Arquivo da categoria: contos

(Conto) Pacto de Morte – Soraya Abuchaim

Olá Corujinhas. Continuando nosso especial de contos de terror para o Halloween, o eleito de hoje é para arrepiar até o último fio de cabelo. Em uma narrativa implacável, Soraya Abuchaim vai nos levar à questionar quem somos tanto em tempo presente como no passado.

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Lançado originalmente em 2017 na antologia irlandesa, Gruesome Grotesques Volume 2: Vampires, Werewolves and other Beautiful Monsters, o conto de Soraya Abuchaim nos apresenta a duas personagens marcantes. Deborah e Laila. Deborah acabou de se mudar para um casarão herdado do tio. Durante as noites, uma entidade toma seu corpo assumindo a forma de uma mulher sensual à fim de caçar homens e ter seus prazeres sanados. Deborah não faz ideia disto, pois não tem ideia nenhuma do que faz quando está possuída.

Abuchaim traz uma história traçada no comum, mas absorta de peculiaridades. Com elementos de possessão, assombração e entidades, a visão se torna única quando entendemos a entidade. O passado lhe deixou marcas profundas que não somente lhe acompanharam em outra vida, mas que desperta no leitor um tipo especial de empatia. Você consegue perceber o que está errado e ao mesmo tempo dá razão a entidade.

Deborah é uma personagem diferente do que podemos esperar. Pintora, não se trata de uma mulher solitária ou amarga. Mas uma pessoa comum capaz de sentir as necessidades da entidade, bem como as suas. Talvez o fato de ser uma artista lhe ajude nisso, pois se torna tão expressiva quanto os quadros que pinta.

Pacto de Morte é um conto horrorizador, que provoca o leitor a questionar os caminhos que a sociedade tomou e continua tomando. Vivemos em uma era onde nós mulheres somos rechaçadas pelas conquistas. Basta olhar em volta e perceber quem está no topo e os comentários relacionados à isso. Soraya Abuchaim ousou ao entregar a nós verdades que parecemos mutilados em tentar esconder.

 

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(Conto) O Vizinho Suspeito – Soraya Abuchaim

Olá Corujinhas. Dando continuidade as nossas resenhas especiais de contos do terror, hoje vou sair da temática medo e entrar no fundo psicológico do suspense. Em O Vizinho do Suspense, Soraya Abuchaim apresenta a projeção no outro.

Título: O Vizinho Suspeito Autora: Soraya Abuchaim Páginas: 06 Ano: 2015 Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐

81PDqGlwSAL._SL1500_.jpgRoger vive com sua amada esposa e na casa ao lado mora um beato. Todos os dias, Roger sai para trabalhar e observa as atitudes do beato em os olhares que parece lançar à sua mulher. Cansado disso, Roger sente que cada vez mais pode chegar à atos inimagináveis com o vizinho. Mas será mesmo que o beato é isso tudo?

Da primeira vez que vi conto de Soraya Abuchaim, eu criei para ele uma história que na verdade não existe. Então vocês devem imaginar minha surpresa a cada virada de suas poucas páginas. Soraya escreveu um conto sem por-menores realizado dentro da psicologia.

Para os psicólogos, o homem coloca em outros o que não gosta em si mesmo. Quando comecei o Vizinho Suspeito, não fazia ideia de como iria acabar, mas agora tenho certeza que não poderia ter sido mais promissor. Soraya carrega sua narrativa de pequenos significados perceptíveis a luz do emocional. Somos doentes por amor, lesionados por inveja e incapacitados de piedade. Assim, a autora descarrega um mar de emoções criado para nos fazer pensar.

O Vizinho Suspeito é uma leitura única. Dotado de reflexões, ainda nos traz um suspense de tirar o fôlego sobre perceber a si mesmo ou acreditar nas mentiras contadas à nós.

 

(Conto) Bibliopegia Antropodérmica – Soraya Abuchaim.

Olá Corujinhas. Preparadas para o terror? Na continuidade dos posts de terror com contos da autora Soraya Abuchaim, trago-lhes um exemplar do medo e do terror nas paredes escuras do centro psiquiátrico, onde um homem se aproveita da fragilidade e inocência para cometer o mais terrível ato.

Titulo: Bibliopegia Antropodérmica Autora: Soraya Abuchaim Paginas:  Ano: 2018 Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐

ap1.jpgAntes de mais nada, minha primeira sugestão é que você não procure o significado do título pois tirará um pouco da grande surpresa que envolve esse enredo. Por também não me alongarei muito com a descrição do conto que é pequeno e merece ser lido com todas suas surpresas.

O conto é ambientado em uma cidade pequena afastada das metrópoles. Lá funciona um hospital psiquiátrico. Em um a atmosfera já eleita para causar pânico, o Dr. Lamarca – médico responsável pelo sanátorio – é o foco central da narrativa ao deixar ultrapassar algumas barreiras morais e as regras de poder que envolvem sua profissão.

Não acredito que era o motivo principal da autora levantar questionamentos que saíam completamente da medicina e entrasse na práxis coletiva. Mas, até mesmo pelo momento atual do Brasil, resinifiquei seus questionamentos a política e aos posicionamentos do brasileiro como sociedade. Pois mesmo que ambas as coisas pareçam distantes, estas envolvem as mesmas coisas. Veja bem, são situações de poder que dão margem ao cometimento de crimes hediondos. Com o discurso de ódio que temos hoje e o poder democrático sendo cada dia mais ameaçado, eu li esse conto com o coração cheio de pesares. O medo está se tornando mais forte, o coletivo se acabando e as escolhas perdidas. Exatamente como é abordado nessas páginas.

Eu indico a leitura de Bibliopegia Antropodérmica, presente na antologia Insanidade, não somente pelo terror que envolve o livro, mas também e principalmente pelas questões que ele traz. Cada um de nós enxerga o mundo a sua maneira, mas não devemos colocar nossos preceitos individuais acima do bem da sociedade. No caso do conto, nossas experiências acima da vida.

a434516b0e00d0b2156319c80d58d3efSobre a antologia Insanidade:

A antologia INSANIDADE organizada pela Dark Queen Soraya Abuchaim e com prefácio de Cesar Bravo reúne inumeros contos assombrosos cheios de medo e sangue. As portas estão abertas, tem coragem de entrar em Santa Dimpna? Década de 1950. Em uma cidade esquecida no interior do Acre, norte do Brasil, há um sanatório centenário que trata pacientes portadores das mais diversas doenças mentais. Em meio à construção de pedras cinzentas e geladas, sob o sol inclemente de um verão quente e eterno, escondem-se segredos capazes de assombrar as noites mais tranquilas. Quartos transformados em celas, salas escondidas, laboratórios secretos, experimentos em humanos. O que acontece atrás daquelas paredes? Quem são os “doentes”? Quais suas histórias? Médicos impiedosos, enfermeiras maléficas, gritos que cortam a noite escura. Bem vindo ao sanatório Santa Dimpna.

( Contos ) Maligna – Soraya Abuchaim

Oii queridos. Claro que nesse mês de terror não poderíamos ficar de fora quando temos nada mais nada menos que a Rainha Dark Soraya Abuchaim como parceira. Por isso, a partir de hoje e durante as próximas quartas-feiras até o 31 de outubro, saíram para vocês resenhas dos contos selecionados desta tenebrosa escritora. O primeiro, não poderia ser mais assustador.

Título: Maligna Autora: Soraya Abuchaim Ano: 2018 Páginas: 10
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐

1-maligna-conto-de-soraya-abuchaim1Sinopse: Uma possessão, uma criança, o despertar do terror. Adélia ama sua filha Laura e faria de tudo para protege-la. Mas quando mortes estranhas começam a acontecer  em uma trilha de acasos que parece seguir Laura como uma sombra, Adélia começa a se perguntar porque os acidentes e mortes só acontecem quando a pequena está por perto. Em um enredo abrasador, Soraya Abuchaim coloca em cheque a perversidade escondida em uma criança e o que uma mãe é capaz de fazer para proteger seus segredos.

Quem me conhece sabe o quanto eu amo as histórias da Soraya Abuchaim. Muito embora terror não seja um dos meus gêneros favoritos, o suspense é e a autora sempre o coloca em suas páginas. Com uma narrativa fluída e densa como sangue, Soraya até mesmo nas menores histórias consegue nos deixar reflexivos e sedentos por muito mais.

O grande trunfo de Maligna são os personagens. Pois, muito embora o enredo não seja do mais originais (se você já viu a Orfã ou leu Menina Má pode notar certo grau de intertextualidade), as personagens principais dão o charme a mais que narrativa pede ao exemplificarem dois conceitos cruciais na sociedade mas completamente intocáveis, no sentido de serem reais mais impensáveis como verdades.

Adélia representa a mãe cega que não consegue enxergar a verdade sobre a filha. Ela é carismática e tem um discurso convincente de amor acima de qualquer suspeita. O que toda mãe deve fazer, mas claro sem tapar o sol com a peneira e sim repreender e entender as consequências dos atos de quem estamos criando para o mundo. Já Laura é a representação pura do lobo em pele de cordeiro. Somos trajados a acreditar nela, mesmo que tudo nos diga ao contrário. Através de Laura, Soraya nos mostra a perversidade que se esconde na doçura  e na inocência. O perigo de confiar nas aparências.

Maligna é uma história curta que tem muito a dizer. Se fosse elencar todas as possibilidades de discussão que esse conto tem a oferecer. Apenas posso dizer que para nosso mês das trevas, é uma dica sensacional para quem precisa enxergar além do que as aparências podem nos mostrar.

| Resenha | Sob Os Olhos do Delírio – Fábio de Andrade.

À algumas semanas, Fábio de Andrade me convidou para ler os três contos que compunham Sob Os Olhos Do Delírio. Com um sorriso de orelha à orelha, aceitei lê-los mesmo não sendo a mais fanática do gênero. O resultado foi uma leitura em três níveis diferentes sobre a composição humana. O que somos e quais são os perigos que nossa própria psiquê nos impõe.

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Título: Sob Os Olhos do Delírio.
Autor: Fábio Andrade
Páginas: 26
Ano: 2017
Avaliação: 👑 👑 👑 👑 👑

Sinopse: O que um senhor solitário assistindo uma garotinha sendo dilacerada por um demônio saltitante, um velho apaixonado e Nikolai, o enfermeiro de um hospício russo, têm em comum? Nessa antologia, Fábio De Andrade afoga seus leitores em um mar de agonia enquanto os três infelizes protagonistas só conseguem distinguir a vida da morte enquanto houver apenas tristeza em seus corpos. Dilemas de desespero, amor e horror são expostos da forma mais simples e poética da palavra, trazendo três situações em que ele deixa na mão do leitor decidir: A tristeza é causa ou consequência? Deixem que José de Alencar, o enfermeiro Nikolai e o velho marido de Lúcia lhe mostrem o real significado da melancolia em momentos que convergem no sentimento mais antigo e verdadeiro que a raça humana possui: o medo.

Narrados em primeira pessoa, os três contos conseguem ser diferentes um dos outros pela estilística que Fábio de Andrade utilizou em cada um. É visível as diferenças entre as narrativas que nos levam à imaginar cada situação de uma maneira diferente. Toma-se forma aqui a personalidade de cada personagem dando realidade aos acontecimentos. Entre emoções tão diversas, Fábio exibe por meio de três personas o medo, bem como o que o supera, mas principalmente o que o da forma.

O TRISTE FIM DE JOSÉ DE ALENCAR: Quando Andrade nos apresenta o conto, informa que o nome que dá à suas personagens são em realidade jogos de palavras, onde a sonoridade — e acrescento aqui a poética — como fundamentais para a construção da história. Enquanto lia o primeiro conto e imaginava a pessoa que o contava, pude perceber o encaixe de ambas as coisas: o personagem e a história narrada. De certa forma, tudo me remete à curiosidade que acaba por se tornar mais forte que o próprio medo. O autor busca explorar o fato — mais do que comum ao homem — que nossa curiosidade é potencialmente mais forte que o terror. Somos movidos pela necessidade de saber sem levar em consideração as consequências e principalmente à razão. De certo modo, esse conto caminha à nós com o sentido de nos mostrar os perigos de nossa própria curiosidade.

São esses momentos que refutam a ideia de que um destino premedita a vida de todos; o ser humano apenas toma decisões erradas quando as corretas são óbvias.

EM CASA: É o conto mais simples, mas nem por isso menos bom. Antes de tudo, é uma história de amor e saudade. O que nos faz estar em casa não são os confortos ou o teto, são as pessoas que nos aguardam. Alfredo, nosso herói, nos mostra isso: a verdade por detrás de quem somos e com quem queremos estar pela certza de ser aquilo que nos completa verdadeiramente.

OBMEN – 01: Fábio de Andrade ressalta na apresentação do texto que este é seu conto favorito e sem dúvidas devo concordar com ele. O conto se passa em um hospício e, obviamente, a loucura está presente em cada canto da obra. O que mais me deixa estupefata porém não essa loucura, mas o que vem com ela. Pois mais uma vez, Andrade brinca com o que acreditamos. O que nos faz presentes e seguro de nós mesmos é nossa mente e percepção do mundo. Quando isto é nos tirado, não resta nada exceto a progressão da incerteza. Mas especialmente, nos resta nada exceto um punhado de mentiras e a decisão frágil do que escolher acreditar.

Para finalizar, só posso dizer que o texto de Fábio de Andrade é o tipo que você precisa ler para entender com veracidade tudo que ele trata. Partindo de um misto de emoções, o autor te leva a pensar no que você é em todas as suas formas. O medo é parte de todos os homens pois é um estado da nossa natureza. Mas o que nos motiva à ter medo? O que nos faz ter coragem de enfrenta-lo? É isso que Andrade expõe em sua narrativa. A verdade que esta enraizada Sob Os Olhos Do Delirio: o que nós escolhemos enxergar quando todas as condições à nossa volta estão à nos enlouquecer.

| CONTO | Os Tentáculos da Escuridão

Você esta de pé dentro do quarto observando as sombras tomarem conta do ambiente. O tempo parece passar mais rápido enquanto os últimos raios de sol desaparecem e os desenhos negros escorrem pelo chão. Dali à alguns segundos o quarto mergulha em um escuridão quase total com apenas alguns raios de luar atravessando a penumbra. Você então fecha os olhos e pressiona seu corpo contra a parede. Encolhe-se escorregando lentamente até o chão colocando o queixo sobre o joelho abraçando suas pernas. A partir daí você sabe que a única coisa que pode fazer é aguardar que Aquilo venha embora esteja rezando para que seus pesadelos não ganhem vida novamente naquela noite. Você precisa de um pouco de paz. Precisa que Aquilo não venha. Precisa que nada aconteça para aparentar estar bem de modo que todos fiquem convencidos a lhe tirarem desse lugar e lhe levarem para casa.

Sem aviso prévio, um som se espalha pelo ambiente ao mesmo tempo que frio inunda o quarto, mas suas mãos esquentam e ficam suadas. Você sente que aperta os olhos ao mesmo tempo que uma lágrima solitária escorre a força pelas pálpebras fechadas. Não existe ninguém que você possa chamar, que poderá lhe socorrer quando Aquilo chegar. Você sabe disso, porque não é primeira vez que Aquilo lhe aparece. Se fosse não estaria presa naquele quarto. Sabe disso, porque quando Aquilo chegar somente você vai ouvir seus passos e sentir o cheiro que emana. Apenas você vai ver quando estiver inerte na eternidade criada a partir do instante em que ver sua aparência negra e monstruosa. Porque somente você realmente pode vê-lo pois é única pessoa que pode lhe dar o que Aquilo mais deseja.

Mas então, quando tudo parece perdido, uma coisa nova acontece. A porta do quarto se abre e um homem de cabelos castanhos aparece na moldura porta. É seu pai que está com um olhar perturbado, mas determinado dizendo que irá apanhar suas coisas pois está na hora de você sair daquele lugar não importa o que qualquer outra pessoa pense. Seu pai não lhe dá tempo para pensar e quando você se dá conta já está sob em uma cadeira de rodas com uma mochila cor de sangue colocada sobre o colo. Você não entende porque ele está te levando para o exterior sendo que tudo que já fizeram com você foi te trancar naquele lugar pois todos diziam que era ali que você deveria ficar. Para se tratar e se recuperar até que pudesse ser uma pessoa normal. Sua segurança não estava garantida fora daquele prédio. Lhe diziam isso porquê achavam que mais uma vez você tentaria machuchar a si mesma. Mas eles não entendiam que machucar à si mesma talvez fosse sua única válvula de escape.

Enquanto pensa nisto, a cadeira de rodas desliza silenciosamente sob as cerâmicas brancas. Você estranha o fato de que não há nenhuma outra pessoa viva além de você e de seu pai em qualquer parte. Os olhos passeiam de um lado para o outro procurando qualquer movimentação. Seu pai ao perceber sua reação sussurra que aquele horário todos devem estar dormindo e que os plantões só ocorrem nos andares onde à perigo. Nesse instante, você se dá conta que seu pai já planejava te tirar dali pois demonstra ter tudo planejado. Um suspiro de alívio sai dos seus lábios em um fio de esperança de que talvez você se liberte daquela prisão.

Vocês param à frente do elevador e seu pai aperta o botão que assume uma cor azulada. Ele lhe olha enquanto esperam e sorri, mas você percebe que é um sorriso estrangulado, como se estivesse o fazendo obrigação para te dar a sensação que tudo irá darto. Embora esteja nitido que seu pai está com medo dos cálculos terem saído errados e vocês serem pegos.

No instante que você sorri de volta, as portas do elevador se abrem e logo os dois estão ouvindo uma musiquinha idiota enquanto descem para o estacionamento. Mas quando as portas tornam a se abrir não é mais no estacionamento que vocês estão. E sim no primeiro andar muito embora a luz do botão indique estacionamento. Sua cadeira desliza para frente até que ela para no corredor que da à recepção. Como que em um filme, as luzes piscam e as correntes elétricas zumbem como se estivessem em mal contato. E pela segunda vez aquela noite, você fecha os olhos e sente que as sombras estão se aproximando.

Seu pai coloca a mão no seu ombro e pede que você fique calma. Ele percebe que você está com medo de algo, mas afirma que logo aquilo tudo irá passar pois o erro que ele havia cometido no passado iria ser corrigido quando ele à tirasse dali. Você balança a cabeça assentindo muito embora saiba que aquilo não é verdade. Os medos são muito maiores que os lugares onde estamos. Pois quando eles se enraizam na mente se tornam muito mais densos e muito difíceis de serem retirados de lá.

Seu pai pede que você faça silêncio e tira a mão do seu ombro. Ele volta para suas costas e empurra sua cadeira através do corredor. Com o som suave dos passos ecoando pelo ambiente fechado, você sente-se melhor e abre os olhos. Agora, os dois passaram pela recepção e estão próximos à porta de vidro automática que se encontra trancada. Chove do lado de fora, de modo lento mas denso fazendo com que uma neblina encubra parcialmente a visão que você tem do lugar. E mesmo assim é bonito observar as nuvens amarelo-esbranquiçadas em contraste com o preto do céu.

A cadeira volta à se movimentar, mas você não tira os olhos do vidro. Esta em estado de encantamento com aquela visão que parece ser ao mesmo tempo apocalíptica e paradisíaca. Observa esta beleza por vários segundos, até que um clarão rompe na escuridão e torna o vidro uma espécie de espelho. E então, ao observar a cena que se desenrolar atrás de você fica inerte de medo. Tudo paralisa-se em um segundo inexplicável onde você consegue perceber todos os detalhes na cena refletida.

No espelho, seu pai esta caído no chão com o rosto desfigurado e o pescoço cortado em uma aparência medonha enquanto o monstro está com um objeto brilhoso nas mãos com um sorriso jubilante de vitória, andando até você. Ele tem a aparência exata do seu sonho. Olhos negros, um rosto contorcido de ódio e algo mais que você não consegue identificar. Os tentáculos que formam os membros do seu corpo estão parcialmente escondido pelas sombras daz luzes exatamente como deve ser já que estas não conseguem lhe alcançar. E mesmo quando o espelho volta a ser um vidro você sabe que o monstro ainda está ali indo na sua direção.

Apesar de saber que deveria correr e se esconder você não faz isso pois tem consciência que não adiantaria muita coisa. De todo modo, o monstro lhe alcançaria. Ele é mais rápido, mais forte e facilmente te subjulgaria. Não há como fugir. Você olha para seus pés e ao mesmo tempo percebe que o sangue de seu pai chegou às rodas da sua cadeira em uma poça densa. E é por esse sangue que você mais uma vez o reflexo do monstro. Agora ele está de pé ao seu lado. Ele coloca a mão do objeto em suas costas e você sente o frio, dessa vez com um distante toque do metal. Mas ao invés de deixar-se ficar na inércia, em um lapso de coragem que nunca havia tido antes — não por sua vontade pelo menos —, você levanta os olhos e encara o monstro. Então, ao olha-lo com sua mente despida do medo você realmente o vê e, em um momento de lucidez, compreende o que nunca havia conseguido.

Enquanto, o sangue do segurança que também tem cabelos castanhos e é muito parecido ao homem que está ao seu lado escorre pelo chão, seu pai lhe encara abrindo um sorriso. Onde antes você via um herói, agora você uma criatura sem pudores e desejosa do seu corpo. Você tem acesso à antigas memórias de quando era criança e seu pai entrava em seu quarto para lhe ensinar como era brincar como se ambos fossem adultos. Lembra-se de como ficava com medo, naquelas noites frias de outubro e como conduzia-se à pensar que aquele não era seu pai. Mas sim um monstro de dedos, ou melhor, de tentáculos assombrados que tomava o lugar de seu pai e fazia-lhe todas aquelas coisas tocando-te e penetrando em seu corpo. Você então percebe que o monstro dos seus sonhos é apenas uma invenção que sua mente inventou para lhe poupar da verdade. Percebe que monstros existem sim, mas eles não são feitos de partes inumanas como os filmes fazem acreditar e nem são fruto da imaginação. Os monstros são feito de carne, osso e sangue: eles são os humanos pois estes sim são verdadeiros atrozes capazes das maiores monstruosidades.

| RESENHA | Fala Sério Mãe – Thalita Rebouças.

Oii gente tudo bom com vocês? A resenha de hoje sera do livro Fala Sério Mãe que li para a #MLi2017 e também para o Desafio Literário Cultura fazendo parte do item um livro de um escritor latino americano. Foi meu primeiro contato com a autora e já adianto que eu amei o modo com o qual ela conduziu a história que de certa forma é como uma coletânea de contos sobre a relação de mãe e filha embora tenha duas personagens específicas como centrais de todos esses contos.

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Título: Fala Sério, Mãe!
Série: Fala Sério! – Livro Um.
Autora: Thalita Rebouças.
Editora: Rocco
Ano: 2004
Avaliação: 👑 👑 👑 👑 👑
Encontre: Skoob || Amazon || Saraiva || Submarino.

 

SINOPSE; Que ser mãe é padecer no paraíso a sabedoria popular já tratou de espalhar para todo o mundo. Mas… e quanto aos filhos? Será que não vivem lá o seu quinhão de martírio nessa relação.
Em ‘Fala sério, mãe!’, a autora Thalita Rebouças, com seu bom humor, apresenta os dois lados da moeda. Ao longo do livro são descritas as queixas e alegrias da mãe coruja, e um tantinho estressada, Ângela Cristina, em relação à filha primogênita Maria de Lourdes, a Malu, assim como as teimosias e o sentimento de opressão desta em função dos cuidados, muitas vezes excessivos, de sua genitora. Para retratar os dois pontos de vista, a autora lança mão do seguinte expediente – a primeira parte do livro, da gestação de Maria de Lourdes até seus treze anos, é narrada pela mãe, que, então, passa a palavra à filha de uma forma bastante inteligente e sensível.

As vezes ao ler alguns livros tenho a sensação de que deveria ter lido ele antes pelo simples fato dele ser maravilhoso. Com Fala Sério, Mãe! foi exatamente o que senti, pois mesmo sendo uma leitura de pouquíssimas horas o livro me tocou em vários pontos que eu não sabia ser possível. E já posso adiantar que em um futuro muito distante quando for mãe, será uma releitura obrigatória para aprender um pouco mais com meu (a) filho (a).

O livro tem uma leitura fluida. Daquelas que quando percebe você já terminou. Dona de uma escrita sem rodeios e direto ao ponto, Thalita Rebouças conta como é a vida de mãe e filha com dinâmica e bom humor. Muitas vezes vi minha mãe em Ângela Cristina e me vi em Maria de Lourdes. Notar essas semelhanças foi como ver uma parte da minha adolescência representada e entender pelos olhos de mamãe um pedaço da minha infância. Nenhum livro que retratava o laço entre mãe e filha me fez sentir algo parecido. Pois eu não só me senti representada, como também entendi dois lados de uma mesma moeda que também são lados da minha vida.

Ângela Cristina e Maria de Lourdes são personagens que simplesmente parecem existir de verdade assim como o universo ao redor delas. Ângela Cristina têm aquele ar sabichão protetor de mãe que no fundo — no fundo só quer o melhor para sua filha mostrando isso a garota através de erros e acertos que nos fazem lembrar que as mães são também seres humanos. Já Maria de Lourdes, ou Malu como prefere ser chamada — por algum motivo eu prefiro o original — é uma criança-adolescente-mulher que quer se firmar como adulta e responsável. Uma criança que quer mostrar responsabilidades mesmo tão pequena; uma adolescente que quer demonstrar maturidade mesmo sendo tão nova; uma mulher que quer demonstrar independência mesmo sendo tão dependente de sua mãe, porquê, uma das verdades que aprendemos na vida mas que só nos damos conta muito depois é que não importa quantos anos temos, é para nossas mães (ou pais, ou avós, seja quem lhe representa esse papel) que nós voltamos quando precisamos de acalento e uma direção.

Ler esse livro de Thalita Rebouças foi como resgatar um pedaço da minha vida. Mas principalmente foi como perceber mais uma vez o quão importante minha mãe é na minha vida e o quão ela me ama. É difícil pôr em palavras a verdade que esse livro me trouxe e o que eu espero que traga a qualquer um que venha lê-lo. É uma leitura maravilhosa que vale muito a pena ser valorizada como um livro perfeito.

| NOTÍCIAS | Nova Antologia de Contos da Soraya Abuchaim.

Oii genteee. Bom dia, tarde ou noite. Seja a hora que for que você esteja lendo essa postagem. Tenho uma super novidade para vocês e acredito que os escritores principalmente vão amar: A Soraya Abuchaim está coordenando uma antologia de terror chamada INSANIDADE em parceria com a Editora Skull.

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SINOPSE: “Década de 1950. Em uma cidade esquecida no interior do Acre, norte do Brasil, há um sanatório centenário que trata pacientes portadores das mais diversas doenças mentais.
Em meio à construção de pedras cinzentas e geladas, sob o sol inclemente de um verão quente e eterno, escondem-se segredos capazes de assombrar as noites mais tranquilas.
Quartos transformados em celas, salas escondidas, laboratórios secretos, experimentos em humanos.
O que acontece atrás daquelas paredes? Quem são os “doentes”? Quais suas histórias?
Médicos impiedosos, enfermeiras maléficas, gritos que cortam a noite escura. Bem vindo ao sanatório Santa Dimpna.”

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Os contos a serem publicados devem seguir o gênero suspense e terror. Serão 20 contos escolhidos onde estes devem ser feitos sob a perspectiva de um médico ou de um paciente dentro do sanatório: mas o autor pode usar dos elementos que quiser para dar vida a história como tempo e locações (salas, quartos). Cada conto deve ter no máximo DEZ MIL CARACTERE e deverão ser encaminhados ao email skulleditora@gmail.com da Editora Skull com uma cópia para o email da autora organizadora soraya.abuchaim@gmail.com, Soraya Abuchaim. Ainda teremos a brilhante participação de dois nomes da nova literatura de terror nacional Glau Kemp e Jhefferson Passos.

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DETALHES DE PRAZO E PUBLICAÇÃO.

• O prazo de inscrição é de 18/07/2017 até 15/08/2017.
• Serão aceitos contos de maiores de 18 anos.
• Para as despesas de publicação, o autor selecionado terá um custo de R$ 120,00, e terá direito a cinco exemplares + brinde da editora.
• A publicação dos livros esta prevista para setembro ou outubro.

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Então gente, todos vocês que sonham em ter obras publicadas e que querem que o Brasil conheça seu trabalho não perca essa oportunidade. Vai ser uma antologia e tanto. Vocês poderiam explorar desde o mais profundo pensamento humano até a realidade das coisas. A natureza está às suas mãos. Não perca.

PARA MAIS INFORMAÇÕES: EDITORA SKULL

| CONTOS | As Três Memórias – Kethlyn Galdino & Jessica Rabelo.

“Sem que ela percebesse, o sol se ergueu outra vez, as gaivotas estavam dançando pelo céu, grasnando animadas enquanto sua comida era jogada de um lado para o outro pelo mar revolto. As ondas batiam contra as rochas, ameaçando ultrapassá-las. Nuvens cinzentas se erguiam como anéis de fumaça do lado de fora da janela, resquícios da chuva que caiu no início da manhã.”
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“Água. Chuva. Gota de lágrima. De felicidade… Lembranças no quarto, admirando a estante com espaço para os objetos literários fofos decorando os nichos que estão organizados por cores em degradê destacando aforma quadrada da disposição do trabalho apresentado. Então criou a ilusão de ótica beirando a felicidade que estava sendo trilhada em seus caminhos por uma mão amiga, que estava seguindo por uma lógica traçada pelo destino. Esse destino ainda era confuso porque sua mente não existia um motivo para o que estava acontecendo. Era tudo tao ilusório que não conseguia acreditar em sua falta de atenção por não ter absorvido os sintomas… Sentiu então aquela nostalgia ao se lembrar de uma dor latente e intensa que tomou conta de seu ser trazendo lágrimas aos seus olhos sugerindo uma mudança bem vinda que iria lhe ajudar a enxergar aquilo que ainda estava tão distante que iria lhe tirar de todo os seus devaneios e que seria uma tábua de salvação até o fim de sua vida. Ela fechou os olhos e tudo veio à tona num misto de saudade e felicidade que não conseguia expressar. Sua mão desenhou no ar um coração que diferente do seu. Um coração que ainda não tinha a mesma essência, mas que ela estava disposta a dar um jeito nisso. Custasse o que custar ela iria se tornar forte, se tornar ousada. Iria dizer o que sentia, iria preencher este coração, para que fosse mais forte belo e pudesse exalar tudo aquilo que dentro de si existia e pedia para sair do seu peito.”

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“Em uma noite qualquer existia uma música de fundo tocando e pude sentir que meus olhos queriam transbordar em lágrimas…. Foi como se aquela música fosse para mim, foi como se as luzes da Avenida que iluminava o carro estivessem direcionadas a mim para que buscasse a luz que ainda existia dentro do meu ser. ”
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Textos por Kethlyn Galdino e Jessica Rabelo.