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( Resenha ) A Heroína da Alvorada – Alwyn Hamilton – Livro 03

No terceiro livro da série A Rebelde do Deserto, Alwyn Hamilton presenteia o leitor com o uma obra espetacular que fecha com chave de ouro uma trilogia que ficou marcada como uma das melhores que tive o prazer de ler.

Título: A Heroína da Alvorada | Título Original: Hero At The Fall| Autora: Alwyn Hamilton | Editora: Seguinte | Páginas: 384| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon
A Heroína da AlvoradaSinopse: No último volume da trilogia A Rebelde do Deserto, Amani vai se deparar com a escolha mais difícil que já teve que fazer: entre si mesma e seu país.
Quando a atiradora Amani Al-Hiza escapou da cidadezinha em que morava, jamais imaginava se envolver numa rebelião, muito menos ter de comandá-la. Depois que o cruel sultão de Miraji capturou as principais lideranças da revolta, a garota se vê obrigada a tomar as rédeas da situação e seguir até Eremot, uma cidade que não existe em nenhum mapa, apenas nas lendas — e onde seus amigos estariam aprisionados.
Armada com sua pistola, sua inteligência e seus poderes, ela vai atravessar as areias impiedosas para concluir essa missão de resgate, acompanhada do que restou da rebelião. Enquanto assiste àqueles que ama perderem a vida para soldados inimigos e criaturas do deserto, Amani se pergunta se pode ser a líder de que precisam ou se está conduzindo todos para a morte certa.

“— Tudo o que sou, entrego a você, e tudo o que tenho é seu. Porque o dia da nossa morte não será amanhã”

Engraçado que, as vezes, quando estamos lendo livros muito bons, temos um momento de epifania em que paramos e pensamos: Caramba, estou lendo algo extraordinário! Se eu disser que essa sensação me aconteceu enquanto eu lia A Heroína da Alvorada, seria um eufemismo.

A narrativa de Alwyn Hamilton é maravilhosa. A autora conseguiu pontuar as diversidades dos personagens, reinventar seu romance e ainda sim não perder o foco da guerra iminente. Entre reviravoltas e romances, Hamilton desenvolve sonhos e esperanças, que estão perdidas ao longe destoadas pelas perdas recentes dos rebeldes. Nunca o lema “Uma nova alvorada, um novo deserto” fez tanto sentido: A alvorada tem que vir para que o deserto se erga novamente nas mãos de Ahmed e enfim o mundo de Amani se torne novo e cheio de possibilidades.

“Éramos todos mais egoístas que Ahmed. Por isso ele nos liderava. E estava certo. Não estávamos na rebelião por nós mesmos. Mas pelo que poderíamos fazer pelo futuro. O resto de nós podia morrer pela causa. Mas Ahmed precisava viver.”

Falando em diversidade, os personagens foram muito bem construídos. Amani evoluiu muito no decorrer das obras, mas nesta adquiriu um brilho especial. Acho que finalmente consegui me apegar a garota, pois senti verdade em suas atitudes. Amani tem medo, mas não abaixa a cabeça. Ela sabe que seus companheiros estão ansiosos por ela, por suas decisões, mesmo que isso possa causar suas mortes. Mas mesmo assim, a cada momento em que é derrotada, Amani se reergue e tenta de novo: segue em frente, por mais difícil que possa parecer.

Os personagens secundários são igualmente cativantes. Shazad ainda é minha favorita, mas diria que Jin e Hala ganharam um espaço no meu coração. O Sultão continua tendo bons motivos, e apesar de toda sua crueldade é impossível não entender suas motivações. Ahmed, continua como um idealizador, mas agora uma nova faceta é revelada. A humanidade que está presente em cada suspiro, em cada decisão que precisa tomar.

“Era uma vez um garoto do mar que se apaixonou por uma garota do deserto.”

Mas o meu ponto favorito na trama foi a mitologia criada por Hamilton, tão bem elaborada que acredito que nunca mais vou ver o céu da mesma maneira. Os deuses, a magia e tudo que envolve a criação do mundo foram muito bem pensados. Alwyn não reduz seu mundo a fatos isolados, mas usa dos seus próprios recursos para engrandecer sua obra. A finalização é arrebatadora. Hamilton não somente apresente uma conclusão como o que acontece depois no bom estilo historiadora. O último capítulo deixa o sentimento de esperança que acalenta apesar de todo acontecido.

A Heroína da Alvorada é uma obra fantástica. Um finalização épica para uma trilogia que evoluiu a cada livro. E sempre que observar as estrelas irei pensar: Uma Nova Alvorada, Um Novo Deserto. 

 

 

 

( RESENHA ) Vox – Christina Chalder

Quando comecei a ler Vox já esperava uma leitura impactante sobre a força machista e opressora presente em nossa sociedade. Mas sinceramente, acho que não imaginava a quantidade de referências ao que vem acontecendo diariamente principalmente no Brasil. Assim sendo, muito embora Vox não tenha sido uma leitura perfeita, o livro vale a pela pela importância e necessária crítica moral. 

Título: Vox | Título Original: Vox| Autora: Christina Chalder | Editora: Arqueiro| Páginas: 320| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

VoxSinopse: Uma distopia atual, próxima dos dias de hoje, sobre empoderamento e luta feminina.
O SILÊNCIO PODE SER ENSURDECEDOR #100PALAVRAS
O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo…
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
…mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

“Houve muitas vezes em que eu quis culpá-lo, mas não posso. Os monstros não nascem assim, nunca. Eles são feitos, pedaço por pedaço e membro por membro, criações  artificiais de loucos que, como o equivocado Dr. Frankenstein, sempre acham que sabem mais.”

Desde que O Conto da Aia foi relançado em formato de série, parece ter havido um estopim da literatura como fonte de alerta social, principalmente no que diz respeito as mulheres. E não é para menos, se considerarmos as perspectivas que surgem no horizonte onde governos de esquerda e manifestações ideológicas assumem papeis de destaque aliados à uma palavra assustadora: extremismo. Cristina Dalcher, ciente do papel social da literatura e dos perigos que essa ideologia oferecem aos direitos femininos, presenteia o leitor com uma obra impactante, ou melhor, provocadora por ser completamente plausível. 

“Com seis anos, Sonia deveria ter um exército de dez mil lexemas, soldados que se reúnem, ficam em posição de sentido e obedecem as ordens dadas por seu cérebro maleável. Deveria, se os três elementos básicos (leitura, escrita e aritmética não estivessem reduzidos à um: aritmética básica. Afinal de contas, um dia minha filha deverá fazer compras e cuidar da casa, ser uma esposa dedicada e obediente. Para isso, é preciso aprender matemáticas, não soletracão. Ela não precisa de literatura. Muito menos da voz.”

Narrado em primeira pessoa, o livro se equilibra entre flashes passados e momentos presentes. Dalcher nos mostra como a sociedade evoluiu – ou melhor, retrocedeu ao ponto das mulheres perdem não somente a voz mas também os direitos civis. Passamos a ser desacreditadas, impugnadas à ignorância do sexo frágil que desumaniza o feminino.

Desumaniza, pois a mulher deixa de ser uma “pessoa” para ser vista como um “objeto” reprodutivo cujo o único dever é gerar filhos e cuidar da casa. Um pensamento arcaico, que já deveria ter sido destruído com a virada dos anos e a chegada do movimento feminista, mas que sofre com os constantes rebaixamentos: “mi-mi-mi”, dito por pessoas que não enxergam ou fecham os olhos para o vigor da luta. 

“– Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada. – Ela faz uma pausa depois de cada uma das últimas cinco palavras, com os dentes trincados.”

Assim sendo, Dalcher também é certeira ao conceber três tipos de ideologias que fundamentam a formação do novo mundo. O homem machista; a mulher consciente de seus direitos; e a mulher que descrimina uma luta ao seu favor. Assim sendo, somos levados à ver outra parcela da nossa sociedade atual que não tem coragem de levantar sua voz ou pelo menos reconhecer seus privilégios.

E é assim que Dalcher nos apresenta sua protagonista. Jean não lutava por seus direitos, sequer via o voto como necessidade social. Ela estava estagnada na sociedade deixando que os outros – a maioria extremista – decidissem seu futuro. Foi dolorido ver como Jean se comportava e enxergá-la como reflexo dos meus amigos ou parentes próximos. Isto, vem acompanhado do medo. Medo que a percepção do futuro cada vez mais próximo só aconteça quando o extremo estiver em voga, ou que a negação continue até depois disso. Pois Jean só entende o que aconteceu depois de ter perdido tudo.

“Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. Na verdade eu não fui votar.”

O sistema político da obra também foi muito bem construído. Se você pensar na ideologia civil, os pilares fomentadores da sociedade deveriam ser colocados em duas bases: a política, que rege os direitos e deveres civis; a comunidade que põe as leis em prática.

Entretanto, uma avaliação mais atenta, nota-se que a civilização é moldada quase que exclusivamente pelos fundamentos religiosos. Seja na pública ou privado, a religião define os parâmetros de comportamento onde o resultado é comumente encontrado em assuntos simples que passam a ser considerados tabus, ao passo que assuntos tabus se tornam corriqueiros. Assim, é fácil entender porque a mulher tem uma visão ameaçada. Pois no sentido religioso, o homem foi feito para comandar (o provedor) e a mulher para servir (procriadora). E assim como O Conto da Aia, será a religião que molda o universo de Cristina Dalcher de maneira arcaica e ortodoxa. 

“É difícil identificar contra o que – ou quem – estávamos protestando. Sam Myers era uma opção terrível para presidente. Jovem e inexperiente em políticas importantes, com formação militar de um ano no curso preparatório de oficiais da reserva na época de faculdade, Myers fez sua corrida presidencial apoiado em duas muletas. Bobby, seu irmão mais velho e senador de carreira, dava os conselhos práticos, um monte de bosta. A outra muleta era o reverendo Carl, fornecedor de votos, o homem a quem as pessoas ouviam. Anna Myers, bonita e popular, não prejudicava a campanha, se bem que no final a campanha a prejudicou. Muito. Nossa única esperança.”

Além disso, ainda cito como chocantes os trechos que imitavam a realidade agravando o sentimento de pertencimento ao universo inexistente. Se pensarmos que o livro foi lançado ano passado e algumas declarações polemicas saíram este ano, Dalcher quase que previu os rumos sociais de como a sociedade extrema parece começar. As manifestações sociais femininas sendo desvalorizadas. A bancada religiosa que tenta ditar o mundo através das passagens bíblicas. Os muros construídos ao redor de países ricos e politizados. O homem como peça central do silenciamento. As mulheres em diferentes estágios de aceitação.

“As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo. A de Olívia é rosa; a de Evan é azul. Você nunca os vê trocar, nunca vê o livro azul nas mãos de Olivia.”

Entretanto, alguns pontos da obra acabaram por  ficar desconexos. O romance que surgiu parece algo descartável que, por um acaso, reforça um esteriótipo ruim sobre a mulher feminista (Selecione, mas pode conter spoilers “Jean é casada e mantém um relacionamento fora do casamento o que ratifica  a mulher como “puta” quando liberta“). Além disto, o final da obra pareceu fácil de mais, onde todos conseguiram um final feliz e nem todas as repostas foram concluídas.

Mas, pesando as partes ruins e boas, ainda sim Vox foi uma leitura genial. Eu recomendo esse livro para mulheres, homens que precisem de um choque de realidade. É uma leitura necessária que nos abre os olhos para uma das possibilidades que o futuro tão próximo de nós. 

( Resenha ) O Destino de Tearling – Erika Johansen – Livro 03

O último de Erika Johansen me trouxe sentimentos dúbios. Engraçado pensar que nem sempre as séries nota máxima são as que nos marcam. Pois muito embora a finalização da série iniciada em A Rainha de Tearling não tenha sido como eu esperava, sua história foi marcante pelas certezas sobre o futuro que Johansen apresentou.

Título: O Destino de Tearling| Título Original: The Fate of the Tearling| Autora: Erika Johansen| Editora: Plataforma 21 | Páginas: 360| Ano: 2018| Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️  | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir (3).jpgSinopse: Desde que assumiu o trono de Tearling, Kelsea Glynn passou de princesa inexperiente a rainha destemida. Sua busca por justiça fez com que todo o reino mudasse com ela, mas quando os inimigos que fez ao longo do caminho ameaçam destruir seu povo, ela toma uma decisão inimaginável: se rende à Rainha Vermelha em troca de salvar Tearling. Sem as safiras, sem seus homens de confiança e trancafiada em Mortmesne, Kelsea precisa de novo recorrer ao passado, às experiências de mulheres que viveram antes dela, buscando em suas histórias a saída para uma situação impossível. O jogo está para terminar, e o futuro de Tearling será revelado de uma vez por todas. Com O Destino de Tearling, Erika Johansen traça o clímax inesquecível dessa aventura cheia de magia e emoção.

“Andava por Tear havia mais de trezentos anos e às vezes sentia que não era um homem, só uma coleção de fases, vários homens diferentes com suas próprias vidas.”

Erika Johansen tem uma narrativa extensa e bastante significativa. Muito embora em O Destino de Tearling o desenvolvimento tenha sido mais lento e mais divagador que os outros livros, a história alcançou um teto brilhante que se equilibra entre as indagações dos múltiplos narradores e o jogo político que os cerca. Mas, ironicamente, o maior problema da autora foi o enredo que mesmo sendo construído à perfeição, em seus últimos momentos parece ter sido concluído em um infarto fulminante.

Embora esse final funcione para algumas pessoas, a conclusão da trilogia para mim acabou ficando aberta de mais, mesmo que – ironicamente – não houvesse quaisquer possibilidades de maiores explicações. Entretanto, não pude deixar de notar que a autora deixou o instigante para optar por uma saída fácil permitida pelo contexto narrativo de um modo geral, mas que se perde quando focamos nas particularidades. As respostas que eu esperei não vieram, o que me deixou frustada já que as esperei no decorrer da trilogia.

“Não haveria mais magia, não mais; a realidade era aquela carroça poeirenta, deslizando inexoravelmente para a frente levando-a para longe de casa.”

Partindo dessa análise, você pode se perguntar: Mas Jessica, porque mesmo assim esse livro (a série) valeu a pena?

Bom, a resposta parece concentrada na “obra secundária” concentrada dentro do enredo principal. Na resenha de A Invasão de Tearling, eu fiz um um longo comentário sobre o mundo pré-Kelsea e as implicações dele, que foram minhas partes favoritas na trama. Nesse último volume, Erika dá continuidade ao que aconteceu após a Travessia mas dessa vez expondo os motivos que quebraram o Tearling. Neste ponto, a autora nos presenteia com um texto impecável que denota porque uma sociedade recomeçada do zero nunca conseguiria alcançar a utopia imaginada por William Tear. Algo que se aplicaria à nossa sociedade que parece acreditar que podemos começar de novo sem corrigir os erros do passado, o que seria impossível. 

Embora seja um comentário duro, o fato é que a sociedade possuí uma grande ilusão sobre o significado de política. O sonho utópico é quase uma constante entre os seres humanos que veem o sitema como uma saída para os desastres. Isto é natural devido não somente ao discurso político como ao religioso, pelos quais somos levados a acreditar que se apenas os justos vivessem e governassem sobre o planeta, teríamos uma sociedade igualitária. E apesar de entender o significado dessa questão e concordar com ela, claramente temos um problema na prática pois devemos presumir que uma sociedade não pode começar do zero e dar certo, já os vícios que acompanham os homens não serão esquecidos. Assim sendo, Johansen traça uma linha excepcional ressaltando a necessidade da cura antes da criação do novo mundo. Não somos nós capazes de decidir quem é merecedor de estar ou não em uma sociedade justa, mas sim a própria evolução da sociedade que deve alçar seus habitantes aos conhecimentos que evocam justiça e igualdade.

“O erro da utopia é presumir que tudo vai ser perfeito. A perfeição pode ser a definição, mas nós somos humanos, e mesmo para a utopia levamos nossas dores, erros, invejas e desgostos.”

Outro ponto que merece destaque são os personagens que conseguiram se tornar algo a mais na trama e carregaram bons significados para o enredo. De certa forma, não parece existir apenas um protagonista na trama, mas variados que erguem uma boa parede de personalidades que juntas erguem os pilares do livro.

O Destino de Tearling  é uma obra com defeitos, mas que cumpre seu papel em finalizar a trilogia. Eu indico essa série para momentos que vocês desejarem refletir, pois muito embora a fantasia faça parte da obra, é apenas um meio para um fim, não a construção  totalitária do enredo.

( RESENHA ) O Demologista – Livro Um

Sempre acreditei que existe um problema comigo ao ler um livro propriamente dito com o terror. Muito embora considere o gênero assustador para o cinema, certamente não consigo sentir o climax de tensão nas obras quando inseridas na literatura. Dessa forma, muito embora a religiosidade e a fantasia tenham me agradado na obra de Andrew Pyper, O Demonologista não cumpriu a missão de me deixar assustada em meio ao seu enredo. Entretanto, muito embora esse problema não tenha sido alcançado, a leitura teve mais altos que baixos e se tornou uma das minhas obras favoritas no gênero.

Título: O Demonologista| Título Original: The Demonologist | Autor: Andrew Pyper | Editora: Darkside Books | Páginas: 358 | Ano: 2015| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐  | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

514ehk26JfL._SY445_QL70_.jpgSinopse: “A maior astúcia do Diabo é nos convencer de que ele não existe”, escreveu o poeta francês Charles Baudelaire. Já a grande astúcia de Andrew Pyper, autor de O Demonologista, é fazer até o mais cético dos leitores duvidar de suas certezas. E, se possível, evitar caminhos mal-iluminados. O personagem que dá título ao best-seller internacional é David Ullman, renomado professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo – principalmente na obra-prima de John Milton, Paraíso Perdido. Para David, o Anjo Caído é apenas um ser mitológico. Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural em Veneza, David começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião. O que seria apenas um boa desculpa para tirar férias na Itália com sua filha de 12 anos se transforma em uma jornada assustadora aos recantos mais sombrios da alma. Enquanto corre contra o tempo, David precisa decifrar pistas escondidas no clássico Paraíso Perdido, e usar tudo o que aprendeu para enfrentar O Inominável e salvar sua filha do Inferno. Este é um daqueles livros que você não consegue largar até acabar a última página, ainda que vá precisar de muita coragem para seguir em frente. O Demonologista ganhou o Prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), concorrendo com autores como Stephen King. Entrou em diversas listas de melhores livros de 2013, foi finalista do Shirley Jackson Award (2013) e do Sunburst Award (2014), chegou ao topo da lista dos mais vendidos do jornal canadense Globe and Mail e foi publicado em mais de uma dezena de países.

“Um homem razoavelmente promissor, abençoado por uma sorte melhor que a maioria, mas ainda assim uma ruína, a testemunha da morte de uma criança, um suicídio violento.”

O Demonologista é um livro essencialmente pautado sobre a fé cristã. É interessante perceber que os caminhos traçados pelo autor, muito embora tenham grande referência aos poemas de John Milton, Paraíso Perdido, também são coniventes com a religião, principalmente dentro dos preceitos católicos que fluem na comunidade e invocam nossas noções sobre inferno e céu.

Entretanto o autor não cai no pragmatismo ao entregar uma obra sobre bem-e-mal, pois Pyper busca constantemente definir que o místico que nos envolve – e consequentemente o mundo -, como vindouro do crédito que ressaltamos à determinada coisa. Assim a fé deixa de ser simbólica e se torna palpável no sentido acionário da coisa: O Demônio acredita em você, mas precisa que você acredite nele para que possa agir.

Assim sendo, encontrar as referências bíblicas que dão vida ao livo, também é encontrar um pouco dos caminhos feitos pela humanidade e sua constante busca na crença em algo maior que lhe dê alento as provações da vida. Olhando de fora o significado de fé (esquecendo o que acredito sobre a mesma), posso perceber que socialmente a teologia é quase sempre erguida no que o homem acredita e deixa de acreditar, definindo também a natureza divergente das religiões existentes no planeta. Assim, se o crível é o principal do livro, se torna quase que um dos motivos da jornada do autor está na passagem de um homem descrente, para um homem com fé.

❝Não se pode permitir que o impossível leve vantagem sobre o possível. Você resiste ao medo negando-o.❞

Falando em David, acho que poucas vezes vi um personagem masculino escrito por um homem que realmente tivesse interesse em expôr um pouco do sentimentalismo do personagem. Os autores que me perdoem, mas sempre percebo um tom grosseiro nos personagens masculinos ou algo voltado quase que exclusivamente para a inteligência. Como se os sentimentos fossem o que menos importasse. Mas ao construir David, Pyper faz exigência das emoções para salientar os questionamentos do personagem. O que realmente faz todo sentido, se pararmos para pensar que David não somente tem um grande medo de acreditar, quanto grandes certezas do amor que sente pela filha; algo não palpável, mas ainda sim existente.

Assim, o autor cria um misto de emoções que convergem bem na narrativa, mas que se perdem ao chegarmos no final. Como ressaltei no inicio da resenha, Pyper não consegue causar medo, algo corroborado principalmente pelo final. O autor cria algo surpreendente sim, mas que não parece se enquadrar ao sentido da trama. Entretanto, foi anunciado que O Demonologista deve ter uma continuação, então talvez devemos esperar algumas explicações e um fechamento melhor da obra no(s) próximo(s) livros.

O Demonologista é uma leitura que eu recomendo tanto para aqueles que tem e que não tem fé. Não é uma obra doutrinadora, por assim dizer, mas sim um livro diferente do esperado que nos dá questionamentos interessantíssimos para nos fazer desde nossa capacidade à superar os desafios, até as crenças que nos trouxeram até aqui.

—  Há coisas neste mundo que a maioria de nós nunca vê, acabo por falar. —  Nós nos treinamos para não vê-las, ou tentamos fingir que não vimos se elas ocorrem. Mas há uma razão para o fato de, não importa o quão sofisticadas ou primitivas, todas as religiões terem demônios. Algumas podem ter anjos, outras não. Um Deus, deuses, Jesus, profetas — a figura de autoridade máxima varia. Há muitos tipos diferentes de criadores. Mas o destruidor sempre toma, essencialmente, a mesma forma. O progresso do homem tem sido, desde o início, frustrado por provadores, mentirosos corruptores. Criadores de pragas, loucura, desespero. A experiência demoníaca é a única verdade universal de todas as experiências religiosas do homem.❞

 

( Resenha ) Garotas de Neve e Vidro – Melissa Bashardoust

Engraçado como mesmo inicialmente não gostando de determinado gêneros, acaba gostando de algumas obras o que te leva a ir atrás de outras. Depois da leitura de As Crônicas Lunares, fiquei ansiosa para ler outras releituras que trouxessem um manifesto diferente dos clássicos infantis. Nesse interim conheci a obra Garotas de Neve e Vidro através do canal Geek Freak e me interessei pela leitura. E sinceramente, foi uma das melhores obras que li nesse começo de ano sendo um manifesto não só pelo feminismo, mas pelo amor fraternal ameaçado.

Título: Garotas de Neve e Vidro | Título Original: Girls Made of Snow and Glass | Autora: Melissa Bashardoust| Editora: Plataforma 21 | Páginas: 424 | Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

Garotas de Neve e VidroSinopse: Mina é filha de um mago cruel e sua mãe está morta. Aos dezesseis anos, seu coração nunca bateu apaixonado por ninguém – na verdade, ele jamais bateu de forma alguma, e Mina sempre achou esse silêncio normal. Ela nunca suspeitou que o pai arrancara seu coração e, no lugar, colocara um coração de vidro. Então, quando Mina chega ao castelo de Primavera Branca e vê o rei pela primeira vez, ela cria um plano: ganhar o coração dele, tornar-se rainha e finalmente conhecer o amor. A única desvantagem desse plano, ao que tudo indica, é que ela se tornará madrasta. Lynet tem quinze anos e é a imagem de sua falecida mãe. Um dia, ela descobre a verdadeira razão disso: a partir da neve, um mago a criou à semelhança da rainha morta.
Mas, apesar de ser a projeção visual perfeita da falecida rainha, Lynet preferiria ser forte e majestosa como sua madrasta, Mina. E Lynet realiza seu desejo quando o pai a torna rainha dos territórios do sul, tomando assim o lugar de Mina. A madrasta, então, começa a olhar para a enteada com algo que se assemelha ao ódio, e Lynet precisa decidir o que fazer – e quem quer ser – para ter de volta a única mãe que de fato conheceu… ou simplesmente vencer Mina de uma vez por todas. Garotas de Neve e Vidro traça a relação de duas mulheres fadadas a serem rivais desde o princípio – a não ser que redescubram a si mesmas e deem novo significado à história que lhes foi imposta.

Melissa Bashardoust possuí uma escrita fascinante. Muito embora esteja lidando com universo pautado em um conto enraizado nos primórdios da sociedade-contemporânea (Quem não conhece a Branca de Neve?), a autora influi para construir algo inteiramente novo em termos simbólicos e conceituais. O enredo transcende do irreal ao real criando um misto de emoções verdadeiras e palpáveis. Melissa não parece disposta a apenas narrar uma porção de acontecimentos que levam seus personagens a chegarem em determinado lugar, mas sim a refletir sobre assuntos diversos que recriam a vida e o tempo, que muito embora sejam a parte do nosso, refletem nosso medos, anseios e sonhos.

Suas personagens são exemplos de tal determinância. Lynet, a protagonista secundária da obra (Mina certamente é a moral), tem uma espécie de relutância em aceitar aquilo que lhe impõem. O que me fez gostar imediatamente da personagem, pois sua força é bem estruturada na maneira com o qual foi criada envolta de uma psicologia reversa: treinada para ser uma perfeita dama da sociedade, Lynet quer algo mais que se tornar uma garota de porcelana, deixando para trás as semelhanças com a mãe (antiga rainha) a fim de criar algo maior para si. Além disso, Lynet não faz o clássico garota badass que termina sendo arrogante e não poderosa. Mas a personagem cresce e muito durante a trama por saber ouvir o que aqueles ao seu redor têm a lhe dizer.

Mina, por outro lado, foi uma personagem mais desenvolvida ao seu emocional. O modo como a rainha estabelece relações com os outros personagens cresceu de modo gradativo e doloroso. Mina deseja proximidade, sobretudo amor. Entretanto, mas não consegue pelos abusos mentais mentais e verdades “absolutas” dados pelo pai: Mina tem um coração de vidro, é incapaz de amar de alguém. Dessa forma, tudo que Mina deseja é que vejam sua beleza e a amem por ela, sem nunca mostrar seu verdadeiro já que não consegue suportar a ideia de lhe odiarem. Dessa forma, a construção da personagem vai para além do que conhecemos sobre um vilão, se é que podemos classificar a madrasta nesse ponto. Mina se torna muito mais aprofundada que um esteriótipo, de modo a aprender a ter confiança em si mesma e fugir das ideias arcaicas do seu passado.

“Estava ciente demais que era um espelho que a amava, e espelhos viam apenas a superfície.” 

Minha ressalva a obra foi a inconstância da narrativa que a deixou pesada. Li poucas páginas com a impressão que estava lendo muitas. Isso se deve a carga dramática que muitas vezes se tornou excessiva na trama, passando um aspecto incongruente com a proposta.

Ademais, Garotas de Neve e Vidro está entre as melhores obras que li neste ano. A autora toca em temas importantes, mas principalmente quebra a rivalidade feminina que já não deveria existir entre nós. Se você ainda não sabe o que é sororidade – palavra tão marcante em nosso contexto atual, essa obra é um perfeito conceito disto. 

( Resenha ) A Invasão de Tearling – Érica Johansen – Livro Dois

O segundo livro da trilogia escrita por Érica Johansen atingiu um novo patamar deixando a promessa de uma grande finalização. A história evoluiu para nos deixar com água na boca e promover uma leitura inesquecível de uma série que pode entrar para as melhores que já li.

Esta resenha não terá spoiler.
Para garantir isto pule a sinopse.

Título:  A Invasão de Tearling | Título Original: The Invasion of the Tearling| Autora: Érica Johansen | Editora: Suma| Páginas:  400 | Ano:  2017|  Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️ ❤️ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir (1).jpgSinopse: Kelsea Glynn é a rainha de Tearling. Apesar de ter apenas dezenove anos e nenhuma experiência no trono, Kelsea ficou rapidamente conhecida como uma monarca justa e corajosa. No entanto, o poder é uma faca de dois gumes. Ao interromper o comércio de escravos com o reino vizinho e tentar conseguir justiça para seu povo, ela enfurece a Rainha Vermelha, uma feiticeira poderosa com um exército imbatível. Agora, à beira de ver o Tearling invadido pelas tropas inimigas, Kelsea precisa recorrer ao passado, aos tempos de antes da Travessia, para encontrar respostas que podem dar ao seu povo uma chance de sobrevivência. Mas seu tempo está acabando… Nesta continuação de A rainha de Tearling, a incrível heroína construída por Erika Johansen volta para outra aventura cheia de magia e reviravoltas.

“Eu acho que esse é o ponto crítico do mal neste mundo, Majestade; os que se sentem no direito de fazer o que quiserem, de ter o que quiserem. Pessoas assim nunca se perguntam se têm direito. Não consideram o custo para ninguém além de si mesmas.”

A narrativa de Érika Johansen é peculiar. Somos trajados por uma escrita diferenciada, cadenciada e com descrições que fundamentam e parafraseiam a trama. Mesmo se tratando de uma fantasia com uma personagem adolescente, seu texto envolve pouca ação e quase nenhum romance, onde a política se sobressai. Parece algo que George R. R. Martin teria escrito, com o diferencial que Johansen tem os pés fixados em nosso mundo – e não na alta-fantasia -, para recriar a realidade que conhecemos para torná-la algo mais.

Mas muito embora a política de Tearling seja um dos grandes focos da trama, esse livro em questão trata bem mais do passado do que da atualidade. A Invasão de Tearling vai ser pautada dentro dos episódios que levaram à construção do país e, consequentemente ao seu declínio. Assim sendo, Johansen traz explicações sobre A Travessia, fato muito falado mas pouco explicado no livro anterior, mas aonde estão alocados os princípios para a fundação da sociedade utópica idealizada por William Tear que se tornou “do passado”, distópica e tão mais próxima do que o futuro nos reserva hoje.

“Nós sempre pensamos que sabemos o que coragem quer dizer. Se eu fosse escolhido, nós dizemos, eu atenderia ao chamado. Eu não hesitaria. Até o momento que chega nossa vez, e aí percebemos que as exigências de verdadeira coragem são bem diferentes do que tínhamos imaginado, muito tempo antes, naquela manhã clara em que nos sentimos corajosos.”

O livro recomeça alguns dias depois de onde A Rainha de Tearling foi finalizado. Kelsea Glynn está lidando com as consequências de suas escolhas. É bom ressaltar que Johansen não cria uma princesa irreal, que não entende os problemas de suas ações ou que os descobre depois de ser tarde de mais. Mas sim uma personagem sábia, criada para ser rainha que coloca seu povo em primeiro lugar. Por esse motivo, diria que Kelsea é uma das minhas personagens favoritas. Sua presença e sua força são verdadeiras, e suas ideias políticas poderiam realmente dar certo.

Mas como havia aludido anteriormente, o livro tem um foco maior nos acontecimentos pré-Tearling. Na primeira obra existem algumas menções à fatos do nosso presente que haviam causado estranhamento. Como uma sociedade medieval poderia ter acesso aos livros de J. K. Rowling? A única explicação seria ser uma sociedade póstuma. De modo que a pergunta mudou para: como a nossa sociedade moderna mudou para uma sociedade medieval?

Assim, com a prerrogativa de Kelsea precisar entender o antes para enfim conquistar um futuro glorioso, somos apresentados à visões do passado pelos olhos de Lily. Foi doloroso acompanhar a história e adianto a vocês que conteúdos pesados – cenas de violência e estupro – surgiram na trama.

O mundo futurístico manifesta-se como um aprofundamento da sociedade patriarcal. Os homens literalmente dominaram o mundo através dos preceitos religiosos tornando-se donos da mulheres. Lily é casada e tem grande estabilidade econômica. Entretanto, tem que suportar as ameaças veladas do marido que ter os filhos que Lily não deseja. Tudo mundo quando ela descobre um movimento, idealizado por William Tear em busca de um horizonte melhor.

Dessa forma, entre presente e passado Joahansen insere um belo paradoxo que envolve as ações de ambas as mulheres: será que o futuro glorioso, quando liderado por alguém de visão, pode ser seguro?

“O sucesso de uma grande migração humana depende do encaixe de muitas peças individuais. Deve haver descontentamento comum status quo desagradável, talvez até intolerável. Deve haver idealismo para motivar o movimento, uma crença poderosa em uma vida melhor além do horizonte. Deve haver grande coragem diante de probabilidades terríveis. Mas, mais do que tudo, toda migração precisa de um líder, a figura indispensável e carismática que até homens e mulheres apavorados vão seguir sem pestanejar em direção ao abismo.”

A Invasão de Tearling é uma obra surpreendente, cheia de política e desafios. Eu não somente indico o livro para os fãs do gênero, como digo que para todos aqueles que precisam de um vislumbre de para onde a sociedade atual está nos levando, esta obra é um horizonte assustador.

( RESENHA ) Sete Pinturas: A Lenda do Fim do Mundo – Landulfo Almeida

Conheci o livro Sete Pinturas: A Lenda do Fim do Mundo no final do ano passado. Como sempre, ignorei a sinopse e olhei diretamente para a capa procurando algo que me chamasse atenção. Pelo título, poderia jurar que se tratava de um livro de romance. Dessa forma, para meu total espanto, quando pus os olhos na imagem de divulgação havia um homem armado, despertando o desejo de entender os aspectos visuais que invocam a obra. E posso dizer que, mesmo tendo demorado mais que o previsto para realizar leitura do livro, valeu a pena cada minuto que passei na Floresta Amazônica.

Título: Sete Pinturas: A Lenda do Fim do Mundo  | Autor: Landulfo Almeida | Publicação independente | Páginas: 408| Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤| Encontre: Skoob | Amazon

51A-bR7vaYLSinopse: Em um passado distante, estranhas pinturas rupestres são encontradas em uma caverna oculta no coração da Amazônia. Considerado sagrado pelos índios, o local está associado a uma lenda ancestral e a uma descoberta fantástica. Ao longo dos anos o segredo é mantido por uma única família e confere a ela grande poder e fortuna. Nos dias atuais, apenas dois homens, Raphael Roman Dummas e Marcos Cleanfield, têm completo conhecimento sobre a verdadeira natureza da descoberta e ambos têm interpretações diferentes sobre a lenda e suas ramificações. A morte, sem explicação científica, de milhares de pássaros e uma tentativa de assassinato alteram o equilíbrio pacífico de forças sustentado até então por Raphael e Marcos.  Dois amigos, Daniel e Érica, criados em um orfanato como irmãos, sem perceber são catapultados ao epicentro do conflito e se verão cada vez mais embrenhados em uma rede de intrigas e espionagem.  Uma mulher misteriosa, dotada de habilidades incomuns, um inimigo desconhecido, atentados, estranhos eventos naturais, paixões e morte farão com que alianças sejam criadas e destruídas. Dilemas éticos e morais, e a dificuldade de definir onde está a verdade permeiam a história e cada decisão de seus personagens. Na floresta amazônica, durante um confronto repleto de ação, uma revelação aterradora transformará a luta entre Raphael e Marcos em uma batalha pela salvação da humanidade.

Posso contar nos dedos quantos livros nacionais realmente me trouxeram leituras impactantes. Muitas dessas obras, são escondidas sob o véu do anonimato. Ou seja, os autores publicam-se de forma independente, e não importa quanto talento possuam, as editoras deixam que o dinheiro fale mais alto. Não cabe a mim julgar, mas posso dizer que Landulfo Almeida é a prova que muitas vezes talento está escondido atrás dos holofotes, ao invés de à frente deles. O autor é dono de uma escrita poderosa, relevante que criam um misto de surpresas incapazes de deixar o leitor desatento às suas páginas. Sete Pinturas é uma pérola da escrita nacional, calcada para ser inesquecível por aqueles que se deixarem ir além das obras mais famosas.

Sete Pinturas é narrado em terceira pessoa e sempre tive um afinco maior com obras das quais os autores prezam por detalhar imagens, sentimentos e consequentemente situações. Landulfo tem uma escrita detalhista, um tanto rebuscada, mas fluida que ajudam e muito na criação do cenário. Mas principalmente, preenchem as lacunas necessárias a construção do enredo, que por sua vez é muito bem intrincado. Inicialmente, parece que nada faz sentido, até que sucessivamente as peças se encaixam para surpreender o leitor  seguindo um caminho longe do esperado.

Mas o ponto alto da obra, foram os personagens e os dilemas morais compatíveis ao da sociedade atual. Os personagens são palpáveis, cheios de dualidade. Não podemos em ambos, Raphael e Marcos separadamente, mas sim nos dois juntos como parte de um todo. Ambos são carismáticos a ponto de envolverem o leitor em um jogo de mocinho e vilão. Poucas vezes, falando da literatura como um todo, vi personagens tão bem elaborados. E muito embora não sejam apenas eles os donos da trama, para mim. todo brilho e louros da obra são direcionados as suas aparições.

Sete Pinturas: A Lenda do Fim do Mundo é uma obra sensacional dotada de peculiaridades que deixaram o leitor de queixo caído. Eu recomendo bastante essa obra, não somente pelo suspense, mas por toda a brasilidade que ele apresenta.

 

( Resenha ) Perigo Para Um Inglês – Sarah MacLean – Livro Três

Desde que li o primeiro capítulo de Cilada Para Um Marquês estava ansiosa para ler a história de Seraphina Tabolt, duquesa de Haven. A mais misteriosa das Irmãs Perigosas sempre me cativou e ao conhecer seu íntimo, posso dizer que me Sera deve se tornar uma das minhas mocinhas de época favoritas.

Título: Perigo Para Um Inglês | Título Original: The Day of the Duchess| Autora: Sarah MacLean | Editora: Guttemberg | Páginas:  304 | Ano: 2018 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

51zmfv4nkhlSinopse: Malcolm Bevingstoke, o Duque de Haven, viveu os últimos três anos na solidão auto-imposta, pagando o preço por um erro, e perdendo, para sempre, um amor. Mas Haven precisa de um herdeiro, o que significa que ele deve encontrar uma esposa até o final do verão. Há apenas um problema – ele já tem uma… Depois de anos no exílio, Seraphina, a Duquesa de Haven, retorna a Londres com um único objetivo – encontrar a felicidade, livrando-se do homem que partiu seu coração. Mas o marido lhe oferece um acordo: ela poderá ter sua liberdade, assim que encontrar uma substituta. Isso significa que terá que passar o verão com o marido que ela não quer, mas que, de alguma forma, não consegue resistir. O Duque tem apenas um verão para estar com a esposa e convencê-la de que, apesar do passado, ele poderá tornar o felizes para sempre, uma realidade todos os dias…

“Sera tinha vindo para conseguir seu divórcio, e iria consegui-lo. Ela iria apagar seu passado. E escrever seu futuro. Uma vida que Malcolm não poderia lhe dar. Uma vida que ela tinha que criar para si mesma.”

Este é o melhor livro da série sem dúvidas e um dos mais vistosos de Sarah MacLean. A história elaborada é complexa e vai muito além do esperado não somente por sua premissa, como também para o gênero. Aliás, se posso afirmar uma qualidade que distingue MacLean das demais, será o dinamismo de suas obras que sempre demonstram a mulher como dona do própria destino desde os primórdios ou sua caminhada para tal. Seus livros são claramente feministas, que sempre trazem para o leitor o amor e o desejo como segundo plano. Nunca estamos falando apenas de um casal, mas da individualidade e a necessidade de estar bem consigo mesmo para funcionar ao lado de outra pessoa.

Em Perigo Para Um Inglês, Sarah MacLean só comprova isso. Seu casal principal não tem a necessidade de apaixonar e autora não faz muito esforço para mostrar como isto aconteceu. Seraphina e Malcom são apaixonados, e sua jornada buscará evidenciar a necessidade que ambos tem de perdoar a si mesmos e um ao outro. A palavra que define esse livro é superar: as perdas, as mágoas, as artimanhas, os erros.

“E se eles tivessem uma chance agora? Mas eles não tinham. Não era possível superar o passado. Superar o modo como eles usaram suas armas um contra o outro. E não havia modo de apagar a mais básica das verdades – a vida que eles nunca poderiam ter porque sua única chance tinha desaparecido na neve fria de janeiro, três anos antes.”

Malcom é aquele tipo detestavelmente metido. Imaginem vocês que MacLean abriu mão do mocinho perfeito, criando um verdadeiro membro da aristocracia londrina. Malcom é metido, antipático, se acha o dono do mundo tendo plena consciência do poder ducal. E talvez eu realmente devesse detestá-lo, mas não consigo. A questão é que Malcom representa a aristocracia de uma maneira realista. E se estamos acostumados à personagens notoriamente perfeitos, mas irreais a um contexto, a chegada de Malcom é impactante, porém que provoca uma reação questionadora.

Além desse fator, é certo dizer que se Malcom não fosse assim, suas motivações seriam inconsistentes para a trama. Criado para ser um duque, o homem sempre havia imaginado que as mulheres só o quereriam por causa do título, até conhecer Seraphina e acreditar que ela o via contrário. Mas quando percebe sua traição, Malcom assume uma posição defensiva de alguém que foi traído afastando-a de modo cruel, mas inegavelmente com razão.

A partir desse momento, quando Seraphina vai embora, Malcom percebe que pode ter cometido um erro, repensa nos significados das ações e na falta que sua mulher faz. Um sofrimento que perdura, até que Seraphina volta, e ele passa a fazer de tudo para conquistá-la. No obstante, Sera já não deseja sofrer mais.

“Nós sempre gostamos demais um do outro por instantes, Malcolm. Instantes que nunca foram suficientes para compensar o quanto nós nos magoamos.”

No outro lado da moeda, Seraphina também possuí uma personalidade difícil como resultado de suas origens. Entretanto, se Malcom foi criado para ser um rei, Sera não teve uma vida de luxos e apenas ascendeu a sociedade. As Irmãs Perigosas são assim conhecidas por “fazerem” de tudo para conquistar um bom partido. Frutos da plebe, assumem um lugar de destaque quando seu pai compra o título. Tudo isso explicado no Cilada Para Um Marquês.

O que leva Sera a cometer um grande erro do passado é justamente suas origens e as de seu título, pois não acreditava que Malcom realmente se casaria com ela um dia. Mas se Seraphina tinha medo no passado e só desejava ser feliz ao lado do homem que amava, agora ela precisa se livrar das amarras e conquistar algo que acredita que nunca conseguiria com o casamento: sua liberdade.

Seraphina literalmente cresce de uma menina inocente que acreditava em contos de fada, para uma mulher dona de tudo e todos. Não existe mais artimanhas e segredos. Existe a verdade dura do seu sofrimento e de suas perdas.

“– Você me mandou embora! – ela disse, incapaz de não elevar a voz. – Você ficou de pé na casa que poderíamos ter construído um lar, logo depois do nosso café da manhã de núpcias, e me disse para ir embora. – Quando ele abriu a boca para responder, ela percebeu que ainda não tinha terminado. – E você qual a ironia disso? O mundo todo pensa que você me arruinou antes de casar comigo, quando a verdade é que eu só fui arruinada depois. Você arruinou meus sonhos.”

Além disso, existe duas outras coisas que me fizeram dar uma bela suspirada por esse livro. As Irmãs Perigosas, todas reunidas com um objetivo em comum de fazer Malcom sofrer, o que foi bem divertido. E a mitologia que envolve toda a obra. Se você já leu Sarah MacLean deve perceber que sempre é contado a história de alguma entidade grega. Somente nessa obra, percebi como os romances de MacLean são na verdade releituras dessas histórias.

“Órion não temia a cegueira. Só temia nunca encontrá-la. Nunca ter a chance de convencê-la de que eram um para o outro. De que mortal ou não, ele podia lhe dar tudo. O Sol, a Lua, as estrelas.
— Só que ele não podia — ela sussurrou.

Malcolm hesitou ao ouvi-la, e Sera percebeu que a mão dele se crispava no cabo da tocha, que a luz tremulou nesse momento, no corredor sombrio, como se as palavras pudessem manipulá-la.
— As irmãs de Merópe procuraram Artemis, deusa dos caçadores, pensando que se ela mandasse Órion interromper sua busca, ele a escutaria. Elas juraram devoção à deusa, que foi falar com Órion.

Apesar de algumas passagens um tantinho arrastadas, Perigo Para Um Inglês tornou-se uma de minhas obras favoritas. Um romance de belas proporções que resinifica a liberdade e mostra o caminho árduo para o perdão.

( Resenha ) A Rainha de Tearling – Érika Johansen – Livro Um.

Eu conheci A Rainha de Tearling através do Bookstagram. Muito embora não estivesse nas minhas considerações para este mês ou mesmo este ano, em uma leitora conjunta com a Keth (Parabatai Books), acabei pegando o livro e fiquei surpresa com a quantidade de história que existe sobre as páginas de Érika Johansen.

Título: A Rainha de Tearling | Título Original: The Queen Of Teaeling| Autora: Érica Johansen | Editora: Novo Conceito | Páginas: 352 | Ano: 2017 | Avaliação: ⭐️ ⭐️ ⭐️ ⭐️| Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

transferir.pngSinopse: Quando a rainha Elyssa morre, a princesa Kelsea é levada para um esconderijo, onde é criada em uma cabana isolada, longe das confusões políticas e da história infeliz de Tearling, o reino que está destinada a governar. Dezenove anos depois, os membros remanescentes da Guarda da Rainha aparecem para levar a princesa de volta ao trono – mas o que Kelsea descobre ao chegar é que a fortaleza real está cercada de inimigos e nobres corruptos que adorariam vê-la morta. Mesmo sendo a rainha de direito e estando de posse da safira Tear – uma joia de imenso poder –, Kelsea nunca se sentiu mais insegura e despreparada para governar. Em seu desespero para conseguir justiça para um povo oprimido há décadas, ela desperta a fúria da Rainha Vermelha, uma poderosa feiticeira que comanda o reino vizinho, Mortmesne. Mas Kelsea é determinada e se torna cada dia mais experiente em navegar as políticas perigosas da corte. Sua jornada para salvar o reino e se tornar a rainha que deseja ser está apenas começando. Muitos mistérios, intrigas e batalhas virão antes que seu governo se torne uma lenda… ou uma tragédia.

Sempre que leio livros de fantasia ou distopia, que envolvem a criação de novos mundos seja desde o princípio seja com base na nossa sociedade atual, um dos pontos que mais me atraem é a história pré-narrativa: a história do antes que gera um agora e então um depois. À exemplo, temos pré-histórias sensacionais como em Divergente, Jogos Vorazes e A Maldição do Vencedor. Assim sendo, vocês devem imaginar minha grande felicidade ao perceber que a história de Érika Johansen envolve tanto do passado quanto do presente, para criar uma expectativa real do que se pode esperar no futuro.

A narrativa de Johansen prende do começo ao fim. Muito embora seja mais lenta, isso se deve ao fato de que a autora busca quase que constantemente dar ao leitor as bases de seu novo mundo, o que torna tudo mais fácil de ser compreendido quando chega o momento. Deve-se ressaltar que o mundo ao qual Kelsea vive é pós o nosso, muito embora percebamos uma grande regressão no que diz respeito à conhecimento e tecnologia. Eu mesma demorei a entender isso, e sem a densidade da narrativa, suponho que não teria compreendido.

Além disso, é admirável o trato que Johansen dá aos seus personagens em um sentido totalitário da história. Ninguém é cem por cento bom ou ruim, e até mesmo o poder é bem colocado entre a rainha de Tearling e quem a cerca. Essa estrutura narrativa me lembra George R. R. Martin e A Guerra dos Tronos, pois tanto Johansen quanto Martin contam a história de um reino e não de um personagem, muito embora para Tearling tenha um número reduzido de personagens em comparação.

Entretanto, o maior crédito da obra está na personagem principal e sua construção. Kelsea não é forte à princípio apesar de sua busca para ser amada pelo povo e assim se tornar digna de usar a coroa Tear muito alem do sangue. É uma personagem forte, intrigante e que trilha um grande caminho para conquista da anti-estima. E talvez isso tenha sido um grande marco na obra. A fixação que Kelsea tem com beleza que a torna diferente das protagonistas lindas e maravilhosas existem aos montes.

A Rainha de Tearling é um começo excepcional para uma trilogia que caminha para se tornar inesquecível. Um livro forte que trás ensinamentos sobre poder, mas principalmente sobre a coragem que devemos ter para alcançar aquilo que acreditamos.

( Resenha ) O Trono Lobo Gris – Cinda Williams Chima – Livro 03

O terceiro livro da série iniciada em O Rei Demônio acabou sendo uma grande decepção. Não seria uma eufemismo dizer que tudo poderia ser resumido em dois capítulos e estou estarrecida com a maneira com o qual Cinda Williams Chima deu continuidade à brilhante história que tinha em mãos.

Título:  A Coroa Escarlate | Título Original: | Autora:  Cinda Williams Chima | Editora:  Suma | Páginas: 256 | Ano: 2016 | Avaliação: ⭐ ⭐  | Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

images440867043.jpegSinopse: Han Alister pensou que já havia perdido todas as pessoas que amava, mas, ao encontrar Rebecca Morley à beira da morte nas Montanhas Espirituais, percebe que nada é mais importante do que salvá-la. O preço que paga por isso é alto, e nada poderia preparar Han para o que descobre em seguida: a garota que ele conhece pelo nome de Rebecca é, na verdade, Raisa ana’Marianna, a princesa-herdeira de Fells. Magoado e se sentindo traído, Han tem certeza de que não há futuro para ele ao lado da herdeira do trono. Além do mais, ainda nutre ódio pela família real, que permitiu que sua mãe e irmã fossem assassinadas. Enquanto isso, forças parecem se unir para impedir que Raisa suba ao trono. A cada atentado contra sua vida, ela se pergunta quanto tempo terá até que seus inimigos vençam. Com ameaças surgindo de todos os lados, Raisa só pode contar com sua inteligência e força de vontade para sobreviver – e mesmo isso pode não ser o bastante quando a força do destino é cruel e inevitável.

A narrativa de Chima é bastante curiosa. Muito embora eu não tenha gostado da maneira com o qual a evolução dessa obra se deu, ainda sim gostei bastante da escrita da autora. Em realidade, foi uma das poucas coisas que me fizeram ativas durante a leitura. A necessidade de ter sempre mais da obra colocada em prática, o que claro deixa tudo mais fácil de ser digerido.

E ironicamente, esse foi um dos meus maiores problemas com a obra. Essa sensação de necessidade costuma levar à um apice da leitura. Quando esse apice não chega, vem uma frustração e o sentimento da obra não ter sido frutífera ou algo que valesse à pena de ser. E muito embora A Coroa Escarlate tenha seus méritos, essa espera  que nunca acontece aliada o final adrupto dá a sensação de que tudo poderia ser resumido em alguns poucos capítulos.

Mais da metade do livro se passa para que Han encontre Raisa e os dois possam retornar à Fells. Como se em um círculo vicioso, voltamos ao livro dois os eventos parecem se repetir. Nesse meio tempo, acredito que a autora poderia ter expandido seu círculo narrativo pois tudo ficou bastante reduzido sem nada de relevante acontecendo. Sabe aquela cena do Dr. Doolittle quando o cachorro diz: faixa-faixa-faixa-faixa? Basicamente aqui nós temos um dejavu: floresta-cavalo-floresta-cavalo.

Quando finalmente nós conseguimos sair do círculo, a Chima conseguiu destruir meu respeito pelo seu melhor personagem. A atitude foi tão hipócrita que não consigo mensurar. Imaginem vocês que existe algo que vocês escondem pois poderia ser perigoso para os outros se eles soubessem. Quando você encontra alguém na mesma situação, o certo seria dar apoio e não julgar. E é exatamente isso o que o personagem faz fazendo-me criar um ranço tão grande que seria capaz de matá-lo.

Mas para não dizer que A Coroa Escarlate foi uma leitura perdida, o vislumbre do jogo pelo trono que está por vir no último volume deixou-me ansiosa para a continuação. Eu só espero que Chima tenha muito mais à apresentar que florestas e cavalos.