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( Resenha ) Boa Noite – Pam Gonçalves

Pam Gonçalves é certamente uma das maiores booktubers do brasil. Acompanho-a desde o começo e ela foi responsável por me apresentar algumas das minhas melhores leituras da vida. De modo que quando foi anunciado a publicação de obrar fiquei com muita vontade de ler. Mas a oportunidade surgiu apenas anos mais tarde e mesmo assim, todas as temáticas do livro, não deixaram de ser importantes e atuais para o mundo e para o brasil que vivemos hoje.

Título: Boa Noite | Autora: Pam Gonçalves | Editora: Galera Record | Páginas: 240 | Ano: 2016 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Saraiva | Skoob | Amazon 
Boa NoiteSinopse: Alina quer deixar seu passado para trás. Boa aluna, boa filha, boa menina. Não que isso seja ruim, mas também não faz dela a mais popular da escola. Agora, na universidade, ela quer finalmente ser legal, pertencer, recomeçar. O curso de Engenharia da Computação – em uma turma repleta de garotos que não acreditam que mulheres podem entender de números -, a vida em uma república e novos amigos parecem oferecer tudo que Alina quer. Ela só não contava que os desafios estariam muito além da sua vida social. Quando Alina decide deixar de vez o rótulo de nerd esquisitona para trás, tudo se complica. Alina não tinha como prever que seria tragada para o meio de tudo aquilo nem que teria a chance de fazer alguma diferença. De uma hora para outra, parece que o que ela mais quer é voltar para casa.

O primeiro livro de Pam Gonçalves tem uma temática New Adult construído através de uma garota que precisa encarar as novas dificuldades postuladas pela fase adulta. Apesar de começar em um esteriótipo – a garota impopular que deseja alcançar um status social -, a obra se desenvolve de uma maneira quase inovadora trazendo problemas reais o mundo da personagem. Muito embora, eu não possa dizer que ficaria amiga de Alina, algumas de suas atitudes lembraram a mim mesma, principalmente no que diz respeito a necessidade de aceitação. Sua trajetória em deixar isto para trás determina o tom do livro, pois mesmo abordando assuntos variados, Pam nunca deixa de lado a construção que Alina tem quando voltada para si mesma.

Entretanto, pensando um pouco na narrativa, posso dizer que não foi um livro nem amado nem odiado por mim. São bons temas para si tratar ao mesmo tempo que são temas excessivos para colocar em um único livro com páginas contadas. Pam tem uma escrita interessante, sentimental mas que não foca em algo para evoluir verdadeiramente. Assim, esse se torna o problema principal da obra. O multifoco da autora em ser representativa, trouxe um livro de meia-representatividade.

Em primeiro plano, as abordagens são necessárias. Ainda ainda mais se explanarmos o sentido cultural que o Brasileiro – de uma forma generalizada – tem em observar o feminino e os locais que se encontra. O feminismo é visto como uma doença, as mulheres como objetos e tudo aquilo que é diferente como errado. Inserir em uma obra pensamentos que desmitifiquem essa realidade soa absurdo de tão real, de tão necessário. Desse modo, superficialmente a obra equilibra vida real com imaginária trazendo situações que podemos vivenciar ou ver vivenciadas por outras garotas.

“Sabe o que acontece com as garotas como eu que falam que foram estupradas por um cara como ele? Vão dizer que eu merecia. Que eu deveria agradecer. 

Todavia, devemos observar que a ficção, por mais que seja “de mentirinha”, precisa ter um bom posicionamento para convencer principalmente quando colocada em prática de uma realidade. Se toma como foco abordar uma questão, não se coloca e depois abandona-a, mas sim questiona, oferece intervenção ou pelo menos evolução. Todos os assuntos abordados pela Pam ficaram soltos,  o que acabou sendo um ponto desastroso em uma história que tinha tudo para ser perfeita.

Boa Noite é uma obra necessária por trazer sororidade ao mundo, visto que precisamos que as mulheres se apõem ao invés de se julgarem. Entretanto, não indico para quem precisa de algo para pensar. O livro não traz soluções ou crítica com afinco, apenas abre margem para que assuntos como este sejam pelo menos levados em consideração da nossa sociedade.

( Resenha ) A Heroína da Alvorada – Alwyn Hamilton – Livro 03

No terceiro livro da série A Rebelde do Deserto, Alwyn Hamilton presenteia o leitor com o uma obra espetacular que fecha com chave de ouro uma trilogia que ficou marcada como uma das melhores que tive o prazer de ler.

Título: A Heroína da Alvorada | Título Original: Hero At The Fall| Autora: Alwyn Hamilton | Editora: Seguinte | Páginas: 384| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon
A Heroína da AlvoradaSinopse: No último volume da trilogia A Rebelde do Deserto, Amani vai se deparar com a escolha mais difícil que já teve que fazer: entre si mesma e seu país.
Quando a atiradora Amani Al-Hiza escapou da cidadezinha em que morava, jamais imaginava se envolver numa rebelião, muito menos ter de comandá-la. Depois que o cruel sultão de Miraji capturou as principais lideranças da revolta, a garota se vê obrigada a tomar as rédeas da situação e seguir até Eremot, uma cidade que não existe em nenhum mapa, apenas nas lendas — e onde seus amigos estariam aprisionados.
Armada com sua pistola, sua inteligência e seus poderes, ela vai atravessar as areias impiedosas para concluir essa missão de resgate, acompanhada do que restou da rebelião. Enquanto assiste àqueles que ama perderem a vida para soldados inimigos e criaturas do deserto, Amani se pergunta se pode ser a líder de que precisam ou se está conduzindo todos para a morte certa.

“— Tudo o que sou, entrego a você, e tudo o que tenho é seu. Porque o dia da nossa morte não será amanhã”

Engraçado que, as vezes, quando estamos lendo livros muito bons, temos um momento de epifania em que paramos e pensamos: Caramba, estou lendo algo extraordinário! Se eu disser que essa sensação me aconteceu enquanto eu lia A Heroína da Alvorada, seria um eufemismo.

A narrativa de Alwyn Hamilton é maravilhosa. A autora conseguiu pontuar as diversidades dos personagens, reinventar seu romance e ainda sim não perder o foco da guerra iminente. Entre reviravoltas e romances, Hamilton desenvolve sonhos e esperanças, que estão perdidas ao longe destoadas pelas perdas recentes dos rebeldes. Nunca o lema “Uma nova alvorada, um novo deserto” fez tanto sentido: A alvorada tem que vir para que o deserto se erga novamente nas mãos de Ahmed e enfim o mundo de Amani se torne novo e cheio de possibilidades.

“Éramos todos mais egoístas que Ahmed. Por isso ele nos liderava. E estava certo. Não estávamos na rebelião por nós mesmos. Mas pelo que poderíamos fazer pelo futuro. O resto de nós podia morrer pela causa. Mas Ahmed precisava viver.”

Falando em diversidade, os personagens foram muito bem construídos. Amani evoluiu muito no decorrer das obras, mas nesta adquiriu um brilho especial. Acho que finalmente consegui me apegar a garota, pois senti verdade em suas atitudes. Amani tem medo, mas não abaixa a cabeça. Ela sabe que seus companheiros estão ansiosos por ela, por suas decisões, mesmo que isso possa causar suas mortes. Mas mesmo assim, a cada momento em que é derrotada, Amani se reergue e tenta de novo: segue em frente, por mais difícil que possa parecer.

Os personagens secundários são igualmente cativantes. Shazad ainda é minha favorita, mas diria que Jin e Hala ganharam um espaço no meu coração. O Sultão continua tendo bons motivos, e apesar de toda sua crueldade é impossível não entender suas motivações. Ahmed, continua como um idealizador, mas agora uma nova faceta é revelada. A humanidade que está presente em cada suspiro, em cada decisão que precisa tomar.

“Era uma vez um garoto do mar que se apaixonou por uma garota do deserto.”

Mas o meu ponto favorito na trama foi a mitologia criada por Hamilton, tão bem elaborada que acredito que nunca mais vou ver o céu da mesma maneira. Os deuses, a magia e tudo que envolve a criação do mundo foram muito bem pensados. Alwyn não reduz seu mundo a fatos isolados, mas usa dos seus próprios recursos para engrandecer sua obra. A finalização é arrebatadora. Hamilton não somente apresente uma conclusão como o que acontece depois no bom estilo historiadora. O último capítulo deixa o sentimento de esperança que acalenta apesar de todo acontecido.

A Heroína da Alvorada é uma obra fantástica. Um finalização épica para uma trilogia que evoluiu a cada livro. E sempre que observar as estrelas irei pensar: Uma Nova Alvorada, Um Novo Deserto. 

 

 

 

( Resenha ) O Destino de Tearling – Erika Johansen – Livro 03

O último de Erika Johansen me trouxe sentimentos dúbios. Engraçado pensar que nem sempre as séries nota máxima são as que nos marcam. Pois muito embora a finalização da série iniciada em A Rainha de Tearling não tenha sido como eu esperava, sua história foi marcante pelas certezas sobre o futuro que Johansen apresentou.

Título: O Destino de Tearling| Título Original: The Fate of the Tearling| Autora: Erika Johansen| Editora: Plataforma 21 | Páginas: 360| Ano: 2018| Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️  | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir (3).jpgSinopse: Desde que assumiu o trono de Tearling, Kelsea Glynn passou de princesa inexperiente a rainha destemida. Sua busca por justiça fez com que todo o reino mudasse com ela, mas quando os inimigos que fez ao longo do caminho ameaçam destruir seu povo, ela toma uma decisão inimaginável: se rende à Rainha Vermelha em troca de salvar Tearling. Sem as safiras, sem seus homens de confiança e trancafiada em Mortmesne, Kelsea precisa de novo recorrer ao passado, às experiências de mulheres que viveram antes dela, buscando em suas histórias a saída para uma situação impossível. O jogo está para terminar, e o futuro de Tearling será revelado de uma vez por todas. Com O Destino de Tearling, Erika Johansen traça o clímax inesquecível dessa aventura cheia de magia e emoção.

“Andava por Tear havia mais de trezentos anos e às vezes sentia que não era um homem, só uma coleção de fases, vários homens diferentes com suas próprias vidas.”

Erika Johansen tem uma narrativa extensa e bastante significativa. Muito embora em O Destino de Tearling o desenvolvimento tenha sido mais lento e mais divagador que os outros livros, a história alcançou um teto brilhante que se equilibra entre as indagações dos múltiplos narradores e o jogo político que os cerca. Mas, ironicamente, o maior problema da autora foi o enredo que mesmo sendo construído à perfeição, em seus últimos momentos parece ter sido concluído em um infarto fulminante.

Embora esse final funcione para algumas pessoas, a conclusão da trilogia para mim acabou ficando aberta de mais, mesmo que – ironicamente – não houvesse quaisquer possibilidades de maiores explicações. Entretanto, não pude deixar de notar que a autora deixou o instigante para optar por uma saída fácil permitida pelo contexto narrativo de um modo geral, mas que se perde quando focamos nas particularidades. As respostas que eu esperei não vieram, o que me deixou frustada já que as esperei no decorrer da trilogia.

“Não haveria mais magia, não mais; a realidade era aquela carroça poeirenta, deslizando inexoravelmente para a frente levando-a para longe de casa.”

Partindo dessa análise, você pode se perguntar: Mas Jessica, porque mesmo assim esse livro (a série) valeu a pena?

Bom, a resposta parece concentrada na “obra secundária” concentrada dentro do enredo principal. Na resenha de A Invasão de Tearling, eu fiz um um longo comentário sobre o mundo pré-Kelsea e as implicações dele, que foram minhas partes favoritas na trama. Nesse último volume, Erika dá continuidade ao que aconteceu após a Travessia mas dessa vez expondo os motivos que quebraram o Tearling. Neste ponto, a autora nos presenteia com um texto impecável que denota porque uma sociedade recomeçada do zero nunca conseguiria alcançar a utopia imaginada por William Tear. Algo que se aplicaria à nossa sociedade que parece acreditar que podemos começar de novo sem corrigir os erros do passado, o que seria impossível. 

Embora seja um comentário duro, o fato é que a sociedade possuí uma grande ilusão sobre o significado de política. O sonho utópico é quase uma constante entre os seres humanos que veem o sitema como uma saída para os desastres. Isto é natural devido não somente ao discurso político como ao religioso, pelos quais somos levados a acreditar que se apenas os justos vivessem e governassem sobre o planeta, teríamos uma sociedade igualitária. E apesar de entender o significado dessa questão e concordar com ela, claramente temos um problema na prática pois devemos presumir que uma sociedade não pode começar do zero e dar certo, já os vícios que acompanham os homens não serão esquecidos. Assim sendo, Johansen traça uma linha excepcional ressaltando a necessidade da cura antes da criação do novo mundo. Não somos nós capazes de decidir quem é merecedor de estar ou não em uma sociedade justa, mas sim a própria evolução da sociedade que deve alçar seus habitantes aos conhecimentos que evocam justiça e igualdade.

“O erro da utopia é presumir que tudo vai ser perfeito. A perfeição pode ser a definição, mas nós somos humanos, e mesmo para a utopia levamos nossas dores, erros, invejas e desgostos.”

Outro ponto que merece destaque são os personagens que conseguiram se tornar algo a mais na trama e carregaram bons significados para o enredo. De certa forma, não parece existir apenas um protagonista na trama, mas variados que erguem uma boa parede de personalidades que juntas erguem os pilares do livro.

O Destino de Tearling  é uma obra com defeitos, mas que cumpre seu papel em finalizar a trilogia. Eu indico essa série para momentos que vocês desejarem refletir, pois muito embora a fantasia faça parte da obra, é apenas um meio para um fim, não a construção  totalitária do enredo.

( RESENHA ) O Demologista – Livro Um

Sempre acreditei que existe um problema comigo ao ler um livro propriamente dito com o terror. Muito embora considere o gênero assustador para o cinema, certamente não consigo sentir o climax de tensão nas obras quando inseridas na literatura. Dessa forma, muito embora a religiosidade e a fantasia tenham me agradado na obra de Andrew Pyper, O Demonologista não cumpriu a missão de me deixar assustada em meio ao seu enredo. Entretanto, muito embora esse problema não tenha sido alcançado, a leitura teve mais altos que baixos e se tornou uma das minhas obras favoritas no gênero.

Título: O Demonologista| Título Original: The Demonologist | Autor: Andrew Pyper | Editora: Darkside Books | Páginas: 358 | Ano: 2015| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐  | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

514ehk26JfL._SY445_QL70_.jpgSinopse: “A maior astúcia do Diabo é nos convencer de que ele não existe”, escreveu o poeta francês Charles Baudelaire. Já a grande astúcia de Andrew Pyper, autor de O Demonologista, é fazer até o mais cético dos leitores duvidar de suas certezas. E, se possível, evitar caminhos mal-iluminados. O personagem que dá título ao best-seller internacional é David Ullman, renomado professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo – principalmente na obra-prima de John Milton, Paraíso Perdido. Para David, o Anjo Caído é apenas um ser mitológico. Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural em Veneza, David começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião. O que seria apenas um boa desculpa para tirar férias na Itália com sua filha de 12 anos se transforma em uma jornada assustadora aos recantos mais sombrios da alma. Enquanto corre contra o tempo, David precisa decifrar pistas escondidas no clássico Paraíso Perdido, e usar tudo o que aprendeu para enfrentar O Inominável e salvar sua filha do Inferno. Este é um daqueles livros que você não consegue largar até acabar a última página, ainda que vá precisar de muita coragem para seguir em frente. O Demonologista ganhou o Prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), concorrendo com autores como Stephen King. Entrou em diversas listas de melhores livros de 2013, foi finalista do Shirley Jackson Award (2013) e do Sunburst Award (2014), chegou ao topo da lista dos mais vendidos do jornal canadense Globe and Mail e foi publicado em mais de uma dezena de países.

“Um homem razoavelmente promissor, abençoado por uma sorte melhor que a maioria, mas ainda assim uma ruína, a testemunha da morte de uma criança, um suicídio violento.”

O Demonologista é um livro essencialmente pautado sobre a fé cristã. É interessante perceber que os caminhos traçados pelo autor, muito embora tenham grande referência aos poemas de John Milton, Paraíso Perdido, também são coniventes com a religião, principalmente dentro dos preceitos católicos que fluem na comunidade e invocam nossas noções sobre inferno e céu.

Entretanto o autor não cai no pragmatismo ao entregar uma obra sobre bem-e-mal, pois Pyper busca constantemente definir que o místico que nos envolve – e consequentemente o mundo -, como vindouro do crédito que ressaltamos à determinada coisa. Assim a fé deixa de ser simbólica e se torna palpável no sentido acionário da coisa: O Demônio acredita em você, mas precisa que você acredite nele para que possa agir.

Assim sendo, encontrar as referências bíblicas que dão vida ao livo, também é encontrar um pouco dos caminhos feitos pela humanidade e sua constante busca na crença em algo maior que lhe dê alento as provações da vida. Olhando de fora o significado de fé (esquecendo o que acredito sobre a mesma), posso perceber que socialmente a teologia é quase sempre erguida no que o homem acredita e deixa de acreditar, definindo também a natureza divergente das religiões existentes no planeta. Assim, se o crível é o principal do livro, se torna quase que um dos motivos da jornada do autor está na passagem de um homem descrente, para um homem com fé.

❝Não se pode permitir que o impossível leve vantagem sobre o possível. Você resiste ao medo negando-o.❞

Falando em David, acho que poucas vezes vi um personagem masculino escrito por um homem que realmente tivesse interesse em expôr um pouco do sentimentalismo do personagem. Os autores que me perdoem, mas sempre percebo um tom grosseiro nos personagens masculinos ou algo voltado quase que exclusivamente para a inteligência. Como se os sentimentos fossem o que menos importasse. Mas ao construir David, Pyper faz exigência das emoções para salientar os questionamentos do personagem. O que realmente faz todo sentido, se pararmos para pensar que David não somente tem um grande medo de acreditar, quanto grandes certezas do amor que sente pela filha; algo não palpável, mas ainda sim existente.

Assim, o autor cria um misto de emoções que convergem bem na narrativa, mas que se perdem ao chegarmos no final. Como ressaltei no inicio da resenha, Pyper não consegue causar medo, algo corroborado principalmente pelo final. O autor cria algo surpreendente sim, mas que não parece se enquadrar ao sentido da trama. Entretanto, foi anunciado que O Demonologista deve ter uma continuação, então talvez devemos esperar algumas explicações e um fechamento melhor da obra no(s) próximo(s) livros.

O Demonologista é uma leitura que eu recomendo tanto para aqueles que tem e que não tem fé. Não é uma obra doutrinadora, por assim dizer, mas sim um livro diferente do esperado que nos dá questionamentos interessantíssimos para nos fazer desde nossa capacidade à superar os desafios, até as crenças que nos trouxeram até aqui.

—  Há coisas neste mundo que a maioria de nós nunca vê, acabo por falar. —  Nós nos treinamos para não vê-las, ou tentamos fingir que não vimos se elas ocorrem. Mas há uma razão para o fato de, não importa o quão sofisticadas ou primitivas, todas as religiões terem demônios. Algumas podem ter anjos, outras não. Um Deus, deuses, Jesus, profetas — a figura de autoridade máxima varia. Há muitos tipos diferentes de criadores. Mas o destruidor sempre toma, essencialmente, a mesma forma. O progresso do homem tem sido, desde o início, frustrado por provadores, mentirosos corruptores. Criadores de pragas, loucura, desespero. A experiência demoníaca é a única verdade universal de todas as experiências religiosas do homem.❞

 

( Resenha ) Garotas de Neve e Vidro – Melissa Bashardoust

Engraçado como mesmo inicialmente não gostando de determinado gêneros, acaba gostando de algumas obras o que te leva a ir atrás de outras. Depois da leitura de As Crônicas Lunares, fiquei ansiosa para ler outras releituras que trouxessem um manifesto diferente dos clássicos infantis. Nesse interim conheci a obra Garotas de Neve e Vidro através do canal Geek Freak e me interessei pela leitura. E sinceramente, foi uma das melhores obras que li nesse começo de ano sendo um manifesto não só pelo feminismo, mas pelo amor fraternal ameaçado.

Título: Garotas de Neve e Vidro | Título Original: Girls Made of Snow and Glass | Autora: Melissa Bashardoust| Editora: Plataforma 21 | Páginas: 424 | Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

Garotas de Neve e VidroSinopse: Mina é filha de um mago cruel e sua mãe está morta. Aos dezesseis anos, seu coração nunca bateu apaixonado por ninguém – na verdade, ele jamais bateu de forma alguma, e Mina sempre achou esse silêncio normal. Ela nunca suspeitou que o pai arrancara seu coração e, no lugar, colocara um coração de vidro. Então, quando Mina chega ao castelo de Primavera Branca e vê o rei pela primeira vez, ela cria um plano: ganhar o coração dele, tornar-se rainha e finalmente conhecer o amor. A única desvantagem desse plano, ao que tudo indica, é que ela se tornará madrasta. Lynet tem quinze anos e é a imagem de sua falecida mãe. Um dia, ela descobre a verdadeira razão disso: a partir da neve, um mago a criou à semelhança da rainha morta.
Mas, apesar de ser a projeção visual perfeita da falecida rainha, Lynet preferiria ser forte e majestosa como sua madrasta, Mina. E Lynet realiza seu desejo quando o pai a torna rainha dos territórios do sul, tomando assim o lugar de Mina. A madrasta, então, começa a olhar para a enteada com algo que se assemelha ao ódio, e Lynet precisa decidir o que fazer – e quem quer ser – para ter de volta a única mãe que de fato conheceu… ou simplesmente vencer Mina de uma vez por todas. Garotas de Neve e Vidro traça a relação de duas mulheres fadadas a serem rivais desde o princípio – a não ser que redescubram a si mesmas e deem novo significado à história que lhes foi imposta.

Melissa Bashardoust possuí uma escrita fascinante. Muito embora esteja lidando com universo pautado em um conto enraizado nos primórdios da sociedade-contemporânea (Quem não conhece a Branca de Neve?), a autora influi para construir algo inteiramente novo em termos simbólicos e conceituais. O enredo transcende do irreal ao real criando um misto de emoções verdadeiras e palpáveis. Melissa não parece disposta a apenas narrar uma porção de acontecimentos que levam seus personagens a chegarem em determinado lugar, mas sim a refletir sobre assuntos diversos que recriam a vida e o tempo, que muito embora sejam a parte do nosso, refletem nosso medos, anseios e sonhos.

Suas personagens são exemplos de tal determinância. Lynet, a protagonista secundária da obra (Mina certamente é a moral), tem uma espécie de relutância em aceitar aquilo que lhe impõem. O que me fez gostar imediatamente da personagem, pois sua força é bem estruturada na maneira com o qual foi criada envolta de uma psicologia reversa: treinada para ser uma perfeita dama da sociedade, Lynet quer algo mais que se tornar uma garota de porcelana, deixando para trás as semelhanças com a mãe (antiga rainha) a fim de criar algo maior para si. Além disso, Lynet não faz o clássico garota badass que termina sendo arrogante e não poderosa. Mas a personagem cresce e muito durante a trama por saber ouvir o que aqueles ao seu redor têm a lhe dizer.

Mina, por outro lado, foi uma personagem mais desenvolvida ao seu emocional. O modo como a rainha estabelece relações com os outros personagens cresceu de modo gradativo e doloroso. Mina deseja proximidade, sobretudo amor. Entretanto, mas não consegue pelos abusos mentais mentais e verdades “absolutas” dados pelo pai: Mina tem um coração de vidro, é incapaz de amar de alguém. Dessa forma, tudo que Mina deseja é que vejam sua beleza e a amem por ela, sem nunca mostrar seu verdadeiro já que não consegue suportar a ideia de lhe odiarem. Dessa forma, a construção da personagem vai para além do que conhecemos sobre um vilão, se é que podemos classificar a madrasta nesse ponto. Mina se torna muito mais aprofundada que um esteriótipo, de modo a aprender a ter confiança em si mesma e fugir das ideias arcaicas do seu passado.

“Estava ciente demais que era um espelho que a amava, e espelhos viam apenas a superfície.” 

Minha ressalva a obra foi a inconstância da narrativa que a deixou pesada. Li poucas páginas com a impressão que estava lendo muitas. Isso se deve a carga dramática que muitas vezes se tornou excessiva na trama, passando um aspecto incongruente com a proposta.

Ademais, Garotas de Neve e Vidro está entre as melhores obras que li neste ano. A autora toca em temas importantes, mas principalmente quebra a rivalidade feminina que já não deveria existir entre nós. Se você ainda não sabe o que é sororidade – palavra tão marcante em nosso contexto atual, essa obra é um perfeito conceito disto. 

( Resenha ) A Invasão de Tearling – Érica Johansen – Livro Dois

O segundo livro da trilogia escrita por Érica Johansen atingiu um novo patamar deixando a promessa de uma grande finalização. A história evoluiu para nos deixar com água na boca e promover uma leitura inesquecível de uma série que pode entrar para as melhores que já li.

Esta resenha não terá spoiler.
Para garantir isto pule a sinopse.

Título:  A Invasão de Tearling | Título Original: The Invasion of the Tearling| Autora: Érica Johansen | Editora: Suma| Páginas:  400 | Ano:  2017|  Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ❤️ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir (1).jpgSinopse: Kelsea Glynn é a rainha de Tearling. Apesar de ter apenas dezenove anos e nenhuma experiência no trono, Kelsea ficou rapidamente conhecida como uma monarca justa e corajosa. No entanto, o poder é uma faca de dois gumes. Ao interromper o comércio de escravos com o reino vizinho e tentar conseguir justiça para seu povo, ela enfurece a Rainha Vermelha, uma feiticeira poderosa com um exército imbatível. Agora, à beira de ver o Tearling invadido pelas tropas inimigas, Kelsea precisa recorrer ao passado, aos tempos de antes da Travessia, para encontrar respostas que podem dar ao seu povo uma chance de sobrevivência. Mas seu tempo está acabando… Nesta continuação de A rainha de Tearling, a incrível heroína construída por Erika Johansen volta para outra aventura cheia de magia e reviravoltas.

“Eu acho que esse é o ponto crítico do mal neste mundo, Majestade; os que se sentem no direito de fazer o que quiserem, de ter o que quiserem. Pessoas assim nunca se perguntam se têm direito. Não consideram o custo para ninguém além de si mesmas.”

A narrativa de Érika Johansen é peculiar. Somos trajados por uma escrita diferenciada, cadenciada e com descrições que fundamentam e parafraseiam a trama. Mesmo se tratando de uma fantasia com uma personagem adolescente, seu texto envolve pouca ação e quase nenhum romance, onde a política se sobressai. Parece algo que George R. R. Martin teria escrito, com o diferencial que Johansen tem os pés fixados em nosso mundo – e não na alta-fantasia -, para recriar a realidade que conhecemos para torná-la algo mais.

Mas muito embora a política de Tearling seja um dos grandes focos da trama, esse livro em questão trata bem mais do passado do que da atualidade. A Invasão de Tearling vai ser pautada dentro dos episódios que levaram à construção do país e, consequentemente ao seu declínio. Assim sendo, Johansen traz explicações sobre A Travessia, fato muito falado mas pouco explicado no livro anterior, mas aonde estão alocados os princípios para a fundação da sociedade utópica idealizada por William Tear que se tornou “do passado”, distópica e tão mais próxima do que o futuro nos reserva hoje.

“Nós sempre pensamos que sabemos o que coragem quer dizer. Se eu fosse escolhido, nós dizemos, eu atenderia ao chamado. Eu não hesitaria. Até o momento que chega nossa vez, e aí percebemos que as exigências de verdadeira coragem são bem diferentes do que tínhamos imaginado, muito tempo antes, naquela manhã clara em que nos sentimos corajosos.”

O livro recomeça alguns dias depois de onde A Rainha de Tearling foi finalizado. Kelsea Glynn está lidando com as consequências de suas escolhas. É bom ressaltar que Johansen não cria uma princesa irreal, que não entende os problemas de suas ações ou que os descobre depois de ser tarde de mais. Mas sim uma personagem sábia, criada para ser rainha que coloca seu povo em primeiro lugar. Por esse motivo, diria que Kelsea é uma das minhas personagens favoritas. Sua presença e sua força são verdadeiras, e suas ideias políticas poderiam realmente dar certo.

Mas como havia aludido anteriormente, o livro tem um foco maior nos acontecimentos pré-Tearling. Na primeira obra existem algumas menções à fatos do nosso presente que haviam causado estranhamento. Como uma sociedade medieval poderia ter acesso aos livros de J. K. Rowling? A única explicação seria ser uma sociedade póstuma. De modo que a pergunta mudou para: como a nossa sociedade moderna mudou para uma sociedade medieval?

Assim, com a prerrogativa de Kelsea precisar entender o antes para enfim conquistar um futuro glorioso, somos apresentados à visões do passado pelos olhos de Lily. Foi doloroso acompanhar a história e adianto a vocês que conteúdos pesados – cenas de violência e estupro – surgiram na trama.

O mundo futurístico manifesta-se como um aprofundamento da sociedade patriarcal. Os homens literalmente dominaram o mundo através dos preceitos religiosos tornando-se donos da mulheres. Lily é casada e tem grande estabilidade econômica. Entretanto, tem que suportar as ameaças veladas do marido que ter os filhos que Lily não deseja. Tudo mundo quando ela descobre um movimento, idealizado por William Tear em busca de um horizonte melhor.

Dessa forma, entre presente e passado Joahansen insere um belo paradoxo que envolve as ações de ambas as mulheres: será que o futuro glorioso, quando liderado por alguém de visão, pode ser seguro?

“O sucesso de uma grande migração humana depende do encaixe de muitas peças individuais. Deve haver descontentamento comum status quo desagradável, talvez até intolerável. Deve haver idealismo para motivar o movimento, uma crença poderosa em uma vida melhor além do horizonte. Deve haver grande coragem diante de probabilidades terríveis. Mas, mais do que tudo, toda migração precisa de um líder, a figura indispensável e carismática que até homens e mulheres apavorados vão seguir sem pestanejar em direção ao abismo.”

A Invasão de Tearling é uma obra surpreendente, cheia de política e desafios. Eu não somente indico o livro para os fãs do gênero, como digo que para todos aqueles que precisam de um vislumbre de para onde a sociedade atual está nos levando, esta obra é um horizonte assustador.

( Resenha ) Perigo Para Um Inglês – Sarah MacLean – Livro Três

Desde que li o primeiro capítulo de Cilada Para Um Marquês estava ansiosa para ler a história de Seraphina Tabolt, duquesa de Haven. A mais misteriosa das Irmãs Perigosas sempre me cativou e ao conhecer seu íntimo, posso dizer que me Sera deve se tornar uma das minhas mocinhas de época favoritas.

Título: Perigo Para Um Inglês | Título Original: The Day of the Duchess| Autora: Sarah MacLean | Editora: Guttemberg | Páginas:  304 | Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

51zmfv4nkhlSinopse: Malcolm Bevingstoke, o Duque de Haven, viveu os últimos três anos na solidão auto-imposta, pagando o preço por um erro, e perdendo, para sempre, um amor. Mas Haven precisa de um herdeiro, o que significa que ele deve encontrar uma esposa até o final do verão. Há apenas um problema – ele já tem uma… Depois de anos no exílio, Seraphina, a Duquesa de Haven, retorna a Londres com um único objetivo – encontrar a felicidade, livrando-se do homem que partiu seu coração. Mas o marido lhe oferece um acordo: ela poderá ter sua liberdade, assim que encontrar uma substituta. Isso significa que terá que passar o verão com o marido que ela não quer, mas que, de alguma forma, não consegue resistir. O Duque tem apenas um verão para estar com a esposa e convencê-la de que, apesar do passado, ele poderá tornar o felizes para sempre, uma realidade todos os dias…

“Sera tinha vindo para conseguir seu divórcio, e iria consegui-lo. Ela iria apagar seu passado. E escrever seu futuro. Uma vida que Malcolm não poderia lhe dar. Uma vida que ela tinha que criar para si mesma.”

Este é o melhor livro da série sem dúvidas e um dos mais vistosos de Sarah MacLean. A história elaborada é complexa e vai muito além do esperado não somente por sua premissa, como também para o gênero. Aliás, se posso afirmar uma qualidade que distingue MacLean das demais, será o dinamismo de suas obras que sempre demonstram a mulher como dona do própria destino desde os primórdios ou sua caminhada para tal. Seus livros são claramente feministas, que sempre trazem para o leitor o amor e o desejo como segundo plano. Nunca estamos falando apenas de um casal, mas da individualidade e a necessidade de estar bem consigo mesmo para funcionar ao lado de outra pessoa.

Em Perigo Para Um Inglês, Sarah MacLean só comprova isso. Seu casal principal não tem a necessidade de apaixonar e autora não faz muito esforço para mostrar como isto aconteceu. Seraphina e Malcom são apaixonados, e sua jornada buscará evidenciar a necessidade que ambos tem de perdoar a si mesmos e um ao outro. A palavra que define esse livro é superar: as perdas, as mágoas, as artimanhas, os erros.

“E se eles tivessem uma chance agora? Mas eles não tinham. Não era possível superar o passado. Superar o modo como eles usaram suas armas um contra o outro. E não havia modo de apagar a mais básica das verdades – a vida que eles nunca poderiam ter porque sua única chance tinha desaparecido na neve fria de janeiro, três anos antes.”

Malcom é aquele tipo detestavelmente metido. Imaginem vocês que MacLean abriu mão do mocinho perfeito, criando um verdadeiro membro da aristocracia londrina. Malcom é metido, antipático, se acha o dono do mundo tendo plena consciência do poder ducal. E talvez eu realmente devesse detestá-lo, mas não consigo. A questão é que Malcom representa a aristocracia de uma maneira realista. E se estamos acostumados à personagens notoriamente perfeitos, mas irreais a um contexto, a chegada de Malcom é impactante, porém que provoca uma reação questionadora.

Além desse fator, é certo dizer que se Malcom não fosse assim, suas motivações seriam inconsistentes para a trama. Criado para ser um duque, o homem sempre havia imaginado que as mulheres só o quereriam por causa do título, até conhecer Seraphina e acreditar que ela o via contrário. Mas quando percebe sua traição, Malcom assume uma posição defensiva de alguém que foi traído afastando-a de modo cruel, mas inegavelmente com razão.

A partir desse momento, quando Seraphina vai embora, Malcom percebe que pode ter cometido um erro, repensa nos significados das ações e na falta que sua mulher faz. Um sofrimento que perdura, até que Seraphina volta, e ele passa a fazer de tudo para conquistá-la. No obstante, Sera já não deseja sofrer mais.

“Nós sempre gostamos demais um do outro por instantes, Malcolm. Instantes que nunca foram suficientes para compensar o quanto nós nos magoamos.”

No outro lado da moeda, Seraphina também possuí uma personalidade difícil como resultado de suas origens. Entretanto, se Malcom foi criado para ser um rei, Sera não teve uma vida de luxos e apenas ascendeu a sociedade. As Irmãs Perigosas são assim conhecidas por “fazerem” de tudo para conquistar um bom partido. Frutos da plebe, assumem um lugar de destaque quando seu pai compra o título. Tudo isso explicado no Cilada Para Um Marquês.

O que leva Sera a cometer um grande erro do passado é justamente suas origens e as de seu título, pois não acreditava que Malcom realmente se casaria com ela um dia. Mas se Seraphina tinha medo no passado e só desejava ser feliz ao lado do homem que amava, agora ela precisa se livrar das amarras e conquistar algo que acredita que nunca conseguiria com o casamento: sua liberdade.

Seraphina literalmente cresce de uma menina inocente que acreditava em contos de fada, para uma mulher dona de tudo e todos. Não existe mais artimanhas e segredos. Existe a verdade dura do seu sofrimento e de suas perdas.

“– Você me mandou embora! – ela disse, incapaz de não elevar a voz. – Você ficou de pé na casa que poderíamos ter construído um lar, logo depois do nosso café da manhã de núpcias, e me disse para ir embora. – Quando ele abriu a boca para responder, ela percebeu que ainda não tinha terminado. – E você qual a ironia disso? O mundo todo pensa que você me arruinou antes de casar comigo, quando a verdade é que eu só fui arruinada depois. Você arruinou meus sonhos.”

Além disso, existe duas outras coisas que me fizeram dar uma bela suspirada por esse livro. As Irmãs Perigosas, todas reunidas com um objetivo em comum de fazer Malcom sofrer, o que foi bem divertido. E a mitologia que envolve toda a obra. Se você já leu Sarah MacLean deve perceber que sempre é contado a história de alguma entidade grega. Somente nessa obra, percebi como os romances de MacLean são na verdade releituras dessas histórias.

“Órion não temia a cegueira. Só temia nunca encontrá-la. Nunca ter a chance de convencê-la de que eram um para o outro. De que mortal ou não, ele podia lhe dar tudo. O Sol, a Lua, as estrelas.
— Só que ele não podia — ela sussurrou.

Malcolm hesitou ao ouvi-la, e Sera percebeu que a mão dele se crispava no cabo da tocha, que a luz tremulou nesse momento, no corredor sombrio, como se as palavras pudessem manipulá-la.
— As irmãs de Merópe procuraram Artemis, deusa dos caçadores, pensando que se ela mandasse Órion interromper sua busca, ele a escutaria. Elas juraram devoção à deusa, que foi falar com Órion.

Apesar de algumas passagens um tantinho arrastadas, Perigo Para Um Inglês tornou-se uma de minhas obras favoritas. Um romance de belas proporções que resinifica a liberdade e mostra o caminho árduo para o perdão.

( Resenha ) A Rainha de Tearling – Érika Johansen – Livro Um.

Eu conheci A Rainha de Tearling através do Bookstagram. Muito embora não estivesse nas minhas considerações para este mês ou mesmo este ano, em uma leitora conjunta com a Keth (Parabatai Books), acabei pegando o livro e fiquei surpresa com a quantidade de história que existe sobre as páginas de Érika Johansen.

Título: A Rainha de Tearling | Título Original: The Queen Of Teaeling| Autora: Érica Johansen | Editora: Novo Conceito | Páginas: 352 | Ano: 2017 | Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️| Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir.pngSinopse: Quando a rainha Elyssa morre, a princesa Kelsea é levada para um esconderijo, onde é criada em uma cabana isolada, longe das confusões políticas e da história infeliz de Tearling, o reino que está destinada a governar. Dezenove anos depois, os membros remanescentes da Guarda da Rainha aparecem para levar a princesa de volta ao trono – mas o que Kelsea descobre ao chegar é que a fortaleza real está cercada de inimigos e nobres corruptos que adorariam vê-la morta. Mesmo sendo a rainha de direito e estando de posse da safira Tear – uma joia de imenso poder –, Kelsea nunca se sentiu mais insegura e despreparada para governar. Em seu desespero para conseguir justiça para um povo oprimido há décadas, ela desperta a fúria da Rainha Vermelha, uma poderosa feiticeira que comanda o reino vizinho, Mortmesne. Mas Kelsea é determinada e se torna cada dia mais experiente em navegar as políticas perigosas da corte. Sua jornada para salvar o reino e se tornar a rainha que deseja ser está apenas começando. Muitos mistérios, intrigas e batalhas virão antes que seu governo se torne uma lenda… ou uma tragédia.

Sempre que leio livros de fantasia ou distopia, que envolvem a criação de novos mundos seja desde o princípio seja com base na nossa sociedade atual, um dos pontos que mais me atraem é a história pré-narrativa: a história do antes que gera um agora e então um depois. À exemplo, temos pré-histórias sensacionais como em Divergente, Jogos Vorazes e A Maldição do Vencedor. Assim sendo, vocês devem imaginar minha grande felicidade ao perceber que a história de Érika Johansen envolve tanto do passado quanto do presente, para criar uma expectativa real do que se pode esperar no futuro.

A narrativa de Johansen prende do começo ao fim. Muito embora seja mais lenta, isso se deve ao fato de que a autora busca quase que constantemente dar ao leitor as bases de seu novo mundo, o que torna tudo mais fácil de ser compreendido quando chega o momento. Deve-se ressaltar que o mundo ao qual Kelsea vive é pós o nosso, muito embora percebamos uma grande regressão no que diz respeito à conhecimento e tecnologia. Eu mesma demorei a entender isso, e sem a densidade da narrativa, suponho que não teria compreendido.

Além disso, é admirável o trato que Johansen dá aos seus personagens em um sentido totalitário da história. Ninguém é cem por cento bom ou ruim, e até mesmo o poder é bem colocado entre a rainha de Tearling e quem a cerca. Essa estrutura narrativa me lembra George R. R. Martin e A Guerra dos Tronos, pois tanto Johansen quanto Martin contam a história de um reino e não de um personagem, muito embora para Tearling tenha um número reduzido de personagens em comparação.

Entretanto, o maior crédito da obra está na personagem principal e sua construção. Kelsea não é forte à princípio apesar de sua busca para ser amada pelo povo e assim se tornar digna de usar a coroa Tear muito alem do sangue. É uma personagem forte, intrigante e que trilha um grande caminho para conquista da anti-estima. E talvez isso tenha sido um grande marco na obra. A fixação que Kelsea tem com beleza que a torna diferente das protagonistas lindas e maravilhosas existem aos montes.

A Rainha de Tearling é um começo excepcional para uma trilogia que caminha para se tornar inesquecível. Um livro forte que trás ensinamentos sobre poder, mas principalmente sobre a coragem que devemos ter para alcançar aquilo que acreditamos.

( Livrosofia ) Romances

Oi Corujinhas, como vão?

No Livrosofia de hoje vamos dar continuidade a explicação dos gêneros românticos. O post de hoje será voltado aos romances antigos: clássicos, o histórico e  o de época. Embora muitas de vocês já devam saber a diferença básica entre eles, para quem está começando e não quer entender melhor a definição a ideia é ajudar. Espero que gostem do post, afinal, são alguns dos meus gêneros favoritos.

◆══════════●|| [ Romance Histórico ] ||●═══════════◆

segunda-guerra-mundial-historia-causas-e-consequenciasO Romance Histórico é assim definido por se passar antes da guerra do Vietnã ou da Segunda Guerra Mundial variando entre as editoras. O enredo será concentrado no desenvolvimento do herói e heroína, dentro de um cenário histórico popularmente conhecido que deverá surtir um efeito sobre esses personagens. O romance romântico fica caracterizado como uma trama ou uma subtrama a parte central da obra, o historicismo.

Assim sendo, torna-se fácil definir as obras que pertencem a essa categoria, pois o fator histórico é abrangente na trama. Mas para fazer a classificação podemos levar em consideração alguns pontos. O fato histórico deve ser o ponto de partida para a construção da ficção. Os personagens devem apresentar valores éticos e morais da época, ao passo que o autor deve procurar recuperar estruturas sociais, culturais, políticas e estilos referenciais ao passado. A narrativa é construída no tempo passado e as situações factuais devem ser legitimadas através de documentos e referências

a garota que voce deixou para trasA Garota Que Você Deixou Para Trás da escritora britânica JoJo Moyes tem boa parte da obra pertencente à essa categoria, pois tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, onde os personagens tem suas vidas modificadas por tal acontecimento. Os valores sociais da época também estão presentes e é certo afirmar quem sem o historicismo não haveria enredo. Mas é bom ressaltar que essa obra não é considerada do gênero completamente, pois foi combinada ao drama. O Tempo e O Vento de Érico Veríssimo é outro exemplo de romance histórico, pois o Terra-Cambará tem suas vidas e os costumes modificados pelos acontecimentos da guerra do Paraguai contra o Brasil.

◆══════════●|| [ Romance de Época ] ||●═══════════◆

moda feminina 1869O Romance de Época tem uma estrutura única. Não tem afinco com datas e nem faz referências à fatos históricos importantes. Muito menos se preocupa em mostrar como se comportava um povo em determinado momento, para questões além das factuais. Os livros desse gênero – em suma maioria – se destacam por aludirem a sociedade londrina no período vitoriano (de junho de 1837 a janeiro de 1901) valorizando a moda, etiqueta social, passeios comuns como jantares, festas, campos ou teatros.

nove regras a ignorar antes de se apaixonar

Entretanto, muito embora a primeira vista pareçam obras frívolas, essas obras costuma destacar a o casamento por conveniência, as amantes, as diferenças entre as classes sociais – nobres versus plebeus -, mas principalmente a fragilidade feminina que espelha as diretrizes atuais. Os romances da autora estado-unidense Sarah MacLean por exemplo, costumam ter protagonistas firmes que estão além das convenções sociais.

É interessante perceber que muitas autoras de romances de época utilizam como pano de fundo um mesmo ambiente, de modo que atitudes de um personagem influenciam diretamente na vida de outros. MacLean, por exemplo, escreveu três séries quase que complementares. A série Os Números do Amor se passa dez anos antes de O Clube dos Canalhas (onde duas protagonistas aparecem como coadjuvantes na anterior). que por sua vez se passa um ano antes da série Escândalos e Canalhas, onde uma de suas coadjuvantes devem estar presentes em sua próxima série Barenuckle Bastards.

◆══════════●|| [ Romance Clássico ] ||●═══════════◆

A determinação de um romance como clássico é variável e subjetiva. Sua principal diferença entre os outros gêneros, tanto dos aqui citados como dos demais literatos, é sua capacidade de ser atemporal. Se o romance histórico é assim definido por se passar em uma época anterior a do autor, o romance clássico será aquele que ultrapassa as barreiras do tempo tornando-se atual apesar de sua data de nascimento. Romance clássicos costuma ser celebrados por acadêmicos, críticos e professores, que mesmo se não gostarem da obra em seu cerne principal, as entendem como leituras obrigatórias para qualquer pessoa que pretenda alguma seriedade em relação a literatura e a história que a envolve.

orgulho e preconceitoPor certo, não cabe ao crítico considerar um Clássico superior aos outros, apenas ressaltar qualquer tentativa de esquecê-lo pois esse romance será base para a construção de outros (que podem ou não serem considerados superiores).

Dando um exemplo pessoal de tal entendimento, posso afirmar de modo categórico que não encontrei-me na leitura de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Entretanto, não posso afirmar que tal livro deva ser ignorado pois sua mocinha, Elizabeth Bennet, tem uma personalidade facilmente encontrada como inspiração dentro de outros enredos. Dessa maneira, um romance clássico é um produto de seu próprio tempo e das críticas sociais que seus livros refletem entre a realidades usada para contrapôr um cenário social e político da sociedade de determinada época. Ou seja, a literatura clássica serve para ensinar aos leitores algo a respeito de seu próprio mundo.

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Espero que tenham gostado. Beijos.

 

 

 

(Resenha) Anna e O Beijo Francês – Stephanie Perkins – Livro Um

Minha leitura de Anna e o Beijo Francês aconteceu de um modo inesperado. Primeiro dia do ano, e e eu estava procurando uma leituras mais simples, que me desse aquela sensação de conforto no peito. De modo que comecei este livro sem muitas expectativas e acabei saindo da p bem satisfeita.

Título: Anna e O Beijo Francês | Título Original: Anna and The Kiss French | Autora: Stephanie Perkins | Editora: Novo Conceito| Páginas: 268 | Ano:  2011| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐  | Encontre: Saraiva | Skoob | Amazon

Anna e o Beijo FrancêsSinpose: Anna Oliphant tem grandes planos para seu último ano em Atlanta: sair com sua melhor amiga, Bridgette, e flertar com seus colegas no Midtown Royal 14 multiplex. Então ela não fica muito feliz quando o pai a envia para um internato em Paris. No entanto, as coisas começam a melhorar quando ela conhece Étienne St. Clair, um lindo garoto — que tem namorada. Ele e Anna se tornam amigos próximos e as coisas ficam infinitamente mais complicadas. Anna vai conseguir um beijo francês? Ou algumas coisas não estão destinadas a acontecer?

– “É possível que lar seja uma pessoa e não um lugar?”

Se tem uma coisa que Anna e o Beijo Francês prova, é que um clichê quando bem escrito consegue deixar sua marca no coração dos leitores. Para tanto, o autor precisa entender que seu livro faz parte desse tipo de narrativa e não tentar criar situações mirabolantes. Nesse quesito, Stephanie Perkins consegue ir além do que todos esperamos, criando não somente um clichê de aquecer o coração, mas uma história de amor real que poderíamos encontrar se olharmos para o lado.

A narrativa de Perkins é bem-humorada, cheia de conflitos adolescentes. Muito embora o plot que dá início ao livro pareça inverosímel – todos nós ficaríamos muito felizes de arrumar as malas e fazer intercâmbio em Paris -, os motivos de Anna para não gostar da ideia tiveram uma ótima construção bem como a personalidade da protagonista da obra. De certa forma, Anna me lembra Lara Jean e o medo que parece sentir de estar com outras pessoas, fora do mundo que sempre conheceu. Dessa forma, além de nos depararmos com um livro que fala sobre amor, também encontramos uma obra sobre amadurecimento, para que Anna deixe de ter medo e passe a lutar por tudo aquilo que sempre desejou.

“Ele é Étienne. Étienne, como na noite em que nos conhecemos. Ele é Étienne; ele é meu melhor amigo. Ele é muito mais.”

Falando em romance, muito embora eu não tenha shippado loucamente os protagonistas, não posso negar que sua história foi muito bem construída, desde a paixão quanto as pessoas e os percalços que envolveram as bases dessa história. Não existe guerra entre mulheres (como foco principal, pelo menos), nem mesmo conversas banais. Cada momento do livro foi essencial para o próximo criando uma sucessão de acontecimentos que mantiveram um fluxo de simplicidade que realizam um feito inesquecível: o romance entre Étienne e Anna tornou-se palpável, crescente e intenso a medida que as páginas foram passando.

Anna e O Beijo Francês é uma obra memorável dentro de um gênero esquecível. Um livro de personagens imperfeitos e reais. O livro é belo a partir do olhar apaixonado de duas pessoas.