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| RESENHA | O Ódio Que Você Semeia – Angie Thomas.

Ler um livro que fala sobre preconceito no mundo intolerante de hoje é assustadoramente real. Tenho feito um punhado de leituras com esse tema durante os últimos meses e todos os livros me impactaram de alguma forma. O Ódio Que Você Semeia não foi diferente colocando-se entre os melhores. A história é um perfeito manifesto em virtude de todas pessoas que necessitam saber que suas vozes devem ser ouvidas.

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Título: O Ódio Que Você Semeia
Título Original: The Hate U Give
Autora: Angie Thomas
Editora: Galera Record
Ano: 2017
Avaliação: 👑 👑 👑 👑 👑
Encontre: Skoob || Saraiva || Submarino || Amazon

Thug Life era sigla de The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody, “o ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo”

Sinopse: Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos. Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos – no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

A verdade gera uma sombra na cozinha; pessoas como nós em situações assim viram hashtags, mas raramente conseguem ter justiça. Mas acho que todos esperamos que essa vez chegue; a vez em que tudo vai acabar da forma certa.

O Ódio Que Você Semeia está entre as melhores leituras que realizei esse ano. Pensar em racismo, remete a pensar em que tipo de sociedade iremos deixar para nossos filhos visto quão perigoso o mundo está hoje e quem apoiamos para ocupar os cargos de poder. Pensar em racismo é ligar a TV e ver as notícias de atentados em todos os lugares do mundo ou crianças sendo ensinadas a odiar aqueles que lhe são diferentes. Ler um livro como de Angie Thomas é ver que tipo de legado estamos dispostos a deixar para trás.

— Todo mundo está com raiva porque Um-Quinze não foi acusado — explico —, mas também porque ele não é o primeiro a fazer uma coisa assim e se safar. Sempre acontece, e as pessoas vão continuar se rebelando até mudar. Então, o sistema ainda está semeando ódio, e todo mundo ainda está se fodendo?
Papai ri e me dá um soco na mão.
— Minha menina. Olha a boca suja, mas, é, é isso. E a gente nunca vai parar de se foder enquanto isso não mudar. Essa é a chave. Tem que mudar.

O Ódio Que Você Semeia foi um livro diferente do que eu esperava para ele. Quando leio livros que abordam temas mais pesados sempre penso que eles vão vir recheados de carga dramática sem alívios cômicos. Mas o livro de Thomas fugiu a regra ao se mostrar tenso nas horas certas e dramático nas horas certas, mas também fazer uso de uma linguagem fácil repleta de humor. Thomas conseguiu mostrar com perfeição que não é preciso ser pesado para falar sobre assuntos polêmicos, pois estes estão inseridos em todos os lugares de nossas vidas idependente de qualquer situação. Mais do que isso, Thomas cria um mundo adolescente real onde desenvolve uma narrativa que mistura a vida e a tecnologia. O mundo geek, o mundo nerd, o mundo que vivemos está representado dentro deste livro. Nunca antes eu tinha lido uma obra com tantas interações da internet ou citações atuais dentro de uma obra. É como se a autora colocasse para todos verem que o racismo pode estar em todas plataformas. Não nego que às vezes de forma um tanto forçada, sim, mas que definitivamente fazem sentido dentro do contexto do livro.

Papai alega que as casas de Hogwarts são gangues, na verdade. Têm suas próprias cores, seus esconderijos e estão sempre brigando umas com as outras, como gangues. Harry, Rony e Hermione nunca deduram um ao outro, assim como integrantes de gangues. Os Comensais da Morte têm tatuagens iguais. E veja Voldemort. Eles têm medo de dizer o nome dele. Falando sério,o papo de “Aquele Que Não Pode Ser Nomeado” é a mesma coisa quedar um nome de rua para ele. É coisa de gangue mesmo.

Os personagens são diferentes um dos outros de modo que não dá para confundi-los. Por uns, criei certa antipatia enquanto por outros sinto como se fosse amiga de infância. Tal dualidade me proporcionou maior proximidade com a história. Consigo enxergar ali as pessoas ao meu redor: a garota que tem medo, o homem que percebeu os erros do seu passado, a menina que por estar tão acostumada aquilo que não percebe suas atitudes racistas, a mãe… um irmão… um amigo… Tantos personagens com medos, aflições e alegrias diferentes que produziram efeitos variados de amor e ódio durante a leitura.

Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.

Starr é uma personagem extremamente cativante. A garota é uma adolescente comum com à qualquer menina de sua idade. Mas com uma pitada que não existe à outras adolescentes fora do mundo “negro: Todas as garotas têm medo de apresentar o namorado ao pai, mas Starr tem que apresentar um namorado que acima tudo é branco; Todas as garotas sofrem com crise de autoconhecimento, mas Starr tem que aprender a ser uma pessoa diferente para não ser taxada como do gueto. Dessa forma, a medida que vamos nos afundando na vida de Starr e a conhecendo melhor, é possível entender o seu medo e o porquê de estar tão presa aos estigmas da sociedade. Não é fraqueza que a menina colocou em si mesma e sim uma barreira gigantesca que o mundo atira em suas costar. Starr poderia ser normal, se as pessoas não lhe olhassem diferente.

Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?

Os personagens secundários são igualmente cativantes. Começando pela família de Starr consigo perceber neles duas coisas: a primeira é a imagem inicial de que eles juntos são felizes e fortes como em um comercial de margarina. Sorriem e se apoiam sempre querendo o melhor e dando força um para o outro. Mas eu também percebo que esses personagens possuem uma carga dramática imensa para compor esse misto de felicidade exarcebaba e preocupações: O pai de Starr, Maverick foi preso e perdeu os primeiros anos do nascimento de sua filha além de ter tido um filho fora do casamento. Assim sua família teve que lidar com sua ausência em anos difíceis tendo o amparo de um tio para seguir em frente; Seven, meio irmão de Starr, tem que lidar com o fato de sua mãe namorar o chefe da gangue do bairro e ver elas e suas irmãs à mercê dessa situação. Dessa forma, ao mesmo tempo que Angie mostra situações difíceis, também ressalta como eles são uma família como qualquer outra. Como ser negros não significa que eles tem que ser uma família miserável, destruída e sem destino certo. Porque esse é apenas mais um estereótipo que a sociedade os envolveria.

Logo cedo, eu aprendi que as pessoas cometem erros, e você tem que decidir se os erros são maiores do que seu amor por elas.

Vale ressaltar também a evolução que Starr consegue ter no livro. Ela começa como uma personagem amedrontada para então se tornar uma personagem corajosa. Starr aprende como usar sua voz e os motivos pelos quais ela merece ser ouvida. Ela deixa para trás a dupla identidade para então se encontrar e ser à si mesma em seus dois mundos.

— Ter coragem não quer dizer que você não esteja com medo, Starr — diz ela. — Quer dizer que você segue em frente apesar de estar com medo. E você está fazendo isso.

Esse livro de Angie Thomas foi tudo que eu não esperava e mais um pouco. É sim uma das leituras mais gratificantes do ano. É um apelo para que todos nós percebamos por quais caminhos estamos percorrendo e demonstrando às nossas crianças. Um manifesto pela igualdade que nos deixa com raiva, emocionados e felizes. Mas principalmente que nos motiva a lembrar de Gandhi e sermos as mudanças que queremos e podemos ser no mundo.

Às vezes, as coisas dão errado mas o importante é continuar fazendo o certo.