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( Resenha ) Identidade Roubada — Chevy Stevens

Livros de suspense estão entre meus favoritos. Na verdade, meu consumo literário (apesar da vivacidade do blog) normalmente é voltado para as questões mais sombrias localizadas entre o suspense e o terror. Por esse motivo, muitas vezes sou capaz de pegar livros de suspense sem nem mesmo ler a sinopse. Baseada na capa e no comentário que normalmente acompanham os livros, decido se a obra vale meu tempo. Foi exatamente isto que aconteceu quando decidi ler Identidade Roubada de Chevy Stevens. E apesar de não poder dizer que foi um dos meus favoritos, ainda sim foi uma leitura que valeu a pena pelas interrogativas colocadas pelo autor.

Titulo: Identidade Roubada Título Original: Still Missing Autor: Chevy Stevens Editora: Arqueiro Ano: Paginas: Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ Encontre:| Amazon | Skoob

Identidade-Roubada-203x300Sinopse: Era para ser um dia como outro qualquer na vida de Annie O’Sullivan. A corretora de imóveis levanta da cama com três objetivos: vender uma casa, fazer as pazes com a mãe e não se atrasar para o jantar com o namorado. Naquele domingo, aparecem poucas pessoas interessadas em visitar o imóvel. Quando Annie está prestes a ir embora, uma van estaciona diante da casa e um homem sorridente vem em sua direção. A corretora tem certeza de que será seu dia de sorte. Mas o inferno está apenas começando. Sequestrada por um psicopata, Annie fica presa durante um ano inteiro em um chalé nas montanhas, onde vive um pesadelo que deixará marcas profundas.

Narrado em passado e presente por primeira pessoa nas duas situações, Identidade Roubada tem prerrogativas bem interessantes que precisam ser discutidas nos dias de hoje. Cada vez mais, somos surpreendidos por crimes violentos contra as mulheres. Contra homens também, mas a expressividade entre crimes de sequestro é expressiva enquanto tratada sob o hall do feminino. Muito embora o livro de Stevens não seja exatamente uma luta do feminismo, também não podemos desconsiderar essa possibilidade pela invocação do sentimento de revolta que nos rodeia quando entramos no seu universo.

Eu nunca havia lido nada da autora. Conheci sua obra através do canal da Pam Gonçalves em um vídeo de book-shell-of-tour. De primeira a capa e o título me chamaram bastante atenção, pois gosto bastante gênero e a criatividade do título despertaram em mim o sintoma de necessidade. Mas só realizei leitura muitos anos depois, quando, passeando entre os livros revi seu título e pensei: porque não? E posso dizer que apesar de não ter me surpreendido com a obra, a história que Chevy tem a oferecer é fantástica.

Narrado em primeira pessoa por Annie, a história se desenvolve bem pela escrita suave de Stevens. A autora não peca em dar mais detalhes do que o necessário, e sim construir ambientações e sentimentalismos que criam todo o aspecto inovador do livro. Afinal de contas, tal narração é feita através das cessões de Annie com um terapeuta. E muito embora isso deixe de lado uma parte do suspense da obra, ajuda a entender melhor como a personagem lidou com o sequestro-cativeiro e agora tenta retornar à sua vida normal.

Um dos pontos mais favoráveis ao livro, é com certeza Annie. A protagonista é carismática, um tanto cínica e incrivelmente humana. Poucas vezes me apeguei tanto a uma personagem na literatura. Isso se deve não somente ao grau de proximidade com a realidade trazida por Stevens. Exagerada e um pouco egocêntrica, Annie tem defeitos que muitas vezes julgamos, mas que fazem parte da vida de quem passou por abusos. É doloroso acompanhar cada um dos seus choros se tornando impossível não sentir empatia pela personagem.

O único defeito do livro foi o final. Mesmo que haja um bom plot-twist este não é bem desenvolvido dando a impressão que fora largado ao meio do caminho. As questões tão bem levantadas pela autora perdem espaço para uma válvula de escape simples e contraditória. Os motivos do livro deveriam ter sido melhor trabalhados para fechar tudo com chave de outro.

Identidade Roubada é uma leitura de altos e baixos que vale a pena pela realidade imposta pela autora. Um livro real sobre a hedionidade humana e suas implicações no contexto total da sociedade.

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( Resenha ) Fique Comigo – Harlan Coben

Existem alguns autores que não importa quantos livros você leia dele que jamais irá cansar ou ficar com aquela sensação incomoda de mais do mesmo. Harlan Coben é um desses autores em minha vida. Sempre com dinamismo, o Mestre das Noites Em Claro faz jus ao título em Fique Comigo. Um suspense arrebatador que nos mostra como é impossível fugir do passado.

Título: Fique Comigo | Título original: Stay Close| Autor: Harlan Coben | Editora:  Arqueiro | Páginas: 384| Ano: 2014| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐| Encontre: Skoob SaraivaAmazon

FIQUE_COMIGO_1363735233PSinopse: A vida de Megan Pierce nem sempre foi um mar de rosas. Houve uma época em que ela nunca sabia como seria o dia seguinte. Mas hoje é mãe de dois filhos, tem um marido perfeito e a casa dos sonhos de qualquer mulher- e, apesar disso, se sente cada vez mais insatisfeita. Ray Levine já foi um fotógrafo respeitado, mas agora, aos 40 anos, tem um emprego em que finge ser paparazzo para massagear o ego de jovens endinheirados obcecados em se tornar celebridades. Broome é um detetive incapaz de esquecer um caso que nunca conseguiu resolver: há 17 anos, um pai de família desapareceu sem deixar rastros. Todos os anos ele visita a casa em que a mulher e os filhos do homem esperam seu retorno. Essas pessoas levam vidas que nunca desejaram. Agora, um misterioso acontecimento fará com que seus caminhos se cruzem, obrigando-as a lidar com terríveis consequências de fatos que pareciam enterrados havia muito tempo. E, à medida que se deparam com a faceta sombria do sonho americano – o tédio dos subúrbios, a angústia da tentação, o desespero e os anseios que podem se esconder nas mais belas fachadas -, elas chegarão à chocante conclusão de que talvez não queiram deixar o passado para trás.

A inquietude voltaria. Era inevitável. Sofrimento, medo, paixão, os segredos mais obscuros – nada durava para sempre. Mas talvez, se respirasse fundo e aguentasse firme, Megan pudesse manter essa sensação pelo menos por mais algum tempo.

Harlan Coben tem uma das melhores narrativas que eu conheço. Não é atoa que já passei da casa dos vinte em números de obras que já li de sua autoria. O ponto que sempre me faz retornar ao seus livros é a capacidade que tem de dar detalhes sem ser maçante. De construir narrativas que são cheias de significados ao mesmo tempo que estão tomadas de ação. Harlan não é um autor da mesmice, mas alguém que busca inovar e trazer sempre aos seus leitores uma obra que seja para além do que nós esperamos.

Nós lutamos pela liberdade, não foi? E então o que fazemos com essa liberdade toda? Nos prendemos a bens materiais, dívidas e, bem, à outras pessoas.

Nessa obra, narrada em terceira pessoa, Harlan desconstrói o sonho americano: ter uma casa grande, um carro na garagem, um cônjuge que lhe ama e filhos bem educados. Parece ser uma vida dos sonhos, mas quando Harlan se aprofunda nisso percebemos que perfeição não é exatamente aquilo que está em jogo, pois uma vida assim seria completamente sem emoções. E o que para algumas pessoas significa felicidade eterna, para outras são algemas que prendem aos preceitos da sociedade que negam a plenitude de se viver como queremos. Pois precisamos desejar as mesmas coisas, ter as mesmas vidas para sermos normais. Almejar uma vida dos sonhos, mesmo que aquele não seja o nosso.

– Todos nós representamos personagens diferentes para pessoas diferentes.

Através de seus três personagens principais, Harlan insere para seus leitores perspectives diferentes do que podemos considerar felicidade. O detetive Broome fica de frente com um caso antigo do passado ainda não resolvido. E é a partir que vislumbramos a primeira crítica de Coben: Será mesmo que nossos maridos ou esposas são exatamente aquilo que conhecemos deles? Podemos afirmar que eles não tem segredos ou lados obscuros que rodeiam suas vidas? A resposta é claro, é não. Nunca saberemos quem nos acompanham por não podermos ler mentes. Mas o questionamento também não é devido. Devemos confiar, não cegamente, mas entender o que torna especial a pessoa que escolhemos para nós.

 –Todo mundo parece feliz no Facebook

Megan, minha personagem favorita, demonstra as diretrizes de ser aquilo que não deseja. De certo modo, Megan conseguiu escapar de amarras para ser segurada por outras. Muito embora seu mundo passado e o atual são sejam iguais, também não podemos ressaltar que são completamente diferentes. Megan parece necessitar da adrenalina que possuía trocada por uma vida simples. Uma vida que muitos desejam e correm atrás, e aqueles que não querem são obrigados pela sociedade a fingirem estar feliz com elas. Megan se torna então um reflexo da existência obrigatória de ser parte da qual parece incapaz de ser totalmente feliz.

A efemeridade de nossa existência é a única certeza que podemos ter.

Fique Comigo é uma obra reflexiva que mais uma vez nos prova a capacidade que Harlan Coben tem de se superar. Muito embora o desfecho da narrativa aconteça de forma rápida de mais, ainda sim é um livro necessário por trazer a luz questionamentos tão tabus para nossa sociedade. Eu sempre irei recomendar os livros do autor que cada vez mais me prova porque ele é um mestre do suspense.

Havia aprendido a grande diferença entre os que têm tudo e os que não têm nada. Era uma questão de sorte e privilégio. E, quanto mais sorte você tinha e quanto mais portas se abriam por causa de seus privilégios, mais você precisava convencer os outros de que havia alcançado o sucesso devido à sua inteligência e ao seu esforço.O mundo,no fim das contas, se resumia a problemas de baixa autoestima.

( Lista ) 05 Personagens Que Marcaram

Oi Corujinhas. Mais uma vez vamos as listas aqui no blog parceria com a Kethlinda (Parabatai Books). Dessa vez nós vamos falar de cinco personagens que foram muito importantes na nossa vida, nos marcando de algum jeito e deixando grandes lições. Pois a verdade é que bom das leituras é sermos marcados por elas de várias maneiras possíveis. No final da lista, comentem qual personagem marcaram vocês também.

Vamos lá?

Garota Exemplar capa1. Amy Dunne Garota Exemplar.

Na resenha de Garota Exemplar, eu havia falado um pouco dos objetivos dessa personagem e da maneira com o qual ela me marcou e me fez enxergar o mundo por novos ângulos. De certo modo, Amy  foi além das amarras sociais comuns as mulheres de nosso século, que estão dispostas a fingir serem alguma coisa, para agradar um parceiro, um amigo, ou qualquer que faça parte de sua vida. Mas se tem algo que todos aprendemos com o tempo, é que não podemos mudar quem somos se não for por nós mesmos. Dessa forma, a lição que Amy dignamente nos ensina através de seus atos questionáveis é nunca mudar por alguém, porque a felicidade só vem se o amor for absorvido por alguém real.

Harry-potter-e-a-pedra-filosofal-livro.jpg2. Severo SnapeHarry Potter

Engraçado pensar que muitas pessoas não entendem como alguns “Potteheads” tem um amor tão grande pelo personagem de cabelos pretos e nariz adunco, de nome Severo Snape. Sempre vejo comentários que demonstram estranheza por suas bondades terem aparecido apenas no final do último livro. Mas a questão do personagem não é seu lado oculto, mas a maneira com o qual elas se apresentaram se tornando bem maior que um homem mal interpretado. Pois Severo foi realmente um personagem maldoso em um passado distante e um homem amargurado até sua morte, contudo o que lhe motivou a vida e ajudar aquele que significava todas as perdas de sua vida, foi o amor tenro que sentia por Lilian Evans. Por isso, ao criar este homem J. K. Rowling refaz o significado de redenção ao demonstrar que, somente quando chegamos ao verdadeiro amor, podemos nos tornar alguém melhor.

o odio que voce semeia3. StarrO Ódio Que Você Semeia

Sendo a mais recente personagem dessa lista, Starr foi uma das minhas  favoritas do ano passado. Isto porque foi marcante ver sua trajetória como um todo, do momento em que ela saiu da posição de sem voz para o alcance de sua força. Acredito que muitas pessoas que leram esse livro também ficaram impressionadas com a evolução de Starr, porque Angie Thomas não contorna a verdade com uma “mentira” ou uma situação improvável, mas algo real que nos faz acreditar na força de sua personagem bem como na veracidade de sua história.

o sol é para todos4. AtticusO Sol É Para Todos

Faz anos que li O Sol É Para Todos. Na época eu era uma adolescente em plena formação social e individual. Então imagine minha surpresa ao encontrar não somente Atticus, mas uma profusão de personagens que permeiam as páginas de Harper Lee. O Sol É Para Todos fala sobre preconceito, mas diferentemente de todos os livros que tem como este o tema, não foca apenas no preconceito racial, mas de classe, personalidade, velhice, loucura, julgamento… Atticus, o melhor pai fictício do mundo, ensina a seus filhos e ao leitor os caminhos pelo qual devemos superar inúmeras barreiras que nós mesmo nos impomos ao longo dos anos e que tanto jogamos sobre as outras pessoas.

nove regras a ignorar antes de se apaixonar5. Calpúrnia Hartwell – Nove Regras A Ignorar Antes de Se Apaixonar.

Não é surpresa para ninguém que romances de época fazem parte dos meus queridinhos. Sendo meu terceiro gênero favorito, por inúmeras razões, esses livros me marcam por apresentarem mocinhas a frente do seu tempo. Mas não somente isso, muitos livros exalam força e deixam claro que não importa de onde você seja, sempre pode-se ir além dos parâmetros da sociedade. As personagens de Sarah MacLean tem sido muito marcantes justamente por esse poder feminino que tanto trazem. Apesar de várias outras terem conquistado meu coração nos últimos tempos (estou falando com você, Pippa Marlbury kk), Callie continua como minha heroína favorita. E não somente por sua força, mas também por nunca ter mudado quem era, apenas ter descoberto a verdade sobre si mesma.

Eu sei que essa lista ficou bastante parecida com algumas que já tínhamos feito nos nossos blogs, pela repetição de alguns livros. Mas a verdade é que quando um livro marca, ele marca para sempre. Espero quer tenham gostado. E deixem nos comentários: qual personagem mudou sua vida???

Beijos.

( Resenha ) Até Que A Culpa Nos Separe – Liane Moriarty

Em mais um livro sobre segredos e mentiras, Liane Moriarty vai mais uma vez encarar o leitor para perguntar: Você esta realmente seguro de todas as decisões que tomou na vida? Você é feliz com suas escolhas?

Título: Até Que A Culpa Nos Separe | Título original: Truly Madly Guilty | Autora: Liane Moriarty | Editora: Intrínseca | Páginas: 464 | Ano: 2017 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Amazon| Saraiva

ate que a culpa nos separe

Sinopse: Amigas de infância, Erika e Clementine não poderiam ser mais diferentes. Erika é obsessivo-compulsiva. Ela e o marido são contadores e não têm filhos. Já a completamente desorganizada Clementine é violoncelista, casada e mãe de duas adoráveis meninas. Certo dia, as duas famílias são inesperadamente convidadas para um churrasco de domingo na casa dos vizinhos de Erika, que são ricos e extravagantes. Durante o que deveria ser uma tarde comum, com bebidas, comidas e uma animada conversa, um acontecimento assustador vai afetar profundamente a vida de todos, forçando-os a examinar de perto suas escolhas – não daquele dia, mas da vida inteira. Em Até Que a Culpa Nos Separe, Liane Moriarty mostra como a culpa é capaz de expor as fragilidades que existem mesmo nos relacionamentos estáveis, como as palavras podem ser mais poderosas que as ações e como dificilmente percebemos, antes que seja tarde demais, que nossa vida comum era, na realidade, extraordinária.

“Todos os seus segredos ficavam guardados lá dentro, atrás da porta da frente, que nunca podia ser totalmente aberta. O pior medo delas era que alguém batesse à porta.”

Mais uma vez me rendi a um livro de Liane Moriarty. Estou quase fazendo uma carteirinha de fidelidade com a autora já que sinto uma vontade maior cada vez mais ler e ler os livros da autora. Apesar de não poder dizer que seus livros são meus favoritos em todo mundo, posso considera-los numa posição de destaque já que de uma forma ou de outra eles me marcam profundamente pelos assuntos abordados em suas páginas. Segredos e acontecimentos são apenas o começo de sua narrativa que sempre vem com o intuito de despir nossas mentes e nos impor a pensar nas consequências da vida que escolhemos.

Com sua clássica narrativa impiedosa, Liane Moriarty conduz um livro cheio de pequenas situações que culminam em um grande pensamento existencial. Uma das coisas que mais gosto na autora é o sentimento de vida-comum que permeia todo seu esquema narrativo. Trazer a vida corriqueira para dentro de uma obra parece ser uma tarefa fácil pois são situações e conflitos que todos vivemos cotidianamente, logo não há muito que inventar. Mas a verdade é que muitos autores não conseguem fazer isso por permanecerem em um hiatus narrativo que ou vai de encontro ao exagero ou se reserva a mesmice. O mesmo não acontece com a escrita de Liane que consegue manter um fluxo continuo de situações comuns mas com um toque dinâmico fundamental para preservar o interesse do leitor no livro.

“Era interessante como fúria e medo podiam ser tão parecidos.”

Como em todos os outros livros de Moriarty, o principal desta obra se faz inesquecível pela presença dos personagens destacados. Até Que A Culpa Nos Separe é narrado em terceira pessoa em sete visões diferentes. O ponto de encontro de suas narrativas é que cada um a sua maneira carrega um sintoma de culpa pelo acontecimento no “Dia do Churrasco“. Erika e Clementine são as protagonistas, mas a inserção dos pensamentos de seus maridos e vizinhos aumenta a perspectiva total das consequências advindas desse dia. Assim Liane consegue denotar coisas pequenas que começam a implodir em algo maior variando de acordo com o narrador do momento. O engraçado é perceber como tudo não passa de picuinhas: sentimentos mesquinhos que revelam a culpa, mas principalmente que faz com que cada uma daquelas pessoas sinta-se responsável pelo fato e por tudo aquilo que jogaram em cima do outro. Pois não basta se culpar, todos sentem necessidade de apontar o dedo. A culpa e o ressentimento se misturam deixando o amargor da verdade subtendida cada vez mais amostra.

“Mas não conseguiam parar. Era como pedir que prendessem a respiração. Só conseguiriam fazer isso durante determinado tempo até serem obrigados a respirar outra vez.”

Além do acontecimento no “Dia do Churrasco”, o tipo de amizade que existe entre Erika e Clementine é um fator dentro da história que aumenta a significância das coisas. Um ponto interessante é perceber que Liane constrói duas mulheres opostas unidas pelo destino, por assim dizer. No começo da obra eu me perguntei porque elas continuavam amigas já que claramente não pareciam gostar uma da outra. Mas com o passar do tempo, comecei a notar o interesse por um pedaço da outra era muito maior que a repulsa que pareciam sentir. Erika que não possui nenhuma outra amiga desenvolve uma relação de dependência cruel com Clementine. Ela precisa daquela amizade para se sentir não solitária, mesmo tendo plena consciência de que sua “amiga” não gosta dela. Mas a necessidade de ter alguém além do marido fala mais forte do que seu amor próprio. Já Clementine, por outro lado e sem saber se essa era realmente a intenção da autora, não conseguir sentir outro sentimento que não fosse ódio. Detestei-a por ser mesquinha, por não gostar de Erika mas usa-la Erika como ponte para se sentir benevolente de ser amiga de uma estranha, para se sentir mais autêntica por ter em constate alguém tão retraída, mais sentimental porque Erika é mais realista, mais desejada por ser mais bonita e mais superior por ser capaz de ser tudo isso e la Erika não ser nada. Clementine mostra uma face vil ao qual não consegui me penalizar pelo seu espírito pequeno, mas apenas consigo me resguardar ao ódio pois acredito que mentira de uma amizade que se diz verdadeira é mais decepcionante que uma traição.

“Seu egoísmo era um segredo sórdido que precisava esconder a todo custo.”

Até Que A Culpa Nos Separe é um livro fantástico que detém um grande poder sobre o leitor. Mesmo possuindo algumas passagens lentas é uma obra que alcança as barreiras da ficção chegando a realidade por nos conduzir de volta às nossas escolhas. Mais uma vez estou encantada pela narrativa de Liane Moriarty e eu indico muito a todas as pessoas que querem sair de sua zona de conforto e ir além de suas convicções já que é exatamente isso que a autora nos propõe a fazer.

“Era interessante o fato de que um casamento se tornava instantaneamente propriedade pública assim que aparentava problemas.”

 

( Anatomia Literária ) Capa e curiosidades sobre a duologia A Fúria e a Aurora de Renée Ahdieh

Oi Corujinhas, sejam muito bem vindas a mais um Anatomia Literária que hoje está voltada a duologia publicada no Brasil pela editora Globo Alt, A Fúria e A Aurora de Reneé Ahdieh. Esse post veio a pedido da Gisele do blog Abdução Literária que tem contribuído bastante para esses posts. No comentário em questão era referência a essa duologia e também aos livros da trilogia A Rebelde do Deserto de Alwyn Hamilton, mas como eu ainda não terminei essa segunda vou focar apenas na primeira deixando a de Hamilton bem mais para frente.

Espero que gostem. Vamos lá?

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As Capas
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A duologia A Fúria e A Aurora reconta a história de Sherazade e o sultão que matava suas esposas na primeira manhã de seu casamento presente no livro As Mil e Uma Noites originalmente escrito por uma legião de narradores anônimos. Renée Ahdieh reescreveu a história tendo como base os países do oriente e o gênero fantasia enrolado no romance. Tratando de temas como assassinato, rebelião e magia, a autora conseguiu conquistar um grande público que se apaixonou por seu casal de protagonistas.

A Fúria e a auroraA Fúria e a Aurora tem uma capa em tons de azul que representam a frieza do rei, a monotonia da cidade que está a mercê dos seus caprichos e a depressão do seu povo que chora pelas garotas perdidas. Os arabescos acima da capa são representações da cultura árabe que é presente no livro que tem como principal característica a interdependência do sistema. Nesse sentido, seria a afirmação do país que está quebrado pois, apesar de terem harmonia são divididos em dois lados quebrados pelas escolhas de Khalid. Em significado religioso, tais arabescos são resultado da negação de quaisquer tentativas de representação das qualidades divinas em estruturas religiosas ou imagens. No livro, que é retratado sobre os pilares da fantasia, tal significado é relativo aos deuses representados dentro de sua nova cultura que na história são os mais variados e de impossíveis de serem representados tendo seu formato apenas simbolicamente representados em harmonia na capa.

Na parte inferior do livro temos a imagem sombreada de torres e domas de frente a uma série de pessoas montadas em camelos sob um terreno irregular. O terreno representa do deserto, as torres e os domas representam a cidade e o palácio do sultão e os camelos e as pessoas o levante que existe contra o reinado de Khalid. Por fim, mas não menos importante, dos dois lados da capa temos pingentes: do lado esquerdo, um coração que precisa de uma chave podendo tanto ser o coração sombrio de Khalid quanto o de Sherazade fechado para seu esposo; e do lado direito uma lua e uma estrela onde Khalid é a lua nova tendo Sherazade como estrela para lhe guiar para fora da escuridão ao qual o sultão se encontra.

a rosa e a adagaEm A Rosa e a Adaga, a capa é concebida em tons variados de rosa que entre outras características representa a suavidade do novo amor que surgiu entre o casal de protagonistas, a pureza da verdade sobre o que estava realmente acontecendo e a fragilidade que o reino se encontra pela guerra que foi formada para derrubar o sultão. Os arabescos dessa vez estão distantes da arquitetura sendo voltados para o simbolismo da natureza pois nesse livro Sherazade não esta perto do marido (lembrando que ela casa com ele logo nas primeiras páginas de A Fúria e A Aurora). Tal representação é fundamentada ainda mais pela silhueta de Sherazade que aparece nas areias do deserto, olhando saudosamente (será?) para a cidade onde seu amado está. Apesar de ter menos elementos que a primeira, essa capa é minha favorita pois eu vejo ela com uma harmonia maior entre os elementos presentes.

Os dois próximos paragráfo podem conter spoiler.

Os títulos da duologia são um tanto clássicos sendo colocados sobre duas oposições. A Fúria e a Aurora em termos linguísticos é o ápice da raiva onde se manifesta no momento em que Sherazade deseja  entrar no castelo para se vingar de Khalid. Antes de ler o livro eu imaginava ser uma interpretação do sultão, mas depois da leitura percebo que é sim sobre Sherazade. O mesmo ocorreu com a palavra Aurora que acreditava eu se tratar das manhãs que a protagonista sobreviva, mas que na verdade se trata muito mais dos novas verdades que o sultão traz a sua sultina.

O titulo A Rosa e a Adaga, quem já leu deve acreditar que se refere a um capitulo da trama bem triste (rum, rum). Mas como eu sou uma pessoa do contra, e vale lembrar que as interpretações que eu faço da capa dos livros são de quesito pessoal, eu diria que mais uma vez o titulo vai além do obvio, pois de cara parece que estamos falando que a rosa seria Sherazade e a adaga Khalid. Mas Corujinhas, vamos combinar que a Sherazade é muito mais girl power que o Khalid. Dessa forma, eu acreito que a rosa seja o amor do sultão pela esposa e a adaga a luta de Sherazade para salvar Khalid da guerra sangrenta que está por vir.

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Curiosidades
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1| A série original As Mil e Uma Noites é uma coletânea feita por diversos autores de histórias interligadas.
2| Na história original o sultão Xeriar surpreendeu sua esposa conversando com outro homem e mandou degolá-la. A partir daí, resolveu se casar todos os dias com uma nova mulher, que seria degolada no dia seguinte à noite de núpcias.
3| O livro spin off  Contos de A Fúria e a Aurora, Reneé Ahdieh traz pequenos contos (dã!) sobre os personagens e o que se passou pela cabeça deles nos momentos mais importantes dos livros.
4| O marido de Reneé Ahdieh é persa o que ajudou a autora a formular boa parte da mitologia presente em sua obra.


 

Então é isso amores, espero que tenham gostado. Sei que foram poucas as curiosidades mas eu não achei nenhuma entrevista com a autora para poder tentar pescar mais delas para vocês. Caso tenham alguma sugestão de quais obras poderiam fazer parte do nosso Anatomia Literária, deixem nos comentários. Gih. obrigado pela dica e mais a frente vamos ter outra sua com os livros da gloriosa Júlia Quinn.

Beijos.

( Resenha ) Cilada Para Um Marquês – Sarah MacLean – Escândalos e Canalhas – Livro Um.

Minhas caras Corujinhas, somos todos feitos de opções e escolhas. A cada ato somos levados à outro, e se tratando dos livros de Sarah MacLean a consequência é sempre o amor.

transferir.jpgTítulo: Cilada Para Um Marquês
Título Original: The Rogue Not Taken
Série: Escândalos e Canalhas – Livro 01
Autora: Sarah MacLean
Editora: Gutemberg
Páginas: 320
Ano: 2016
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: SkoobSaraiva | Amazon

Sinopse: Sophie Talbot é conhecida pela Sociedade como uma das Irmãs Perigosas – mulheres Talbot que fazem de tudo para se arranjar com algum aristocrata. O apelido chega a ser engraçado, pois se existe algo que Sophie abomina é a aristocracia. Mas parece que mesmo não sendo uma irmã tão perigosa assim, o perigo a persegue por todos os lugares. Quando a mais “desinteressante” das irmãs Talbot se torna o centro de um escândalo, ela decide que chegou a hora de partir de Londres e voltar para o interior, onde vivia antes de seu pai conquistar um título. Em Mossband, ela pretende abrir sua própria livraria e encontrar Robbie, um jovem que não vê há mais de uma década, mas que jura estar esperando por ela. No entanto, ao fugir de Londres, seu destino cruza com o de Rei, o Marquês de Eversley e futuro Duque de Lyne, um homem com a fama de dissolver noivados e arruinar as damas da Sociedade. Rei está a caminho de Cumbria para visitar o odioso pai à beira da morte e tomar posse de seu ducado. Tudo o que ele menos precisava era de uma Irmã Perigosa em seu encalço. O Marquês de Eversley está convicto de que Lady Sophie Talbot invadiu sua carruagem para forçá-lo a se casar com ela e conquistar um título de futura duquesa. Já Sophie tenta provar que não se casaria com ele nem que fosse o último homem da cristandade. Mas e quando o perigo tem olhos verdes, cabelos claros e a língua afiada? Essa viagem será mais longa do que eles imaginam…

“Não existe, afinal, encarada mais óbvia do que a que evita seu objeto. Isso é verdade comprovada, em especial, quando os objetos em questão são tão difíceis de ignorar.”

Sarah MacLean é minha queridinha nos Romances de Época. Quem me acompanha aqui no blog sabe o quanto tenho lido obras da autora (das quais ainda não enjoei, para registro) e como tenho gostado do desenvolvimento de suas histórias. Desde os personagens peculiares até a narrativa fluída, cada livro à sua maneira me encanta e me faz desejar ler ainda mais dessa brilhante escritora. Apesar de não poder dizer que Cilada Para Um Marquês não é meu favorito da escritora, também não posso dizer que foi de total decepção pois se trata de uma perspectiva praticamente única para o contexto.

A narrativa de Sarah MacLean dispensa apresentações. Com uma escrita leve, irreverente e cheia de toques emocionais, a autora desenvolve livros exaltando a força. Não que isso seja incomum, afinal de contas de mocinhas fortes os romances de épocas estão cheios, mas a maneira de MacLean fazer é impressionante. Não há exageros nem irrealidades, a apenas o desejo de ser bem mais do que a sociedade espera. É certo dizer que quase todos romances de época costumam seguir um prospecto parecido. Mocinhas fora do padrão, homens que sofreram no passado e não desejam o amor, uma família amorosa e escândalos envolvendo ambas as partes. Tudo isso, é encontrado nesta obra mas que se desenvolve para além do cliché.

Nossa mocinha não é fora do padrão porque simplesmente não é bela ou tem um comportamento excessivamente impróprio, mas sim porque ela rechaça qualquer ligação com uma sociedade que está disposta a usar qualquer artíficio para esnobar sua família. Sophie tem como aspecto principal a sua necessidade encontrar um caminho próprio que não tem a ver com privilégios de uma sociedade que vive de aparências, e sim com a simplicidade de apenas ser feliz. Por ser de família simples que ascendeu a sociedade quando seus pais decidiram comprar um título de nobreza, Sophie sabe o verdadeiro significado de felicidade e tudo que deseja é tomá-la para si.

“Sophie, contudo, não adorava nada daquilo. Na verdade, ela amarrotou o jornal com fervor e refletiu sobre as opções de que dispunha. Opções, não. Opção. No singular. Porque a verdade era que as mulheres, na Inglaterra de 1833, não tinham opções. Elas tinham um caminho que deveriam trilhar. Que eram obrigadas a trilhar. E que deveriam se sentir gratas por serem obrigadas a trilhar esse caminho.”

Por criar uma família que não pertence aos padrões, MacLean desenvolve um cenário ao mesmo tempo divertido e critico onde demonstra as injustiças e as regras ridículas da sociedade preconceituosa que era (e ainda é) estabelecida no período em que o livro se passa. Um dos pontos principais dos livros de Sarah como um todo é justamente a critica que ela faz aos padrões de modo atual sobre como nós, mulheres, somos determinadas a seguir algo porque a sociedade é machista de mais para acreditar que podemos ser muito mais que flores frágeis e necessitadas. Tal critica é desenvolvida abertamente, tanto em favor da personalidade de Sophie quanto do romance que ela tem com Rei.

Falando em romance, eu achei fantástico que a maior parte dele tenha sido dada em uma viagem que foi bem divertida onde os persionagens se “conheceram”, já que ali eles tomaram tempo para entender os medos e os desejos um do outro. Rei é um personagem que não me agradou como um todo, mas não posso negar que seu ar mau humorado que reclama, reclama mas que é incapaz de não embarcar nas loucuras proporcionadas pela perigosíssima Sophie.

Meu único problema com a obra foi o final que achei um tanto dramático de mais, ao mesmo tempo que foi resolvido fácil de mais. Não que tenha sido ruim, apenas foi comum ao ponto que eu esperava algo mais bem elaborado. Mesmo assim, para você que ainda não leu Sarah MacLean mas que deseja começar, essa obra é perfeita por ser a menos sensual e aquela que contém muito da força feminina que tanto amamos na autora. E para quem já leu e quer mais de Sarah MacLean é um livro que vai te deixar ainda mais apaixonado(a) por essa escritora magnifica.

“Ela não ligava se ele a aprovava ou não. Nem ligava para o que ele pensava dela. Ou o que o resto do mundo tolo, horrível e insípido em que ele vivia pensava dela. Na verdade, se toda a Sociedade a considerava desdivertida, por que ela deveria se importar?”

 

( Livrosofia ) Os Gêneros Através da História

Olá Corujinhas. Eu tenho falado bastante sobre os gêneros e como eles se configuram na perspectiva maior do Romance, mas até agora foram todas de modo bem pessoal. Por isso no post de hoje irei falar dos gêneros literários de uma perspectiva histórica e como as classificações evoluíram através dos séculos. Espero que gostem.

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A literatura é uma manifestação artística que nasce da mente dos autores e se modifica pela interpretação dos leitores tornando-se impossível conceituá-la como um todo. Por esse motivo, é importante ressaltar que mesmo que essas classificações históricas tenham caráter de maior importância, não podemos colocá-las como fonte principal de estudos ou mesmo classificações. Gêneros são apenas guias para uma melhor direção do que estás a se procurar.

É importante, antes de tudo, ressaltar que na literatura, as uma denotações acerca dos gêneros não  ultrapassam as noções de espécies sendo exclusivas do agrupamento de caracteristicas em uma obra artística. No caminho para conceituar os gêneros, Platão postula no Livro III de A República que a obra literária era parte da cateogoria mimética imitando a realidade diferenciando os gêneros a trágedia, a comédia e o épico. Há também uma tentativa de sistematização das “formas” literárias, mas sua Poética ficou incompleta. Desse modo, temos uma ideia aproximada do que seriam os gêneros. Apenas mais a frente com Aristóteles, existe a primeira tentativa de uma sistematização das formas literárias que adiquiram a classicação tripartida: dramático (onde se estabelece a comédia e tragédia), épico e lirico. Isso, porque para Aristóteles, os gêneros estavam de acordo os meios, os objetos e os modos miméticos sendo sua divisão apresentada ora por elementos relativos ao conteúdo, ora em elementos referentes à forma.

Foi apenas na Idade Média divisão dos gêneros foi difundiu-se ao mundo muito embora apresentassem as mesmas ideias básicas da fala de Platão. Como todos sempre se fundamentavam na ideia de que a mímese era o ponto fundamental de toda obra, os gêneros eram vistos como ideias fixas que deveriam ter sempre as mesmas características. Por esse motivo, do Renascimento até o Barroco, essa classificação tripartida dos gêneros foi considerada uma verdade inquestionavél. Nessa época, entendiam-se os gêneros como formas fixas, mantidas por regras inflexíveis às quais os escritores deveriam obedecer. Assim, cada gênero (dramático, épico e lírico) se subdividia em gêneros menores, mas que se distinguiam uns dos outros pelo rigor de regras que incidiam nos aspectos formais, estilísticos e temáticos.  Além dessa classificação de gêneros, também tinha-se a variação de importância e hierarquização que definia o um gênero sendo maior ou menor que outro.

Somente no Romantismo e as ideias libertadoras que a classificação dos gêneros sofreu mudanças significativas havendo a condenação daquilo que era chamado a pureza dos gêneros. No século XIX, houve defesas de que os gêneros literários não eram imortalis sendo um organismo vivo possuindo todos os estágios de sua mudança: nascimento, amadurecimento, envelhecimento e morte, isto sendo condicionado ao domínio dos gêneros mais fortes. Tal concepção foi combatida posteriormente por Benedetto Croce que defendia a ideia de que cada obra era única expressando um estado de vida individual.

Mas é certo afirmar que mesmo com todas as discussões de gêneros dos séculos anteriores, o problema continua indefinido pela falta de aceitação do hibridismo dos gêneros. A concepção de gênero é fundamentada na ideia de categoria, ou seja, de pertencimento a ideia de família. O critico, que antes de ser critico é também um homem, sempre esteve acostumado a classificar as coisas e dar nomes a elas como forma de convencimento que assim poderá entender melhor o mundo que o cerca. Cria-se  estruturas repetidas e repetíveis que se perpetuam ao longo dos tempos. Porém, sabemos que o enunciador também pode modificar essas estruturas, pode movimentar-se e construir enunciados, ora estáveis, ora moventes, mutáveis, modificados, híbridos.

Contudo, para a literatura entender tal mutação é uma tarefa difícil pois a tradição ainda é o pano de fundo que enxerga em suas obras. Em ponto de vista pessoal, tal perspectiva se torna infundada pela modificação que as obra literárias sofreram ao longo do tempo principalmente com o nascimento do Romance. Assim, não se deve levar somente em consideração o valor hierárquico do material para a determinação da forma artística, mas também a relação entre autor e o texto, bem como o fato do ouvinte exercer influência sobre os outros dois.

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Como vocês devem notar, a literatura é de certo modo arcaica. Não se deve levar em consideração só gêneros como fundamento especifico de uma obra, pois tudo deverá ser condicionado ao leitor, ao texto e o autor.

 Espero que tenham gostado. Beijos

( Resenha ) As Crônicas Lunares – Marissa Meyer

Oii amores. Essa resenha vai ser um pouco diferente do que normalmente eu faço. Como vocês podem perceber, será relacionada a uma série completa de livros e não referente a cada componente dela. O motivo de estar fazendo desse modo é a percepção que adquiri sobre As Crônicas Lunares que cada livro está intimamente relacionado ao anterior, tanto de um ponto de vista de história quanto de um ponto de vista de personagens. Explicando melhor: o que acontece em Cinder influencia na história de Scarlet que influencia na história de Cress que se finaliza na história de Winter. Desse modo, seria impossivel fazer resenha desses livros sem dar spoiler do anterior. Assim, mesmo sabendo que essa resenha vai ficar um tanto longa, também vai ser spoiler free como bem gostamos.

Titulos: Cinder, Scarlet, Cress e WinterSérie: As Crônicas LunaresAutora: Marissa MeyerEditora: RoccoPáginas: 448, 480, 496 e 688 Anos: 2013, 2014, 2015 e 2016 | Avaliação:  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤

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“Uma garota. Uma máquina. Uma aberração.”
– CINDER –

A  série As Cronicas Lunares é uma releitura dos clássicos contos-de-fadas que todos conhecemos. Acredito que tenha sido uma das poucas séries dentro desse contexto de releitura que realmente tenha usado as histórias originais e não os filmes Disney como base para sua construção. Assim, estamos lidando com novas versões (e põe novas nisso!) de Cinderella, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e Branca de Neve. Um dos pontos mais atrativos desses livros, foi justamente a capacidade da autora de recriar um mundo conhecido em algo completamente novo. De certo modo, eu diria que Marissa se equipara a J. K. Rowling nesse sentido de inovação. Ambas as autoras usam de bases batidas (no caso de Rowling o mundo mágico e Marissa contos-de-fada), mas colocam sob roupagens novas que as deixam inesquecíveis. Por isso, se você pretende ler o livro de Meyer, não fique com medo de encontrar mais do mesmo pois a autora vai te surpreender em diversas raias diferentes.

“Tudo que Cinder sempre quis foi liberdade. Liberdade da madrasta e de suas regras dominadoras. Liberdade de uma vida de trabalho constante sem nenhum reconhecimento. Liberdade dos olhares de desprezo e palavras de ódio de estranhos que não confiavam na garota ciborgue. Agora, conquistara a liberdade, mas não era nem um pouco como tinha imaginado.”
– SCARLET – 

A narrativa não poderia ser mais encantadora e forte. Por estar lidando com um novo universo que praticamente não tem semelhanças com o nosso, a autora equilibra a narrativa entre sentimentos, ações e explicações para manter o nível de mistério sem nunca jogar uma grande quantidade de informações em cima do leitor. Assim os livros ganham bastante fluidez pois concentram-se no que é relevante e não expõe o leitor ao marasmo que normalmente poderíamos encontrar em livros tão grandes. Além disso, a narrativa além de ser flúida, ela também cresce de modo grandativo cheio de conexões de um livro para outro. Basta dizer que os livros ganham massa a medida que novos personagens são inseridos. Não estamos falando sobre personagens inseridos simplesmente para encher tigela, mas sim de personagens relevantes que completam o sentido da história que está sendo contada, sejam eles vilões, sejam eles mocinhos. 

“Cress se sentia um pássaro cujas asas foram cortadas e que foi jogado em uma gaiola, mais uma gaiola, nojenta e podre. Ela viveu em uma gaiola a vida toda. De alguma forma, nunca esperou encontrar uma horrível assim na Terra.”
– CRESS

Em relação aos personagens é possível enxergar nesse livro a quantidade de referencias aos clássicos originais que realmente os insere nessa gama, mas mesmo assim com quantidade significativa de mudança que os torna para além da releitura. Nós temos uma Cinderella que não precisa de fada madrinha para ser corajosa. Uma Chapeuzinho que não é tão facilmente enganada pelo lobo mau. Uma Rapunzel sonhadora presa em um satélite. Uma Branca de Neve negra que é bondosa não porque nasceu assim, mas por ter percebido os horrores que poderia causar se usasse seus dons para o mal. Além disto, desta transgressão de personalidade, a autora enlaça as histórias das protagonistas com coragem para mudar o rumo delas pelas mãos da amizade, muito além do amor. Eu achei fantástico perceber que não estamos lidando com garotas bobinhas, mas sim mulheres fortes que tomaram muitos “socos” da vida para dependerem dos outros. Mesmo Cress que sonha em viver um romance de novela é corajosa quando o momento lhe pede para ser. 

“Ela teve esperança de que o incidente fosse passar despercebido. Mas devia ter sabido. A esperança era a ferramenta do tolo.”
– WINTER –

Cinder
Capa vietnamita.

Cinder foi um começo excepcional para uma série maravilhosa. O livro em si tem menos história e menos surpresa que os outros, mas por ser introdutório da história da “personagem principal” eu diria que foi um choque perceber o quão além a autora poderia ir. A personagem que dá nome ao enredo foi minha segunda favorita. Forte e determinada, Cinder representa a garota que não se entrega as ilusões da vida. Ela não fica refém de uma determinada situação, mas se torna alguém que busca a melhor maneira de contorna-la usando a criatividade e inteligência para sair dela. 

Scarlet
Capa vietnamita.

Scarlet em termos de obra foi uma ótima continuação que teve plots twists na medida certa mantendo alinhado tanto ao novo enfoque do enredo como ao que se deu do livro passado. Apesar disso, Scarlet não foi um de meus livros favoritos muito devido a personagem que dá nome a obra. A protagonista Scarlet para mim foi intragável. Dona de uma personalidade que acredito que a autora desejava que fosse forte, tive um encontro com Scarlet que mais me deixou com raiva do que impressionada. Diferente de Cinder, Scarlet é bastante presunçosa e me lembra bastante as mocinhas dos YA que normalmente tem um nariz empinado e que sempre me remetem a infantilidade. Isso que me fez pegar ranço da protagonista, logo eu torci o nariz toda vez que ela entrava em jogo. 

Cress
Capa vietnamita.

Cress tanto como livro como personagem foram meus favoritos. O livro em si foi de constantes reviravoltas além de possuir aquela que acredito ser a história melhor trabalhada. Com novos segredos e enfim caminhando para algo maior que todas as protagonista juntas. essa obra culminou em uma profusão de sentimentos que me prenderam durante um dia inteiro. Como personagem, Cress simplesmente ganhou meu coração. Sendo a mais ingênua e sonhadora, a loira tinha tudo para ser uma das personagens mais chatas. Mas Cress mostra que timidez não é um fator que coíbe a coragem, mas sim que a propulsiona para lutar por aquilo que acredita. Além de ter sido minha personagem favorita, ela e seu par Thorne foram meus shipps do ano, basicamente. Os dois juntos foram uma explosão de sentimentos. 

Winter
Capa vietnamita

Winter finalizou a série de modo digno. Eu acredito que Meyer não poderia ter feito de uma maneira melhor cheia de surpresas e com muitas reviravoltas. Foi meu segundo favorito da série pela rapidez dos acontecimentos, mas principalmente pela maneira com o qual a autora conseguiu entrelaçar as histórias. Winter como personagem não teve muito destaque, acredito que tenha sido a protagonista que menos apareceu. Mas apesar de estar meio apagada, fez aparições fantásticas sendo o ponto de calmaria no livro. Mesmo em sua loucura, ela representou o equilíbrio para a história. 

“Todos os peões dela se encontravam em posição, e o ataque final estava prestes a começar.”
– WINTER

Com personagens secundários igualmente bem trabalhados e uma vilã digna de ter o título de Rainha Má, Marrissa Meyer parte de uma releitura para criar uma obra inesquecível. Depois de uma semana inteira com esses personagens maravilhosos, eu com certeza voi sentir muita falta desse universo que me conquistou e já entrou para lista das melhores séries que eu li na vida. Uma obra sem falhas, que vai te mostrar realmente o significado de recriar de uma maneira que você nunca viu antes. 

( Resenha ) O Jardim das Borboletas – Dot Hutchison

Esqueça quem você é e entre no Jardim das Borboletas. Esqueça suas convicções e esteja preparado para choque de um relato sobre a face mais hedionda e psicótica da humanidade.

O Jardim das BorboletasTítulo: O Jardim das Borboletas
Título original: The Butterfly Garden
Série: The Colector #01
Autora: Dot Hutchison
Editora: Planeta
Páginas: 304
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Quando a beleza das borboletas encontra os horrores de uma mente doentia. Um thriller arrebatador, fenômeno no mundo inteiro. Perto de uma mansão isolada, existia um maravilhoso jardim. Nele, cresciam flores exuberantes, árvores frondosas… e uma coleção de preciosas “borboletas”: jovens mulheres, sequestradas e mantidas em cativeiro por um homem brutal e obsessivo, conhecido apenas como Jardineiro. Cada uma delas passa a ser identificada pelo nome de uma espécie de borboleta, tendo, então, a pele marcada com um complexo desenho correspondente. Quando o jardim é finalmente descoberto, uma das sobreviventes é levada às autoridades, a fim de prestar seu depoimento. A tarefa de juntar as peças desse complexo quebra-cabeça cabe aos agentes do FBI Victor Hanoverian e Brandon Eddinson, nesse que se tornará o mais chocante e perturbador caso de suas vidas. Mas Maya, a enigmática garota responsável por contar essa história, não parece disposta a esclarecer todos os sórdidos detalhes de sua experiência. Em meio a velhos ressentimentos, novos traumas e o terrível relato sobre um homem obcecado pela beleza, os agentes ficam com a sensação de que ela esconde algum grande segredo.

Mas, quando eu adormecesse, o pesadelo ainda estaria lá. Quando eu acordasse, o pesadelo ainda estaria lá. Todos os dias, durante três anos e meio, o pesadelo sempre, sempre estaria lá, e não havia conforto para isso. Mas, por algumas horas, eu podia fingir. Eu podia ser a menininha dos fósforos e jogar minhas ilusões contra a parede, perdida no calor até a luz diminuir e me levar de volta ao Jardim.

Uma das vantagens de se começar obras sem saber absolutamente nada sobre elas é a falta de expectativa. Eu já disse várias vezes em outras resenhas como me decepcionei com livros que pareciam ser uma coisa na sinopse e no fim das contas foram outra, não por serem totalmente diferentes, mas por apresentarem divergências sutis que acabam por contribuir para a decepção. Quando comecei O Jardim das Borboletas eu não tinha noção do que poderia esperar. Tudo na capa apresenta certa dualidade que se enquadraria em vários gêneros. Se eu soubesse que se tratava de um suspense teria formulado milhares de suposições. Mas ao em vez disso, fui presenteada com surpresas dadas pela ignorância. E assim o livro de Dot Hutchison me prendeu por sua sagacidade dramática e pela maneira com o qual os personagens foram desenvolvidos de modo a serem implacavelmente doentios e realistas.

Você parece sempre imaginar que fui uma criança perdida, como se tivessem me largado na rua como lixo. Mas as crianças como eu nunca estão perdidas. Talvez sejamos as únicas que nunca se perdem. Sempre sabemos exatamente quem somos e aonde podemos ir. E aonde não podemos ir, é claro.

A história é contada de forma branda não possuindo momentos de tensão caracteristicos de um thriller. Contudo  não considero isso algo ruim porque pela vista geral da obra não era estritamente necessário. O enredo é contado de modo póstumo ao fato fazendo com o que o leitor já entre na leitura sabendo que de modo que as cativeiras sobreviveram. Baseado nisso, posso afirmar que a questão do livro não é a fuga, mas a vida das Borboletas no Jardim. Por isso não espere nada eletrizante por conta de uma tensão factual, mas sim por causa de uma tensão sentimental.

Eu estava lá dentro, sem chance de escapar, sem ter como voltar à vida que conhecia, então por que me apegaria a isso? Por que causar a mim mesma mais dor lembrando-me daquilo que não possuía mais?

A configuração da narrativa é feita por duas pessoas em dois tempos  verbais. No presente, não temos o domínio da emoção nas falas de VictorEddison (os investigadores), pois, apesar dos homens verem reflexos de suas histórias na  da adolescente, ambos se privam de expressar sentimentos pela necessidade da realização de seu um trabalho para descobrir qual segredo a entrevistada esconde. Assim, o relato presente é uma condução mais aberta da narrativa. São passagens rápidas que ajudam o leitor a entender por meio de explicações mais diretas o que estava acontecendo de verdade. Quando a narrativa corta para o passado, Maya conta como era sua vida antes e depois de parar no cativeiro. Neste ponto sim temos o emaranhamento de sentimentos à contagem da história. Maya não se torna apenas a locutora dos fatos, mas também uma janela entre a mente das garotas sequestradas e o homem que havia feito isso. Através desses dois pontos contrários a autora amplia o poder da narrativa. Ao mesmo tempo em que Hutchison te bombardeia com emoções ela também te dá tempo para processar o significado daquilo causando um efeito devastador.

É uma forma de pragmatismo, acho eu. Pessoas carinhosas e amorosas que precisam desesperadamente da aprovação dos outros acabam sendo vítimas da síndrome de Estocolmo, já o resto de nós se rende ao pragmatismo. Por já ter vivenciado as duas possibilidades, sou a favor do pragmatismo.

A originalidade da história concentra-se nos personagens que a autora criou de modo tão crível. Antes de ler O Jardim das Borboletas nunca tinha tido contato com a mente de uma vítima de um psicopata de maneira tão clara e pavorosa em um sentido mais humanistico da coisa. Quando dá vida a protagonista, a autora se preocupa em explorar todos os antes e todos os depois que levaram Maya a se tornar tão introspectiva ao mesmo tempo tão corajosa. De certo modo, Hutchison parece criar duas histórias ao mesmo tempo com a finalidade de fortalecer sua heroína e fazer com que ela passasse pelo cativeiro de modo senil. Qualquer outra garota que não tivesse o passado tão conturbado teria se desesperado, mas a experiência faz com que Maya assuma o controle de sua mente. Assim a narrativa permanece lúdica e plausível e a protoganista torna-se inesquecível.

Algumas pessoas desabam e nunca mais levantam. Outras recolhem os próprios cacos e os colam com as partes afiadas viradas para fora.

Assim  como a principal, os personagens secundários também brilham dentro da narrativa. É interessante perceber como Hutchison não desperdiçou nomes e descrições  se delimitando a criar tipos consistentes que contribuem para a evolução do enredo. As outras Borboletas, por exemplo, são muitas mulheres embora grande parte delas seja apenas um borrão em uma multidão. A autora só deixa em contato com o leitor aquelas que possuem relevância para o enredo. Eu diria que aqui fica um dos pontos mais altos da narrativa pois Hutchison emoldura seu jardim com mulheres que variam suas emoções desde a raiva e o desespero à alegria e submisão. Cada qual lutando da melhor maneira que pode para se sobreviver aos horrores daquele lugar.

A beleza perde o sentido quando nos cerca em grande abundância.

Entre os personagens secundários que mais merecem destaque estão o Jardineiro e seus filhos que apresentaram personalidadades bastante controversas auxiliando o leitor a ter uma visão geral dos tipos existentes de sequestradores. Começando pelo Jardineiro, eu diria que ele é o mais assustador dos três. Isto porque é carinhoso com “suas” Borboletas e parece realmente acreditar que as garotas, quando transformadas  nos espécimes através das tatuagens, passam a ser sua propriedade. Mais que isso, ele acredita que está salvando-as do esquecimento e lhe dando uma vida perfeita. Cuida delas exatamente como quem cuida de animais. Parece gostar de seus espíritos diferentes, percebe a beleza delas, mas nunca as deixa sair do cativeiro. O Jardineiro é um maníaco obsessivo, a representação de um maníaco obsesseivo cheio de sentimentos loucos e doentios.

A covardia pode ser um estado natural nosso, mas ainda assim é uma escolha.

Os filhos do Jardineiro, Avery e Desmond são opostos. Avery é um psicopata verdadeiro não apresentando empatia alguma pelas garotas. Suas ações são feitas para provocar dor porque ele simplesmente gosta disso. Gosta de sentir o medo que emana de seus poros e da submissão que vem com ela. Ja Desmond é apenas um covarde que não consegue ir contra os pais. De certo modo, o rapaz representa uma parcela da sociedade que vê o que está errado mas não tem coragem suficiente para dizer alguma coisa. Desmond foi sem sombras de dúvida o vilão que eu mais odiei pela sua impotência covarde. Da tríade, é o pior porque é o único que apresenta sanidade intacta mas que por conta de seu egoísmo só serve a si mesmo.

Não fazer uma escolha é uma escolha. Neutralidade é um conceito, não um fato. Ninguém vive a vida desse jeito, não realmente.

A única coisa que me incomodou no livro foi a reviravolta final. Não que tenha sido ruim, mas achei um tantinho inverossímel de mais me dando a sensação de estar faltando peças para que o conjunto fizesse sentido. Talvez possa ser explicado por conta da protagonista que tentou esconder o fato durante toda a narrativa. Contudo, mesmo sabendo disso, não consegui entender as motivações de modo que acabei perdendo a sintonia com a obra: o encanto do poderia ser verdade foi arruinado naquele momento.

Não é bem assim. Digamos que eu seja mais uma criança esquecida e negligenciada do que problemática. Sou o ursinho de pelúcia acumulando poeira embaixo da cama, não o soldado de uma perna só.

Contudo, vendo pelo aspecto geral da obra e de tudo que ela me proporcionou, afirmo que O Jardim das Borboletas vai acabar se tornando uma das melhores leituras do ano. Dotado de profundas reflexões e de uma narrativa espetacular, o livro de Dot Hutchison é original e cativante ao seu modo doentio. Ao aproximar-se dessa obra, você verá o horror como nunca viu antes. Se serve de sugestão, esqueça tudo que você já leu, dispa-se de quem é e não vá atrás de explicações simplórias. Apenas observe esse mundo doentio não trazendo para a leitura nada de fora dele.

 

 

( Resenha ) Os 27 Crushes de Molly – Becky Albertalli

Quem nunca se apaixonou e ficou com medo de se declarar que atire a primeira pedra. Em Os 27 Crushes de Molly, Becky Albertalli vai te cativar com a sutileza de uma história sobre amadurecimento, amor e muita representatividade.

os 27 crushes de mollyTítulo: Os 27 Crushes de Molly
Título original: The Upside of Unrequited
Autora: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Páginas:
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Molly já viveu muitas paixões, mas só dentro de sua cabeça. E foi assim que, aos dezessete anos, a menina acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que ela precisa ser mais corajosa, Molly não consegue suportar a possibilidade de levar um fora. Então age com muito cuidado. Como ela diz, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. Tudo muda quando Cassie começa a namorar Mina, e Molly pela primeira vez tem que lidar com uma solidão implacável e sentimentos muito conflitantes. Por sorte, um dos melhores amigos de Mina é um garoto hipster, fofo e lindo, o vigésimo sétimo crush perfeito e talvez até um futuro namorado. Se Molly finalmente se arriscar e se envolver com ele, pode dar seu primeiro beijo e ainda se reaproximar da irmã. Só tem um problema, que atende pelo nome de Reid Wertheim, o garoto com quem Molly trabalha. Ele é meio esquisito. Ele gosta de Tolkien. Ele vai a feiras medievais. Ele usa tênis brancos ridículos. Molly jamais, em hipótese alguma, se apaixonaria por ele. Certo? Em Os 27 Crushes de Molly, a perspicácia, a delicadeza e o senso de humor de Becky Albertalli nos conquistam mais uma vez, em uma história sobre amizade, amadurecimento e, claro, aquele friozinho na barriga que só um crush pode provocar.

É uma coisa bem incrível não se importar de verdade com o que as pessoas pensam de você. Muita gente diz que não se importa. Ou age como se não se importasse. Mas acho que a maioria se importa muito. Eu sei que eu me importo.

Nunca fui o tipo de pessoa que se prende totalmente à representatividade como marco de toda obra. Não me entenda mal, não é que não ache importante, mas apenas creio que não seja o mais importante. Principalmente porque sempre percebo que acabamos por perder o real significado de representar. Explicando melhor: no meu ponto de vista, o simbolismo deve ser colocado de maneira natural, sem estardalhaço. Pois quando ao contrário, torna-se forçado e o contexto parece ser reduzido. Não estamos mais falando de uma história de superação que consequentemente se torna um manifesto de igualdade, mas passamos a ver a obra como uma procuração que tem o sentido apenas de representar. Exemplificando, depois do lançamento do filme Pantera Negra vi muitas pessoas comentando ser o melhor filme da Marvel por conta disto, afinal pela primeira vez tínhamos um herói negro nas telonas. Mais uma vez não é que eu considere inválido o argumento, mas sinceramente, Pantera Negra não devia ser o melhor filme porque apresenta a melhor história?

Nunca contei para ninguém, nem para minhas mães e para Cassie, mas é o que me dá mais medo: não ter importância. Existir em um mundo que não liga para quem eu sou. É um outro nível de solidão.

Partindo desse princípio, quando comecei a ler Os 27 Crushes de Molly, já sabia que se tratava da história de uma mulher acima do peso ideal (isso existe?), por isso havia me preparado para uma revolução em favor da quebra de determinados tabus. Mas para minha grata surpresa, Becky Albertalli chega com uma narrativa cheia de sutilezas. Ela não cria aquele plot twist de início, mas sim situações reais que tem o propósito de nos mostrar que somos todos humanos de carne e osso. Podemos passar pelas mesma situações e ter os mesmos sentimentos. Não será nossa aparência que determina se somos capazes disso ou daquilo, muito menos de orientação sexual. Ao criar um livro cheio de representatividade, Becky Albertalli não impõe nada por conta dela, mas sim expõe a normalidade que todos deveriam saber.

Odeio estar pensando nisso. Odeio odiar meu corpo. Na verdade, nem odeio meu corpo. Só fico com medo de todo mundo odiar. Porque garotas gordinhas não têm namorados e claro que não fazem sexo. Não nos filmes, não de verdade, a não ser que seja piada. E eu não quero ser piada.

Quando Becky começa seu livro, deixa claro que não estamos falando de uma obra surpreendente cheia de drama adolescente, mas sim de uma história dotada de conflitos que todo adolescente sente, principalmente os mais inseguros. Na época que eu fazia ensino médio, apesar de não ser gorda, nunca me considerei exatamente bonita: era magrela de mais, buchuda de mais (sim as duas coisas existem juntas!), cabelo alto de mais. No entanto nada disso me impediu de ter meus crushes, que apesar de não serem 27, foram paixonites importantes, mas eu também nunca tive coragem de falar com nenhum deles. Dessa forma, ao conhecer Molly me identifiquei facilmente com ela por conta da Jessica do passado. Nós duas achávamos que nunca nos apaixonaríamos e, apesar de sermos felizes assim, queríamos saber qual era a sensação. Não é questão de ser dependente de romance, mas sim de querer ter um tipo de sentimento que parece que todo mundo a sua volta tem menos você.

Passo muito tempo pensando em amor e beijos e namorados e todas as outras coisas para as quais as feministas não tinham que dar muita bola. E eu sou feminista. Mas não sei. Tenho dezessete anos e só quero saber como é beijar alguém.

Pelo fato de ter me visto na protagonista (de uma forma que poucas vezes, ou mesmo nunca, havia acontecido) me conectei a obra ao fundo. Tanto pelo fator inicial de insegurança quanto pela trajetória da personagem para ganhar auto-confiança. Mais uma vez, Becky é sútil ao evoluir sua personagem sem nunca mudá-la. Para tanto, Molly  vai aos poucos percebendo as qualidades que possui entendendo que de modo que o amor não virá apesar de ser gorda, mas sim ciente e acima disto aceitando-a. Afinal de contas, o corpo é só uma casca e muitas outras coisas a definem não existindo motivo para Molly ser rejeitada, ainda mais por padrões de sociedade que nem sequer deveriam existir.

Tem alguma coisa em momentos assim, quando esse fiozinho tênue me liga a um total estranho. É o tipo de coisa que faz o universo parecer menor. Adoro isso.

Outro ponto que me fez amar o livro foram os personagens secundários que realmente fizeram a diferença no enredo. Realmente detesto livros em que os secundários vêm apenas para encher linguiça. Quando li Simon Vs A Agenda do Homosapiens  meu incômodo com foi a criação de tantos personagens que acabaram não tendo relevância no contexto principal. Como que para corrigir seu erro, Becky não perde ninguém e demonstra como a amizade e a família são importantes para a aceitação de si mesmo. Nadine e Patty (mães de Molly e Cassie geradas por meio da proveta) são lésbicas (obviamente né, Jéssica?) evidenciam o primeiro passo: se aceitar e ser feliz sozinhos. Reid (crushe 27) revela o segundo: somente aquele que nos aceita merece estar em nosso amor. E Cassie, Mina, OliviaAbby (lembra dela em Simon?) apresentam o  último sobre amizade e o modo com o qual elas nos mantém de pé.

A amizade é assim: nem sempre é determinada pelo que as pessoas têm em comum.

De todas as maneiras que consigo pensar, Os 27 Crushes de Molly foi um livro espetacular, diria que é um dos melhores livros no gênero e da vida. Becky Albertalli não se prende ao esteriótipo e nem sequer trata seus personagens como absolutamente especiais por apenas serem diferente. Somos naturalmente divergentes um dos outros devemos entender e respeitar isso, mas sobretudo nos aceitar e sermos felizes pela abundância de vida refletida em nós.