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( Resenha ) Identidade Roubada — Chevy Stevens

Livros de suspense estão entre meus favoritos. Na verdade, meu consumo literário (apesar da vivacidade do blog) normalmente é voltado para as questões mais sombrias localizadas entre o suspense e o terror. Por esse motivo, muitas vezes sou capaz de pegar livros de suspense sem nem mesmo ler a sinopse. Baseada na capa e no comentário que normalmente acompanham os livros, decido se a obra vale meu tempo. Foi exatamente isto que aconteceu quando decidi ler Identidade Roubada de Chevy Stevens. E apesar de não poder dizer que foi um dos meus favoritos, ainda sim foi uma leitura que valeu a pena pelas interrogativas colocadas pelo autor.

Titulo: Identidade Roubada Título Original: Still Missing Autor: Chevy Stevens Editora: Arqueiro Ano: Paginas: Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ Encontre:| Amazon | Skoob

Identidade-Roubada-203x300Sinopse: Era para ser um dia como outro qualquer na vida de Annie O’Sullivan. A corretora de imóveis levanta da cama com três objetivos: vender uma casa, fazer as pazes com a mãe e não se atrasar para o jantar com o namorado. Naquele domingo, aparecem poucas pessoas interessadas em visitar o imóvel. Quando Annie está prestes a ir embora, uma van estaciona diante da casa e um homem sorridente vem em sua direção. A corretora tem certeza de que será seu dia de sorte. Mas o inferno está apenas começando. Sequestrada por um psicopata, Annie fica presa durante um ano inteiro em um chalé nas montanhas, onde vive um pesadelo que deixará marcas profundas.

Narrado em passado e presente por primeira pessoa nas duas situações, Identidade Roubada tem prerrogativas bem interessantes que precisam ser discutidas nos dias de hoje. Cada vez mais, somos surpreendidos por crimes violentos contra as mulheres. Contra homens também, mas a expressividade entre crimes de sequestro é expressiva enquanto tratada sob o hall do feminino. Muito embora o livro de Stevens não seja exatamente uma luta do feminismo, também não podemos desconsiderar essa possibilidade pela invocação do sentimento de revolta que nos rodeia quando entramos no seu universo.

Eu nunca havia lido nada da autora. Conheci sua obra através do canal da Pam Gonçalves em um vídeo de book-shell-of-tour. De primeira a capa e o título me chamaram bastante atenção, pois gosto bastante gênero e a criatividade do título despertaram em mim o sintoma de necessidade. Mas só realizei leitura muitos anos depois, quando, passeando entre os livros revi seu título e pensei: porque não? E posso dizer que apesar de não ter me surpreendido com a obra, a história que Chevy tem a oferecer é fantástica.

Narrado em primeira pessoa por Annie, a história se desenvolve bem pela escrita suave de Stevens. A autora não peca em dar mais detalhes do que o necessário, e sim construir ambientações e sentimentalismos que criam todo o aspecto inovador do livro. Afinal de contas, tal narração é feita através das cessões de Annie com um terapeuta. E muito embora isso deixe de lado uma parte do suspense da obra, ajuda a entender melhor como a personagem lidou com o sequestro-cativeiro e agora tenta retornar à sua vida normal.

Um dos pontos mais favoráveis ao livro, é com certeza Annie. A protagonista é carismática, um tanto cínica e incrivelmente humana. Poucas vezes me apeguei tanto a uma personagem na literatura. Isso se deve não somente ao grau de proximidade com a realidade trazida por Stevens. Exagerada e um pouco egocêntrica, Annie tem defeitos que muitas vezes julgamos, mas que fazem parte da vida de quem passou por abusos. É doloroso acompanhar cada um dos seus choros se tornando impossível não sentir empatia pela personagem.

O único defeito do livro foi o final. Mesmo que haja um bom plot-twist este não é bem desenvolvido dando a impressão que fora largado ao meio do caminho. As questões tão bem levantadas pela autora perdem espaço para uma válvula de escape simples e contraditória. Os motivos do livro deveriam ter sido melhor trabalhados para fechar tudo com chave de outro.

Identidade Roubada é uma leitura de altos e baixos que vale a pena pela realidade imposta pela autora. Um livro real sobre a hedionidade humana e suas implicações no contexto total da sociedade.

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( Resenha ) A Menina Que Roubava Livros – Markus Zusak

Semana passada, eu estava relendo alguns pontos dos meus livros favoritos. Em uma dessas pequenas releituras, voltei a encher-me de penas com a leveza da morte em A Menina Que Roubava Livros. Um bom ponto da literatura, é o fato que nunca temos uma mesma percepção de um mesmo livro. Você rele e gosta ainda mais, ou você relê e odeia. Claro que para mim aconteceu a primeira frase, mas o que eu não esperava era entender ainda mais a metáfora através das palavras de Markus Zusak.

Título: A Menina Que Roubava Livros | Título original: The Books Thief | Autor: Markus Zusak | Editora:  Intrínseca| Páginas: 480 | Ano: 2011| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤| Encontre: Skoob – Saraiva – Amazon

a menina que roubava livrosSinopse: Ao perceber que a pequena Liesel Meminger, uma ladra de livros, lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. A mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. Assombrada, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade. A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra-Mundial.

“Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.”

A Menina Que Roubava Livros foi o primeiro romance histórico que tive a oportunidade de ler em meados de 2013 logo após assistir o filme de mesmo nome. Certamente eu não tinha tanta maturidade e muito do que li se perdeu pela falta de perspectivas. Me lembro de achar a leitura lenta sem entender verdadeiramente o significado das palavras e das situações levantadas por Markus Zusak. Hoje, cinco anos depois com muito mais leituras na cabeça e uma bagagem literária que busca cada vez mais reflexões, ao reler A Menina Que Roubava Livros tive um vislumbre de uma literatura clássica-contemporânea que deveria ser obrigatória.

“UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO – Não ir embora: ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças”

A narrativa-onisciente traz uma perspectiva única para a história. A Morte se faz presente em primeira pessoa e em terceira, dando considerações sobre a história sem se deixar levar pelas emoções. Como a própria confirma, está cansada, e quer contar de forma leve, breve e muito corriqueira. Ela conhece tudo sobre em seu íntimo e seus pensamentos. Revela sua voz interior, o fluxo de sua consciência, fazendo com que o enredo seja plenamente conhecido em suas entrelinhas, seus pressupostos, seu futuro e suas consequências.

É interessante notar como Zusak faz da Morte uma personagem que não possuí nada para além do comum, aludindo ao que acontece todos os dias de morte pura e simplesmente. Sendo uma personagem não caricata, a Morte transforma-se em uma narradora experiente que tem o peso do mundo em seus ombros. A Morte é uma vilã e uma mocinha ao mesmo tempo, trabalhando para os vilões para salvar as almas do sofrimento.

“Por favor, acredite quando lhe digo que, naquele dia, peguei cada alma como se fosse um recém-nascido. Cheguei até a beijar alguns rostos exaustos, envenenados. Ouvi seus últimos gritos entrecortados. Suas palavras evanescentes. Observei suas visões de amor e os libertei de seu medo.”

Dessa maneira, quando a narração muda para a vida de Liesel, a Morte perde um pouco de sua considerações e se volta a aludir aos fatos, muito embora nos marque com uma frase de efeito. Mas ao dar foco a Liesel, a Morte se estende para revelar a personalidade dessa menina que lhe parece tão próxima. Liesel, assim como a morte é comum e não caricata. É forte como uma criança deve ser aprendendo todos os dias em como ser uma pessoa melhor e a entender as injustiças da vida não se abalando por elas. Liesel não é um rosto adicionado à massa, mas uma garota inteligente que usa das armas que possui para proteger aqueles que ama.

Assim, de um maneira única, Zusak cria uma porção de personagens que se tornam pessoas a medida que parecem avançar saltar as páginas e encher os olhos. Entre texto sobre a vida e Liesel e considerações sobre o momento, o autor nos dá esperanca que supera o medo que existe no coração das pessoas que rodeiam o mundo cheio de beleza e brutalidade.

“Os seres humanos, me assombram.”

A Menina Que Roubava Livros vai ser sempre um dos livros favoritos de toda minha vida. Pretendo realizar outras leituras desse livro e absorver cada vez mais da história de Markus Zusak cuja tenho a certeza que me oferecerá ainda mais. Se posso fazer das palavras da Morte as minhas, espero entender por essas páginas a verdade sobre os medos e anseios da humanidade entendendo à realidade de suas histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes. A Menina Que Roubava Livros é um livro para toda vida.

( Resenha ) O Último Adeus – Cynthia Hand

Em uma obra sobre superação. Cynthia Hand consegue tocar o coração ao apresentar os medos de um coração partido. O Último Adeus é um relato profundo sobre seguir em frente mesmo quando tudo parece acabado.

Título: O Último Adeus | Título original: The Last Time We Say Goodbye | Autora: Cynthia Hand | Editora: Darkside | Páginas: 352 | Ano: 2016
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤ | Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

o ultimo adeusSinopse: O Último Adeus é narrado em primeira pessoa por Lex, uma garota de 18 anos que começa a escrever um diário a pedido do seu terapeuta, como forma de conseguir expressar seus sentimentos retraídos. Há apenas sete semanas, Tyler, seu irmão mais novo, cometeu suicídio, e ela não consegue mais se lembrar de como é se sentir feliz. O divórcio dos seus pais, as provas para entrar na universidade, os gastos com seu carro velho. Ter que lidar com a rotina mergulhada numa apatia profunda é um desafio diário que ela não tem como evitar. E no meio desse vazio, Lex e sua mãe começam a sentir a presença do irmão. Fantasma, loucura ou apenas a saudade falando alto? Eis uma das grandes questões desse livro apaixonante. O Último Adeus é sobre o que vem depois da morte, quando todo mundo parece estar seguindo adiante com sua própria vida, menos você. Lex busca uma forma de lidar com seus sentimentos e tem apenas nós, leitores, como amigos e confidentes.

“Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio.”

Antes de ler O Último Adeus de Cynthia Hand, eu nunca havia tido contato com a escrita da autora e nem sequer passou pela minha cabeça a fazer a leitura da obra. Até que um belo dia, o livro “sorriu” convidativamente e mergulhei nas páginas e nas palavras da autora. Cynthia me presentou com uma escrita madura que me emocionou bastante, e mesmo achando que a obra poderia ser melhor, a leitura ainda sim foi incrivelmente satisfatória pois teve um significado especial na minha vida.

Narrado em primeira pessoa no presente e no passado, o livro tem uma narrativa densa de sentimentos. Apesar de gostar de boas descrições de cenários, para dramas eu dou muito mais valor a carga emocional que o livro em si consegue acarretar. Por isso, a narrativa de Hand é feliz pois consegue passar um nível de drama que deixa a história crível já que os sentimentos de Alexis são muito bem explorados. Muito embora tenha gostado do estilo narrativo, ao final da obra senti que certas questões ficaram sem um desfecho propriamente dito o que atrapalhou minha relação com o livro.

“O tempo passa. É a regra. Independentemente do que aconteça, por mais que pareça que tudo em sua vida está congelado em um determinado momento, o tempo segue em frente.”

Sobre os personagens, apesar do clichê de garotos nerds e populares típicos do Estados Unidos (aparece com tanta frequência que não é possível que seja só invenção, certo?), eles foram bem construídos. Nenhum deles apresentava características exageradas de ser muito de uma mesma coisa: bondoso de mais, inocente de mais, mau de mais. Eles estavam equilibrados de modo que não somente parecessem reais, como também possuíssem conflitos reais.

Alexis Riggs foi minha personagem favorita. Não somente por ela narrar a obra, mas pelas incerteza que apresentou e que tinham grande relevância dentro do contexto. Muito embora não me identifique com Alexis, acreditei nela e na sua dor de modo que senti uma grande empatia pela personagem. O mesmo pode-se dizer de sua mãe, Jill, destruída pela morte do filho. As cenas envolvendo ambas foram emocionantes e profundas de modo que até meu coração de pedra foi alcançado ficou emocionado.

“Meu irmão estava morto. Minha mãe estava viva. De muitas maneiras (as rosas cor de pêssego, o caixão de mogno que combinava com a mesa de casa, a música, a passagem bíblica, a comida), ela havia planejado que o funeral dele fosse o dela.”

Mas apesar dos personagens conquistadores, meu ponto favorito da história foi o sentimento que envolvia Tyler – o irmão de Lex – e toda a questão que envolveu seu suícidio, pois o rapaz parecia ter tudo: era popular, tinha uma linda namorada e jogava basquete muito bem. Então não havia motivos aparentes para que ele decidir se matar. E acredito que esteja aí o grande POR QUÊ do livro. Hand nos mostra que felicidade é uma questão de aparência e ser feliz é algo não podemos simplesmente visualizar e supor nas outras pessoas. Qualquer um está sujeito a infelicidade, mesmo aqueles que parecem ter as melhores oportunidades. O grande lance é tentar perceber atitudes, mas principalmente nos manter do lado daqueles que amamos.

O Último Adeus é um livro emocionante sobre perdão, amor e família. Eu indico essa obra a todos que quiserem um choque de realidade sobre o que é felicidade e como os medos podem nos levar a destruição. Mas principalmente é um livro sobre seguir em frente, mesmo quando o caminho parecer incerto e desolador. Afinal, mesmo sendo um grande clichê é certo que depois de toda tempestade podemos encontrar um arco-íris por mais fraco que ele seja.

( Resenha ) Até Que A Culpa Nos Separe – Liane Moriarty

Em mais um livro sobre segredos e mentiras, Liane Moriarty vai mais uma vez encarar o leitor para perguntar: Você esta realmente seguro de todas as decisões que tomou na vida? Você é feliz com suas escolhas?

Título: Até Que A Culpa Nos Separe | Título original: Truly Madly Guilty | Autora: Liane Moriarty | Editora: Intrínseca | Páginas: 464 | Ano: 2017 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Amazon| Saraiva

ate que a culpa nos separe

Sinopse: Amigas de infância, Erika e Clementine não poderiam ser mais diferentes. Erika é obsessivo-compulsiva. Ela e o marido são contadores e não têm filhos. Já a completamente desorganizada Clementine é violoncelista, casada e mãe de duas adoráveis meninas. Certo dia, as duas famílias são inesperadamente convidadas para um churrasco de domingo na casa dos vizinhos de Erika, que são ricos e extravagantes. Durante o que deveria ser uma tarde comum, com bebidas, comidas e uma animada conversa, um acontecimento assustador vai afetar profundamente a vida de todos, forçando-os a examinar de perto suas escolhas – não daquele dia, mas da vida inteira. Em Até Que a Culpa Nos Separe, Liane Moriarty mostra como a culpa é capaz de expor as fragilidades que existem mesmo nos relacionamentos estáveis, como as palavras podem ser mais poderosas que as ações e como dificilmente percebemos, antes que seja tarde demais, que nossa vida comum era, na realidade, extraordinária.

“Todos os seus segredos ficavam guardados lá dentro, atrás da porta da frente, que nunca podia ser totalmente aberta. O pior medo delas era que alguém batesse à porta.”

Mais uma vez me rendi a um livro de Liane Moriarty. Estou quase fazendo uma carteirinha de fidelidade com a autora já que sinto uma vontade maior cada vez mais ler e ler os livros da autora. Apesar de não poder dizer que seus livros são meus favoritos em todo mundo, posso considera-los numa posição de destaque já que de uma forma ou de outra eles me marcam profundamente pelos assuntos abordados em suas páginas. Segredos e acontecimentos são apenas o começo de sua narrativa que sempre vem com o intuito de despir nossas mentes e nos impor a pensar nas consequências da vida que escolhemos.

Com sua clássica narrativa impiedosa, Liane Moriarty conduz um livro cheio de pequenas situações que culminam em um grande pensamento existencial. Uma das coisas que mais gosto na autora é o sentimento de vida-comum que permeia todo seu esquema narrativo. Trazer a vida corriqueira para dentro de uma obra parece ser uma tarefa fácil pois são situações e conflitos que todos vivemos cotidianamente, logo não há muito que inventar. Mas a verdade é que muitos autores não conseguem fazer isso por permanecerem em um hiatus narrativo que ou vai de encontro ao exagero ou se reserva a mesmice. O mesmo não acontece com a escrita de Liane que consegue manter um fluxo continuo de situações comuns mas com um toque dinâmico fundamental para preservar o interesse do leitor no livro.

“Era interessante como fúria e medo podiam ser tão parecidos.”

Como em todos os outros livros de Moriarty, o principal desta obra se faz inesquecível pela presença dos personagens destacados. Até Que A Culpa Nos Separe é narrado em terceira pessoa em sete visões diferentes. O ponto de encontro de suas narrativas é que cada um a sua maneira carrega um sintoma de culpa pelo acontecimento no “Dia do Churrasco“. Erika e Clementine são as protagonistas, mas a inserção dos pensamentos de seus maridos e vizinhos aumenta a perspectiva total das consequências advindas desse dia. Assim Liane consegue denotar coisas pequenas que começam a implodir em algo maior variando de acordo com o narrador do momento. O engraçado é perceber como tudo não passa de picuinhas: sentimentos mesquinhos que revelam a culpa, mas principalmente que faz com que cada uma daquelas pessoas sinta-se responsável pelo fato e por tudo aquilo que jogaram em cima do outro. Pois não basta se culpar, todos sentem necessidade de apontar o dedo. A culpa e o ressentimento se misturam deixando o amargor da verdade subtendida cada vez mais amostra.

“Mas não conseguiam parar. Era como pedir que prendessem a respiração. Só conseguiriam fazer isso durante determinado tempo até serem obrigados a respirar outra vez.”

Além do acontecimento no “Dia do Churrasco”, o tipo de amizade que existe entre Erika e Clementine é um fator dentro da história que aumenta a significância das coisas. Um ponto interessante é perceber que Liane constrói duas mulheres opostas unidas pelo destino, por assim dizer. No começo da obra eu me perguntei porque elas continuavam amigas já que claramente não pareciam gostar uma da outra. Mas com o passar do tempo, comecei a notar o interesse por um pedaço da outra era muito maior que a repulsa que pareciam sentir. Erika que não possui nenhuma outra amiga desenvolve uma relação de dependência cruel com Clementine. Ela precisa daquela amizade para se sentir não solitária, mesmo tendo plena consciência de que sua “amiga” não gosta dela. Mas a necessidade de ter alguém além do marido fala mais forte do que seu amor próprio. Já Clementine, por outro lado e sem saber se essa era realmente a intenção da autora, não conseguir sentir outro sentimento que não fosse ódio. Detestei-a por ser mesquinha, por não gostar de Erika mas usa-la Erika como ponte para se sentir benevolente de ser amiga de uma estranha, para se sentir mais autêntica por ter em constate alguém tão retraída, mais sentimental porque Erika é mais realista, mais desejada por ser mais bonita e mais superior por ser capaz de ser tudo isso e la Erika não ser nada. Clementine mostra uma face vil ao qual não consegui me penalizar pelo seu espírito pequeno, mas apenas consigo me resguardar ao ódio pois acredito que mentira de uma amizade que se diz verdadeira é mais decepcionante que uma traição.

“Seu egoísmo era um segredo sórdido que precisava esconder a todo custo.”

Até Que A Culpa Nos Separe é um livro fantástico que detém um grande poder sobre o leitor. Mesmo possuindo algumas passagens lentas é uma obra que alcança as barreiras da ficção chegando a realidade por nos conduzir de volta às nossas escolhas. Mais uma vez estou encantada pela narrativa de Liane Moriarty e eu indico muito a todas as pessoas que querem sair de sua zona de conforto e ir além de suas convicções já que é exatamente isso que a autora nos propõe a fazer.

“Era interessante o fato de que um casamento se tornava instantaneamente propriedade pública assim que aparentava problemas.”

 

(Resenha) O Segredo do Meu Marido – Liane Moriarty

Minhas caras Corujinhas. Em mais um livro sobre relações familiares, Liane Moriarty vai te mostrar como um segredo pode destruir vidas independente de serem grandes ou pequenos.

o segredo do meu maridoTítulo: O Segredo do Meu Marido
Título original: The Husband’s Secret
Autora:  Liany Moriarty
Editora: Intrinseca
Páginas: 368
Ano: 2014
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: Amazon | Saraiva

Sinopse: Imagine que seu marido tenha lhe escrito uma carta que deve ser aberta apenas quando ele morrer. Imagine também que essa carta revela seu pior e mais profundo segredo — algo com o potencial de destruir não apenas a vida que vocês construíram juntos, mas também a de outras pessoas. Imagine, então, que você encontra essa carta enquanto seu marido ainda está bem vivo… Cecilia Fitzpatrick tem tudo. É bem-sucedida no trabalho, um pilar da pequena comunidade em que vive, uma esposa e mãe dedicada. Sua vida é tão organizada e imaculada quanto sua casa. Mas uma carta vai mudar tudo, e não apenas para ela: Rachel e Tess mal conhecem Cecilia — ou uma à outra —, mas também estão prestes a sentir as repercussões do segredo do marido dela.

“Você podia se esforçar o quanto quisesse para tentar imaginar a tragédia de outra pessoa – afogar-se em águas congelantes, viver numa cidade dividida por um muro – , mas nada dói de verdade até acontecer com você.”

Não tenho costume de ler livros com cargas dramáticas intensas. Chega ser engraçado visto que meu tipo de leitura favorita nos últimos tempos têm sido livros que apresentam críticas a algum aspecto social e normalmente o drama possui tal quesito. Talvez por isso, pela permissão que me dei de inserir-me no universo dramático, que gostei tanto de realizar a leitura de O Segredo do Meu Marido de Liane Moriarty por indicação da Keth (Parabatai Books), ficando surpresa com todas implicações de sua história. Pois, muito mais que criar medos e anseios para seus personagens, a autora coloca em cheque nossas convicções ao nos perguntar como os pequenos segredos que escondemos afetam tudo e todos ao nosso redor.

Um dos melhores pontos do livro se faz na narrativa intensa, cativante e impiedosa, ao qual Moriarty coloca para o leitor. Mesmo em terceira pessoa, a aproximação com os personagem é feita sem problemas pois você não somente entra em suas mentes mas entende os desafios aos quais eles passam. Em uma narrativa completa e detalhista, são colocadas inúmeras prerrogativas que se manifestam inerentes aos sentimentos do leitores. Através das palavras da autora, podemos nos enxergar em cada personagem recriando em nossas mentes as perguntas e os meios deles ampliando assim o efeito emocional do livro pois o trazemos para nossa realidade.

“Era isso o que precisava ser feito. Era assim que se convivia com um segredo terrível. Apenas seguia-se em frente. Fingia-se que estava tudo bem. Ignorava-se a dor profunda, o embrulho no estômago. De algum modo era preciso anestesiar a si mesmo de forma que nada parecesse tão ruim assim, mas tampouco parecesse bom.”

Em primeiro plano, a leitura começa lenta e parece dispersa e um tanto enfadonha visto que os primeiros capítulos são de apresentação: Liane insere suas personagens em vidas opostas e lugares totalmente diferentes que, exceto por coincidências corriqueiras, não possuem praticamente nada haver uma com a outra. Até que a partir  daquilo, da exposição das personalidades e convicções de suas protagonistas, é que a história ganha forma. Os ligamentos são inseridos e as interrogações sobre os acontecimentos do presente e do passado surgem naturalmente. A partir daí somos constantemente levados a questionar as ações que Rachel, Cecília e Tess têm a medida que situações emocionalmente extremas são colocados a sua frente.

O livro se constrói justamente sobre estas decisões que não somente são dotadas para as três mulheres como convergem para as atitudes do leitor. Ao questionar as protagonistas, Liane também nos questiona sobre os nossos atos, mas principalmente sobre a falta deles. Dessa forma, nos é apresentado o segredo que envolve as três personagens, muito embora com mais vigor sobre Rachel e Cecília, de modo que é segredo ganha relevância gradativa na na vida delas mas de forma incomum, pois o problema não vem somente de contar ou não o segredo, mas a implicações que este tem sobre a vida dessas mulheres em quesitos sociais e familiares.

“Todo o seu corpo pareceu ser esvaziado por uma explosão nuclear. Sobrara apenas a casca da mulher que havia sido. Ainda assim, não tremeu. Suas pernas não cederam. Ela continuou absolutamente imóvel.”

Cecília, Tess e Rachel não poderiam ser mais diferentes. Porém, cada uma ao seu modo enfrenta dificuldades que são expandidas a medida que o segredo ganha maiores proporções mesmo que duas delas não saibam disso. Através do trio, somos lembrados dos nossos egoísmos que sempre estão em favor das necessidades pessoais não tendo nada haver com a vida em sociedade ou sobre ser uma boa pessoa e estender a mão aquele que precisa. Não somente Cecília parece errada por querer esconder seu segredo para proteger sua família, mas Rachel e Tess também estão no limite daquilo que é certo ou errado ao não considerarem nada mais que sua dor na hora de tornar atitude. E considerando que nós como indivíduos também estamos cercados de pequenas atitudes de proteção e desejos insaciáveis, podemos nos perguntar até que ponto podemos considerar essas mulheres inocentes ou culpadas das suas emoções. Dessa forma, Liane que mesmo que os segredos conduzam ao declínio, nem sempre a verdade é libertadora pois ambos estão condicionados ao nosso egoísmo de perder alguma coisa nos torna egoístas. Segredos são obscuros por isso os escondemos, assim como verdades podem ser dolorosas. Mas jamais pensamos nas consequências de ambos deles e é isto que Liane tem a oferecer. A outra pessoa, aquela que vai ser afetada porque fomos covardes ou corajosos de mais para simplesmente tomarmos alguma decisão.

“Nenhum de nós conhece os possíveis cursos que nossas vidas poderiam ter tomado. E provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem ficar guardados para sempre. Pergunte a Pandora.”

Apesar de ter achado a conclusão de algumas questões um tanto mão resolvidas, posso afirmar O Segredo do Meu Marido é um dos melhores livros que já li por trazer a tona de modo arrasador todas as implicações fundamentadas entre segredos, ações e suas consequências. Liane Moriarty mostra mais uma vez sua capacidade de questionar o leitor e faze-lo refletir sobre assuntos tão próximos e tão distantes de nós. Um livro simples, claro que esclarece de uma vez por toda o impacto de uma mentira sobre a vida de todos nós.

( Resenha ) Os 27 Crushes de Molly – Becky Albertalli

Quem nunca se apaixonou e ficou com medo de se declarar que atire a primeira pedra. Em Os 27 Crushes de Molly, Becky Albertalli vai te cativar com a sutileza de uma história sobre amadurecimento, amor e muita representatividade.

os 27 crushes de mollyTítulo: Os 27 Crushes de Molly
Título original: The Upside of Unrequited
Autora: Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Páginas:
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Molly já viveu muitas paixões, mas só dentro de sua cabeça. E foi assim que, aos dezessete anos, a menina acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que ela precisa ser mais corajosa, Molly não consegue suportar a possibilidade de levar um fora. Então age com muito cuidado. Como ela diz, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. Tudo muda quando Cassie começa a namorar Mina, e Molly pela primeira vez tem que lidar com uma solidão implacável e sentimentos muito conflitantes. Por sorte, um dos melhores amigos de Mina é um garoto hipster, fofo e lindo, o vigésimo sétimo crush perfeito e talvez até um futuro namorado. Se Molly finalmente se arriscar e se envolver com ele, pode dar seu primeiro beijo e ainda se reaproximar da irmã. Só tem um problema, que atende pelo nome de Reid Wertheim, o garoto com quem Molly trabalha. Ele é meio esquisito. Ele gosta de Tolkien. Ele vai a feiras medievais. Ele usa tênis brancos ridículos. Molly jamais, em hipótese alguma, se apaixonaria por ele. Certo? Em Os 27 Crushes de Molly, a perspicácia, a delicadeza e o senso de humor de Becky Albertalli nos conquistam mais uma vez, em uma história sobre amizade, amadurecimento e, claro, aquele friozinho na barriga que só um crush pode provocar.

É uma coisa bem incrível não se importar de verdade com o que as pessoas pensam de você. Muita gente diz que não se importa. Ou age como se não se importasse. Mas acho que a maioria se importa muito. Eu sei que eu me importo.

Nunca fui o tipo de pessoa que se prende totalmente à representatividade como marco de toda obra. Não me entenda mal, não é que não ache importante, mas apenas creio que não seja o mais importante. Principalmente porque sempre percebo que acabamos por perder o real significado de representar. Explicando melhor: no meu ponto de vista, o simbolismo deve ser colocado de maneira natural, sem estardalhaço. Pois quando ao contrário, torna-se forçado e o contexto parece ser reduzido. Não estamos mais falando de uma história de superação que consequentemente se torna um manifesto de igualdade, mas passamos a ver a obra como uma procuração que tem o sentido apenas de representar. Exemplificando, depois do lançamento do filme Pantera Negra vi muitas pessoas comentando ser o melhor filme da Marvel por conta disto, afinal pela primeira vez tínhamos um herói negro nas telonas. Mais uma vez não é que eu considere inválido o argumento, mas sinceramente, Pantera Negra não devia ser o melhor filme porque apresenta a melhor história?

Nunca contei para ninguém, nem para minhas mães e para Cassie, mas é o que me dá mais medo: não ter importância. Existir em um mundo que não liga para quem eu sou. É um outro nível de solidão.

Partindo desse princípio, quando comecei a ler Os 27 Crushes de Molly, já sabia que se tratava da história de uma mulher acima do peso ideal (isso existe?), por isso havia me preparado para uma revolução em favor da quebra de determinados tabus. Mas para minha grata surpresa, Becky Albertalli chega com uma narrativa cheia de sutilezas. Ela não cria aquele plot twist de início, mas sim situações reais que tem o propósito de nos mostrar que somos todos humanos de carne e osso. Podemos passar pelas mesma situações e ter os mesmos sentimentos. Não será nossa aparência que determina se somos capazes disso ou daquilo, muito menos de orientação sexual. Ao criar um livro cheio de representatividade, Becky Albertalli não impõe nada por conta dela, mas sim expõe a normalidade que todos deveriam saber.

Odeio estar pensando nisso. Odeio odiar meu corpo. Na verdade, nem odeio meu corpo. Só fico com medo de todo mundo odiar. Porque garotas gordinhas não têm namorados e claro que não fazem sexo. Não nos filmes, não de verdade, a não ser que seja piada. E eu não quero ser piada.

Quando Becky começa seu livro, deixa claro que não estamos falando de uma obra surpreendente cheia de drama adolescente, mas sim de uma história dotada de conflitos que todo adolescente sente, principalmente os mais inseguros. Na época que eu fazia ensino médio, apesar de não ser gorda, nunca me considerei exatamente bonita: era magrela de mais, buchuda de mais (sim as duas coisas existem juntas!), cabelo alto de mais. No entanto nada disso me impediu de ter meus crushes, que apesar de não serem 27, foram paixonites importantes, mas eu também nunca tive coragem de falar com nenhum deles. Dessa forma, ao conhecer Molly me identifiquei facilmente com ela por conta da Jessica do passado. Nós duas achávamos que nunca nos apaixonaríamos e, apesar de sermos felizes assim, queríamos saber qual era a sensação. Não é questão de ser dependente de romance, mas sim de querer ter um tipo de sentimento que parece que todo mundo a sua volta tem menos você.

Passo muito tempo pensando em amor e beijos e namorados e todas as outras coisas para as quais as feministas não tinham que dar muita bola. E eu sou feminista. Mas não sei. Tenho dezessete anos e só quero saber como é beijar alguém.

Pelo fato de ter me visto na protagonista (de uma forma que poucas vezes, ou mesmo nunca, havia acontecido) me conectei a obra ao fundo. Tanto pelo fator inicial de insegurança quanto pela trajetória da personagem para ganhar auto-confiança. Mais uma vez, Becky é sútil ao evoluir sua personagem sem nunca mudá-la. Para tanto, Molly  vai aos poucos percebendo as qualidades que possui entendendo que de modo que o amor não virá apesar de ser gorda, mas sim ciente e acima disto aceitando-a. Afinal de contas, o corpo é só uma casca e muitas outras coisas a definem não existindo motivo para Molly ser rejeitada, ainda mais por padrões de sociedade que nem sequer deveriam existir.

Tem alguma coisa em momentos assim, quando esse fiozinho tênue me liga a um total estranho. É o tipo de coisa que faz o universo parecer menor. Adoro isso.

Outro ponto que me fez amar o livro foram os personagens secundários que realmente fizeram a diferença no enredo. Realmente detesto livros em que os secundários vêm apenas para encher linguiça. Quando li Simon Vs A Agenda do Homosapiens  meu incômodo com foi a criação de tantos personagens que acabaram não tendo relevância no contexto principal. Como que para corrigir seu erro, Becky não perde ninguém e demonstra como a amizade e a família são importantes para a aceitação de si mesmo. Nadine e Patty (mães de Molly e Cassie geradas por meio da proveta) são lésbicas (obviamente né, Jéssica?) evidenciam o primeiro passo: se aceitar e ser feliz sozinhos. Reid (crushe 27) revela o segundo: somente aquele que nos aceita merece estar em nosso amor. E Cassie, Mina, OliviaAbby (lembra dela em Simon?) apresentam o  último sobre amizade e o modo com o qual elas nos mantém de pé.

A amizade é assim: nem sempre é determinada pelo que as pessoas têm em comum.

De todas as maneiras que consigo pensar, Os 27 Crushes de Molly foi um livro espetacular, diria que é um dos melhores livros no gênero e da vida. Becky Albertalli não se prende ao esteriótipo e nem sequer trata seus personagens como absolutamente especiais por apenas serem diferente. Somos naturalmente divergentes um dos outros devemos entender e respeitar isso, mas sobretudo nos aceitar e sermos felizes pela abundância de vida refletida em nós.

( Resenha ) Um de Nós Está Mentindo – Karen M. McManus

Cinco jovens, quatro segredos e uma morte. Esteja preparado para juntar os pedaços desse quebra-cabeça ou você estará fadado a se perder neste jogo onde as mentiras podem valeram sua própria vida.

um de nos esta mentindoTitulo: Um de Nós Esta Mentindo
Titulo Original: One Of Us Is Lying
Autora: Karen M. McManus
Editora: Galera Record
Páginas: 384
Ano: 2018
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐
Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon 

Sinopse: Cinco alunos entram em detenção na escola e apenas quatro saem com vida. Todos são suspeitos e cada um tem algo a esconder. Numa tarde de segunda-feira, cinco estudantes do colégio Bayview entram na sala de detenção: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, nunca quebra as regras. Addy, a bela, a perfeita definição da princesa do baile de primavera. Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas. Cooper, o atleta, astro do time de beisebol. E Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Na segunda, ele morreu. Mas na terça, planejava postar fofocas bem quentes sobre os companheiros de detenção. O que faz os quatro serem suspeitos do seu assassinato. Ou são eles as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? O que realmente importa é até onde você iria para proteger os seus.

De qualquer forma, a culpa é das pessoas. Se elas não mentissem e traíssem, eu estaria na rua.

Um de Nós Está Mentindo é o livro perfeito para todos aqueles que precisam de um choque de realidade sobre a perversão das mídias sociais que estão tomando conta do mundo. Mas não se engane, essa obra não se trata de um thriller como subtendido na sinopse, mas sim como um drama estruturado através do suspense. Existem partes tensas e segredos dentro da narrativa, mas o ponto principal do enredo são os segredos dos personagens e a maneira com o qual lidam com eles. Sua vida, a adolescência e as provações que todo jovem passa ao chegar na idade de decidir o futuro é o verdadeiro foco de Karen M. McManus que apesar de não construir um livro perfeito, consegue nos deixar as mais diversas reflexões.

Algumas pessoas são tóxicas de mais para viver. Simplesmente são.

O livro é narrado em primeira pessoa pelos quatro personagens principais que acredito terem sido meus maiores problemas com a trama. Começando pela narração, eu senti certa incapacidade de McManus em construir personalidades divergentes. Muitas vezes acabei me perdendo no contexto da obra porque as narrações eram muito parecidas, mesmo com os nomes acima do capítulo indicando quem estava contando naquele momento, tanto que várias vezes tive que me guiar pelo círculo de personagens secundários em volta dos protagonistas. Isso tornou tudo confuso de um jeito negativo pois eu demorei a ganhar um ritmo para com a história.

Ainda em relação a falta de divergências dos personagens, apesar de ter gostado da maneira com o qual cada um lidou com suas questões particulares, tenho que admitir que tive certa decepção ao perceber que nenhum foi além do clichê. De certo modo, acredito que a autora planejava diferencia-los apenas não conseguiu o efeito desejado. Tanto que antes de morrer, Simon comenta que todos integrantes daquela detenção é o esteriótipo de alguma coisa: uma nerd, a gostosona, o astro do time e o bad boy misterioso. Assim quando a autora faz a inversão de suas personalidades através do segredos de cada um, ao invés de inovar e criar contextos que tragam surpresas, ela retoma o clichê não conseguindo alcançar as expectativas, pois se McManus queria mostrar que ninguém é o que parece, ela fez isso usando um clássico de cometerem “crimes” que vão ao oposto das aparências.

– Ela é uma princesa, e você, um atleta – responde ele, apontando para Bronwyn e depois para Nate, – E você é um crânio. E também um criminoso. Vocês são todos estereótipos ambulantes de filmes de adolescentes

Mas como sou uma pessoa do contra, apesar dessas primeiras falhas, não posso negar que o que me manteve presa a narrativa foi a evolução dos personagens, principalmente de Addy e Cooper.  De certo modo, foram elas que deram sentido a narrativa apresentando críticas sociais muito importantes para o cenário geral da obra que envolviam os amigos, família e relacionamentos amorosos. Acredito na importância desse tipo inserção no enredo porque ajuda a edificar o livro tornando-o bem mais sustentável. Não vou falar um pouco de cada protagonista porque para isso teria que dar spoilers dos segredos que eles escondem, mas é interessante perceber que essas críticas sociais estão presentes na obra de forma consciente aos próprios personagens. São elas que regem os segredos e as ações, pois é o medo das críticas geradas pela exposição que os mantem mentindo.

Porém, o que mais me chamou a atenção dentro da narrativa foi a percepção que autora teve em relação as mídias sociais e como estas afetam diretamente a vida de todos. De certo modo, o Falando Nisso – aplicativo criado por Simon – é basicamente a crueldade humana personificada. Ninguém faz fofoca porque quer ajudar, mas sim pela humilhação que ela propõe. As mídias sociais como um todo participam ativamente da propagação dessa crueldade. Quantas vezes não pudemos observar pessoas caindo ou sendo exaltadas por simples boatos levantados em fotos ou trends-topics? Ninguém realmente se preocupa em investigar apenas acreditam no que veem por terem a noção de que, se está em alta logo deve ser verdade. Por esse motivo, a exposição dos segredos assusta tanto os protagonistas. Pois caso apareça uma nota sobre eles no Falando Nisso, ninguém iria pensar que se tratavam de boatos, mas sim de verdade absolutas que poderiam destruir suas vidas.

Todas essas redes sociais… é como se você não pudesse cometer um erro, não é? Elas te seguem por toda parte. O tribunal é bem indulgente com jovens impressionáveis que agem as pressas quando têm muito a perder.

Apesar dos contrapontos, eu indico sim a leitura de Um de Nós Está Mentindo pelas reflexões que a autora coloca em suas páginas. Apesar de ser confuso, não é livro difícil de ler, tanto que o fiz em um único dia. É uma obra que tem significância ao abordar tantos assuntos que estão presentes em nosso dia-a-dia. Karen McManus te implica a pensar em como você julga as pessoas, como manter segredos é difícil e essencialmente como a vida pessoal pertence unicamente ao individuo.

Não sei porque é tão difícil para as pessoas assumirem que às vezes elas são idiotas que estragam tudo por acharem que nunca vão ser pegas.

(Resenha) Desaparecido Para Sempre – Harlan Coben

Minhas queridas Corujinhas, em uma tempestade de emoções imersas à um suspense de tirar o folêgo, Harlan Coben mostra porque é um dos autores mais aclamados da atualidade em um livro que te surpreende até as últimas palavras.

Desaparecido para sempre

 

Titulo: Desaparecido Para Sempre
Titulo Original: Gone for Good
Autora: Harlan Coben
Editora: Arqueiro
Páginas: 320
Ano: 2010
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ ❤
Encontre: Skoob |  Saraiva  |  Amazon

Sinopse: No leito de morte, a mãe de Will Klein lhe faz uma revelação: seu irmão mais velho, Ken, desaparecido há 11 anos e acusado do assassinato de sua vizinha Julie Miller, estaria vivo. Embora a polícia o considere um fugitivo, a família sempre acreditou em sua inocência. Ainda aturdido por essa descoberta e tentando entender o que realmente aconteceu com seu irmão, Will se depara com outro mistério: Sheila, seu grande amor, some de repente, e o FBI suspeita do envolvimento dela no assassinato de dois homens. Apesar de estarem juntos há quase um ano, Sheila nunca revelou muito sobre o seu passado.Enquanto isso, Philip McGuane e John Asselta, dois criminosos que foram amigos de infância de Ken, passam inexplicavelmente a rondar a vida de Will. Para descobrir a verdade por trás desses acontecimentos, ele conta apenas com a ajuda de Squares – seu colega de trabalho em uma fundação de assistência a jovens carentes e proprietário de uma escola de ioga famosa entre as celebridades, o que lhe garante acesso a topo tipo de pessoas e de informações.

Ela me olhou, e eu pensei que aquele talvez fosse o jeito como eu costumava olhar para Ken, com uma mistura de esperança, adoração e confiança. Tentei parecer corajoso, mas nunca fui do tipo heroico.

Uma das coisas que mais me orgulho e também mais sinto raiva na minha vida de leitora, é minha capacidade de desvendar mistérios dos livros de suspense. Não sendo modesta, muitas vezes me sinto Sherlock Holmes já que sinto pouca dificuldade para desvendar o vilão. Por esse motivo com o passar do tempo passei a não me importar mais tanto com quem eram os vilões e sim com suas motivações. Mas, sendo sincera, eu gosto de ser enganada pois me traz uma sensação mais satisfatória quando o autor encaixas as peças, não eu. Baseado nisto, posso dizer com todas as letras que Desaparecido Para Sempre é meu livro favorito de Harlan Coben. Por que se eu gosto de não saber quem é o vilão, imagine só ser “otariana” também nas motivações. Pois, meu caro leitor de asas, se está pensando que é fácil descobrir ambas as coisas neste livro, está redondamente enganado e pode ter certeza que Coben está em algum lugar rindo maleficamente de você.

A narrativa de Coben normalmente é baseada na ação com uma pitada satisfatória de drama. Nesta obra, porém, pelo contexto que o autor cria em sua obra podemos perceber que o autor tem mais enfoque no drama que na comédia. Isso ajudo a construir um aspecto bem mais perigoso para a trama, que com as inúmeras reviravoltas, transforma-se em algo ao mesmo tempo pesado e fluído. Você parece que leu mais de mil páginas, mas mesmo assim não consegue parar de ler o livro.

Para tornar ainda mais inesquecível o livro, Coben cria personagens que possuem conflitos e pensamentos reais que se adequam à eles por mais estranhos que possam parecer. Um irmão lutando pela inocência do outro é tão forte que mesmo que quando nós leitores duvidamos da verdade sobre Ken, também não podemos de ressaltar a razão que acompanha Will em sua luta.  Da mesma maneira que isso torna o livro mais verrossímel, também funciona para aproximar o leitor da obra ao criar uma motivação mais realística para os personagens.

Um dos pontos mais fortes deste livro, são os plot’s que o autor vai fazendo ao longo da narrativa. Dizer que temos uma para cada capítulo esta longe de ser um exagero pois é exatamente isto. A cada novo capítulo em que uma pequena peça se encaixa, outras são jogadas de lado. Não posso contar quantas vezes reformulei minha teoria que nunca conseguiu chegar próxima ao plot twist final. Foi arrebatador como Harlan jogou na minha cara (me estapeou) as inúmeras vezes que ele me mostrou o que tinha realmente acontecido e como ele agiu como um mágico verdadeiro: o segredo é sempre olhar para onde não está acontecendo o espetáculo principal.

Muitos leitores afirmaram que as reviravoltas são forçadas, mas devo dizer que em meu ponto de vista Harlan simplesmente brincou com a verdade que enxergamos. Imagine que somos uma sociedade que julga tanto por aparências como por boatos (veja o exemplo dos jornais sensacionalistas que fazem sucesso à custa de fofocas alheias), por isso que, de certa forma, esta obra também foi uma crítica ao senso de superioridade da sociedade que é formado a partir de concepções pré-estipuladas. Harlan te apresenta pontos de vistas sobre determinados personagens, para somente depois mostrar quem eles são de verdade.

Por inúmeros motivos, Desaparecido Para Sempre é uma leitura que vale super à pena. Para aqueles que não gostam de suspense: tem doses de romance. Para aqueles que nunca leram o gênero: é surpreendente. E para quem já é fã, é uma oportunidade única de saborear uma obra prima da literatura.

 

 

( Resenha ) Garota Exemplar – Gyllian Flynn

Minhas caras Corujinhas. Vou apresentar à vocês duas escolhas: vocês podem odiar esse livro ou amar cada uma de suas páginas. Mas o segredo de tudo é entender que nem tudo  (e todos) é perfeito como todos gostaríamos de ver (ou ser).

Garota ExemplarTitulo: Garota Exemplar
Titulo Original:Gone Girl
Autora: Gyllian Flynn
Editora: Intrinseca
Páginas: 446
Ano: 2013
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐ ❤
Encontre: SkoobSaraiva  | Amazon

SinopseUma das mais aclamadas escritoras de suspense da atualidade, Gillian Flynn apresenta um relato perturbador sobre um casamento em crise. Com 4 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo – o maior sucesso editorial do ano, atrás apenas da Trilogia Cinquenta tons de cinza –, “Garota Exemplar” alia humor perspicaz a uma narrativa eletrizante. O resultado é uma atmosfera de dúvidas que faz o leitor mudar de opinião a cada capítulo. Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino? Com sua irmã gêmea Margo a seu lado, Nick afirma inocência. O problema é: se não foi Nick, onde está Amy? E por que todas as pistas apontam para ele?

O amor faz você querer ser um homem melhor, mas talvez o amor, o verdadeiro amor, também te dá a permissão para ser simplesmente o homem que você é.

Existem livros, que não importa quanto tempo passe que você sempre vai amar porque ele foi um divisor de aguas na sua vida. Há quase quatro anos, em uma época onde eu estava triste com as pessoas que me rodeavam conheci Garota Exemplar através do filme homônimo lançado no mesmo ano. Quem se lembra daquela época, sabe o bum que o filme fez quando foi lançado e como as pessoas tinham tido reações controversas à história. Teve quem amou, teve quem detestou. E eu como a boa leitora que sou fiquei confusa: os motivos dos personagens do filme pareceram mal explicados de modo que precisei ler o livro e entender as verdades de Garota Exemplar. Faz anos que realizei essa leitura, e como nunca fiz resenha aqui no blog (dá pra acreditar?), mas mesmo assim o livro não sai dos meus pensamentos, hoje vai ser o dia do post quilométrico onde eu vou apresentar a vocês todos os meus motivos para ser apaixonada por essa história.

Um erro comum de quem conhece Garota Exemplar é imaginar o livro como um baita suspense. Com todo respeito, se você pensa isto desta obra está redondamente enganado. Este livro tem uma pegada mais pesada que emerge desde o drama do comum à reflexão do existencialismo que todos devemos ter. O suspense se encaixa na obra apenas como o ponto de partida e ligação entre os acontecimentos, quando na verdade a autora está te contando a história de um casal e o que levou-os aquele ponto.

Como passar por uma porta. Nosso relacionamento imediatamente se transformou em tom sépia: o passado.

Gyllian Flynn não tem uma narrativa fluída que você lê por horas sem perceber. Na verdade a autora utiliza de uma trama intensa e um tanto confusa para te apresentar personagens que definitivamente são reais e profundamente mentirosos. Não esteja preparado para reduções de ser uma obra de ficção ou uma obra que está ali para te demonstrar um puro reflexo de uma sociedade, mas perceba que ali existe um texto que está entre os dois para te mostrar o que nos faz cruelmente e dolorosamente humanos dando forma as reflexões sobre amar verdadeiramente alguém.

O livro todo é narrado em duas pessoas. Nick conta a história ao mesmo tempo em que Amy. Mas, mais uma vez, não se deixe levar por uma redução óbvia que a autora só estava pensando em passar um prospecto interino da obra. O objetivo real é te dar duas versões de um mesmo mundo montado em um começo antagônico: Se por um lado Nick descreve Amy como distante e ele como deixado de lado, Amy faz o caminho inverso destacando Nick como alheio as suas tentativas de restaurar um casamento quebrado. Desta maneira o papel do leitor é determinar quem está mentindo e por fim determinar quem poderia ter dado um sumiço a Amy.

Minha mãe sempre disse a seus filhos: Se você está prestes a fazer algo e quer saber se é uma má ideia, imagine ela impressa para o mundo todo ver.

Eu não vou me ater aos personagens nesta parte inicial do post porque se dissesse o que acho de Nick e Amy de  seria um tremento spoiler. E já que não posso falar sobre eles, quero ressaltar uma crítica social (uma das, no caso) que a autora faz na obra. Sensacionalismo jornalístico é um mal que vêm corroendo a sociedade ao longo da última década pelo motivo claro de que todos que seguem essa linha querem simplesmente ganhar dinheiro sem se preocupar com a veracidade das suas informações. Enquanto uns são transformados em santos outros são transformados em demônios. Por esse motivo, assim como Flynn eu levanto uma bandeira: cuidado com o que você ouve e nunca tente ser nem o juiz nem o carrasco de nenhuma situação. Existem mais faces de uma história que o jornalismo sensacionalista se sente no dever de mostrar.

Garota Exemplar é um livro para ser lido. Odiando ou não, é impossível sair desta obra sem ter alguma reflexão de mundo seja de um aspecto social, seja de um aspecto individual. É um livro que fortalece nossas bases por se fixar em demonstrar que não somos todos idênticos aos outros e não podemos julgar ninguém sem conhecer verdadeiramente uma pessoa. Somos feitos de carne, ossos, segredos e personalidades distintas. Somos feitos para ser livres e amar aqueles que estão dispostos à entender cada um de nossos defeitos.

A partir deste ponto, esta resenha terá spoilers.

amyVocês que já leram este livro ou viram o filme podem dizer que sou absolutamente doida, mas a verdade é que Amy Elliot Dunne é minha personagem favorita da literatura. Entre todas as mulheres literárias que já tive contato, Amy é a mais psicótica sim, mas isso não significa que ela não tenha razão sobre o questionamento para além de relacionamentos que faz neste livro. Ser mulher na nossa sociedade é uma tarefa difícil convenhamos, mas ser mulher em um relacionamento na nossa sociedade é quase brutal. Somos levadas a perder nossa personalidade e nos tornar outras meninas. Somos obrigadas a mudar nosso ser para nos tornarmos aquilo Amy classifica brilhantemente de Garota Legal programadas para ter os defeitos, as qualidades e o corpo certo e claro: nunca reclamar das besteiras que nossos homens fazem.

E se você não é aquela garota, não existe nada de errado com o cara, existe algo de errado com você. 

Na época que li esse livro, nesse ponto, na virada da primeira parte à segunda foi quando eu pensei: Caramba, estou lendo um livro da p****. O texto em que Amy explica suas motivações para estar fingindo seu assassinato e jogando a culpa em seu marido, apesar de ser radical não é inverdade. E posso confirmar isso a vocês das inúmeras vezes em que vi mulheres, amigas minhas, mudarem quem elas são para ficarem com homens que não estavam realmente interessados nelas e sim numa garota inventada e perfeita, que de todas as maneiras que você pode pensar não existe. Mas o cruel não é pensar que o homem quer uma Garota Legal e sim como nós, mulheres, nos damos o luxo de representa-la para entrar em relacionamento que por ser baseado em uma mentira está fadado ao fracasso.

Esperei pacientemente — anos — para que o pêndulo oscilasse para o outro lado, para que os homens começassem a ler Jane Austen, aprendessem a tricotar, fingissem amar a revista Cosmopolitan, organizassem festas de scrapbooks e dessem uns amassos entre si enquanto nós assistíamos, babando. E então diríamos: É, ele é um Cara Legal. Mas isso nunca aconteceu. Em vez disso, mulheres de todos os Estados Unidos conspiraram para nossa degradação! Em pouco tempo a Garota Legal se tornou a garota-padrão. Os homens acreditaram que ela existia — não era apenas uma garota dos sonhos em um milhão.

E obviamente, depois de tudo, comecei a pensar no que faz uma mulher querer ser a Garota Legal de alguém. Não acredito que seja inteiramente culpa da sociedade, mas sim da necessidade que o ser humano tem de estar no contato com outras pessoas. No começo desse post eu tinha dito que esse livro me mudou e foi justamente aqui que eu percebi o que foi feito de mim, como Flynn me bateu e em seguida me mostrou o caminho para enfermaria: Eu era dependente das pessoas; queria ter contato com elas para ser feliz de modo que sempre me decepcionava. A dependência destrói o ser humano porque te motiva a tentar ser perfeito para alguém; mas a perfeição, bem como todas as palavras que demonstram o significado de ser sempre o melhor, não existe e nunca vai existir.

Movendo-se no mesmo ritmo que o rio, uma comprida fila indiana de homens, os olhos voltados para os pés, ombros tensos, caminhava resolutamente para lugar nenhum.

A grande lição de Garota Exemplar é nunca mudar por alguém, mas principalmente ser independente de todas as pessoas. Não estou incitando ninguém deixar todos para trás, apenas modificando uma frase muito famosa, mas que têm um sentido digamos incompleto: Todo homem é uma ilha, mas você precisa trabalhar para manter-se sobre a água contra toda a maré e decidir quem merece construir uma ponte para te conhecer profunda e verdadeiramente.

É uma era muito difícil em que ser uma pessoa, só uma pessoa real, atual, em vez de ser uma coleção de traços de personalidade, de personagens automáticos.

( Resenha ) Em Casa Para O Natal – Cally Taylor

Minhas caras Corujinhas. Na vida as coisas podem acontecer como um turbilhão mesmo quando tudo parece estar acontecendo as mil maravilhas. Nossa história de hoje será sobre uma mulher que precisa aprender à se amar e encontrar seu destino através de suas próprias pernas.

Em Casa Para o Natal

Titulo: Em Casa Para O Natal
Titulo Original: Home for Christmas
Autora: Cally Taylor
Editora: Bertrand
Páginas: 350
Encontre: Skoob| Amazon| Saraiva
Avaliação:⭐ ⭐ ⭐ ⭐

Sinopse: Ela tem a vida quase perfeita. Seu único desgosto é nunca ter ouvido as três palavras mágicas: eu amo você. Beth Prince sempre adorou contos de fadas e acredita que está prestes a viver um final feliz: tem o emprego dos sonhos em um charmoso cinema independente e um namorado maravilhoso chamado Aiden. Ela faz parte de um grupo privilegiado de pessoas que trabalha com o que ama, e o entusiasmo pelos filmes intensifica a busca por seu próprio “felizes para sempre”. Só há um problema: nenhum homem jamais declarou seu amor por ela. E, apesar de acreditar que Aiden é o príncipe encantado, a protagonista desconfia de que ele tem medo de dizer “eu amo você”. Desesperada para escutar essas palavras mágicas pela primeira vez, ela resolve assumir as rédeas do destino — e acaba se arrependendo. Com Em casa para o Natal, Cally Taylor brinda o leitor com uma deliciosa comédia romântica que tem como pano de fundo o espetacular universo do cinema e os tempos festivos do Natal. 

Às vezes sinto como se houvesse algo errado comigo. Se não, por que os homens tomam tudo o que ofereço e depois me dão um pé na bunda? É como se eu não fosse boa o suficiente ou algo do gênero. Às vezes tenho a sensação de que quanto mais eu corro atrás do amor, mais rápido ele foge de mim.

Ler livros de comédia romântica é um desafio para mim. Isto, porque eu nunca consigo rir onde deveria acabando por terminar o livro com aquela sensação li errado, vou ter que ler de novo. Por isso sempre evitei novos autores para livros deste tipo fixando apenas naqueles que já estava acostumada. Até que em dezembro, numa linda promoção das lojas americanas, adquiri um exemplar de Em Casa Para O Natal de Cally TaylorUm dos meus projetos era até resenhá-lo para o natal, mas sabe como é a preguiça foi mais forte (kkk). De modo que acabei lendo ele somente em Fevereiro. E, para minha surpresa, foi uma leitura super gratificante que me deixou bastante satisfeita no final.

Como o bom chik-lit que é, Em Casa Para O Natal tem uma leitura que é pautada pela simplicidade de uma moça atrapalhada. Apesar do clichê clássico do gênero, nossa heroína acaba por ter uma personalidade bem complexa que vai além do esperado. Diferente da maioria, Beth não chega a ser uma mulher dotada de força e independência mas sim o oposto: ela precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir mais plena. Chega à ser assustadora essa necessidade da personagem pois demonstra como o ser humano consegue ser frágil e insatisfeito consigo mesmo. Por isso, a partir disto, a autora toma para si a necessidade de mostrar a evolução da personagem. De frágil e desamparada, Beth transforma-se numa mulher independente para lutar por aquilo que deseja.

Um dos meus pontos favoritos da história foram os personagens secundários que carregaram a leveza na obra e os ensinamentos à serem passados para Beth. Tanto seu par romântico, como sua melhor amiga e também sua mãe trazem algo de novo a protagonista. O amor não deve ser fantasioso, a amizade não deve ter mentiras e a força de uma mulher está naquilo que ela – por si própria – é capaz de conquistar.

Em Casa Para O Natal deve ser um livro tomado sem nenhuma expectativa. Não é um livro de romance apesar de ele existir dentro da obra. É um livro sobre amadurecimento, sobre se encontrar. Um livro que realmente pode ser lido em todas as épocas do ano.