo sangue. Um jogo definido pelo poder.
O mundo de Mare Barrow é dividido pelo sangue: vermelho ou prateado. Mare e sua família são vermelhos: plebeus, humildes, destinados a servir uma elite prateada cujos poderes sobrenaturais os tornam quase deuses. Mare rouba o que pode para ajudar sua família a sobreviver e não tem esperanças de escapar do vilarejo miserável onde mora. Entretanto, numa reviravolta do destino, ela consegue um emprego no palácio real, onde, em frente ao rei e a toda a nobreza, descobre que tem um poder misterioso… Mas como isso seria possível, se seu sangue é vermelho?  Em meio às intrigas dos nobres prateados, as ações da garota vão desencadear uma dança violenta e fatal, que colocará príncipe contra príncipe — e Mare contra seu próprio coração.

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A Rainha Vermelha, embora tenha sido um livro que me surpreendeu em alguns pontos não foi uma história que eu tenha gostado por ser muito parecida com algumas no caminho. Qualquer pessoa que tenha lido Jogos Vorazes, A Seleção e Sombra e Ossos sabe exatamente do que estou falando. Não que elas sejam iguais, mas que pontos importantes dos livros foram inseridos no contexto do livro.

Mare, a personagem principal também não caiu nas minhas graças. Eu a achei chata e as vezes muito ingênua onde tinha raiva da personagem a ponto de querer entrar no livro só para bater nela. Mas não posso negar que algumas das vezes eu ficava ou triste ou feliz pela personagem, e nas cenas contra Evangeline (sua grande rival) torcia por ela. Os poderes de Mare, seu controle de eletricidade, se mostraram crescentes e que com certeza virão a se tornar um dos mais fortes do seu mundo.

A característica mais marcante de A Rainha Vermelha é provavelmente a escrita rápida  e sem muita enrolação da autora. Alguns pontos ficaram maus desenvolvidos, mas acho que se um dia eu ler os próximos livros da série, eles deveram ser mais bem trabalhados. Mas algumas coisas foram bem chamativas durante a leitura, principalmente o sentimento de revolta que o mundo divido traz a nós e que como, infelizmente, ele remete ao nosso mundo de verdade.

A Rainha Vermelha foi um livro que me decepcionou pelo tanto que havia falado dele. Mas acredito que exista muita gente que vai gostar, afinal, gosto é relativo. Espero que todos que leiam tenham uma experiência melhor que a minha.

Titulo Original: The Red Queen
Autora: Victoria Aveyard
Ano: 2014
Editora: Seguinte
Avaliação: 🌟🌟