( RESENHA ) O Ano da Graça – Kim Liggett – Livro Um

A literatura tem grande poder para trazer questões das minorias às grandes massas. Para nós, mulheres, conceitos como femininos e sororidade têm abrilhantado discussões tanto na internet como em ambientes reais. Dentro disto é comum vermos a refutação do feminismo, dos direitos adquiridos e do menosprezo a causa. E muito embora possamos afirmar que vindos dos homens não nos surpreende, o mesmo vindo das nossas semelhantes causa certo estranhamento. Não seriamos nós as primeiras a querer dar voz e aplaudir quem luta por nosso direitos? 

Nesse contexto, O Ano da Graça se mostra uma obra a frente das demais por buscar elucidar o debate sobre a importância da luta feminista, mas principalmente da união entre as mulheres para lutar contra o sistema opressor.

41WUtAetwFLTítulo: O Ano da Graça | Autora: Kim Ligget | Editora: Globo Alt | Ano 2019 | Páginas: 356
Sinopse: Tierney James vive no Condado de Garner, uma sociedade patriarcal onde as garotas aprendem desde cedo que sua existência é uma ameaça. Lá, acredita-se que jovens mulheres detêm poderes obscuros e, por isso, ao completarem dezesseis anos, são enviadas a uma espécie de campo de trabalho, no qual devem permanecer durante um ano para se “purificar”. Mas nem todas retornam vivas e as que voltam parecem diferentes. No Condado de Garner, é proibido falar sobre o Ano da Graça. Mas Tierney está pronta para subverter as regras. O Ano da Graça é uma história brilhante, assustadora e atual sobre os complexos laços formados entre mulheres e a resistência delas em uma sociedade misógina, patriarcal e desigual.
A esperança é a única coisa mais forte que o medo.
Suzanne Collins em Jogos Vorazes.

Comparado a trilogia de Suzanne Collins, não seria surpresa se Kim Liggett afirmasse que a premissa para O Ano da Graça surgiu destas palavras. O Condado de Garner na busca para afirmar seu poder patriarcal usa da violência para desestabilizar e reprimir suas mulheres. Ou melhor, ele tece um caminho ideológico para que as mulheres usem da violência contra suas semelhantes.

Em um sentido não narrativo, podemos ressaltar que um dos maiores problemas da luta feminista é a rivalidade entre as mulheres. Desde muito cedo, somos ideologicamente criadas para estar contra nosso sexo e a favor dos homens. Mulheres são sempre invejosas; são sempre más; são sempre traiçoeiras; e querem sempre derrubar umas as outras. Desse modo, as mulheres viram-se as costas e o patriarcado continua em vigor.

O questionamento da rivalidade feminina é o alicerce que Kim Liggett usa para construir O Ano da Graça. Com uma narrativa incisiva, Liggett extrapola a realidade que vivemos através da ficção. As garotas do condado de Garner representam a falta de sororidade, a supremacia ideológica do patriarcado até mesmo quando estamos sozinhas. As garotas são constantemente lembradas que não existem inimigos além delas. Elas são frágeis e precisam lutar por uma vida honesta que recolhida de um casamento. Por esse motivo, um dia antes de sua partida, são escolhidas pelos noivos. Não porque precisam ter alguém para quem voltar, mas porque os homens precisam deixar claro quem são as mais valiosas. Para que as garotas sintam inveja umas das outras

Seria de se esperar que usássemos a oportunidade para conversar, compartilhar, desabafar. Em vez disso,continuamos isoladas e mesquinhas, nos comparando umas às outras, com inveja do que não temos, consumida por desejos vazios. E quem se beneficia de toda essa competição? Os homens. Somos mais numerosas do que eles, duas mulheres para cada homem, mas aqui estamos, trancadas em uma capela, esperando que eles decidam nosso destino. Às vezes me pergunto se é esse o verdadeiro truque de mágica.

Não obstante, cada trecho da obra tem um sentido muito próximo da nossa realidade para revelar todos os seus aspectos machistas. Um bom exemplo disso é a bruxaria, aos quais, supostamente, garotas de dezesseis anos possuem e precisam se livras. Uma magia que desperta o pior nos homens deixando-os loucos por luxúria. Tal pensamento é refletido nos casos de assédio e estupro, onde a culpa do criminoso é colocada em xeque se uma mulher tiver um comportamento xis: Garotas de shorts curtos pedem para ser assediadas

Dessa forma, através de metáforas, Kim Liggett transcreve os aspectos mais misogénos do nosso mundo. Expõe o machismo e o as consequências dele, da falta das escolhas e da liberdade das mulheres que precisam acatar para proteger a si e aos seus entes queridos. Uma forma de garantir sua supremacia e manter as garotas sem esperança, para que o medo delas seja seu único guia. 

Somos chamadas de sexo frágil. Nos martelam com isso todo domingo na igreja, explicam que é tudo culpa de Eva por não ter expelido a magia quando pôde, mas ainda não entendo por que as garotas não têm escolha. Claro, temos acordos secretos, sussurros no escuro, mas por que são os garotos que decidem tudo? Até onde sei, todos temos coração. Todos temos cérebro. Só vejo algumas diferenças, e a maioria dos homens parece pensar com aquilo, de qualquer forma.

Para além dos aspectos ideológicos da obra, chama bastante atenção que Liggett não tenha se fixado em construir esteriótipos. Tierney não é uma protagonista que deseja mudar o mundo, mas que quer a liberdade para si. O mesmo pode ser dito dos vilões – tanto homens como mulheres – não são puramente cruéis, mas resquícios de algo maior. Os personagens tem nuances tanto para o bem quanto para o mal bem como o mundo a nossa volta.

Apesar de não ter gostado de algumas reviravoltas por sentir que em alguns momentos isso alongou a narrativa perdendo espaço no contexto do livro, O Ano da Graça ainda vai ser uma das melhores leituras deste ano. O poder da obra e os avisos que ela nos tem a dar são pertinentes ao nosso universo e as questões que rodeiam à nós, nossa família e aos nossos amigos, aonde deveremos nos perguntar que que mundo estamos deixando de herança as futuras gerações. 

Fitas brancas para as meninas, vermelhas para as garotas do Ano daGraça, pretas para as esposas. Inocência. Sangue. Morte.

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22 comentários sobre “( RESENHA ) O Ano da Graça – Kim Liggett – Livro Um

  1. Lá vem vc mudar meu ponto de vista e me fazer querer um livro que não me atraia em nada!
    Obrigada por resenhas como essa Jess, acabei de adicionar na lista de desejados que possivelmente passarão a frente de todos!
    Sou uma das maiores defensoras que mulheres deveriam se unir, acho que posso aprender muito com o ponto de vista dessa história

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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    1. Oi Vivi.
      Eu espero que você goste. Sinto que é um daqueles livros que você vai amar, mas apenas lerá uma vez.
      Esse livro é perfeito porque nos faz refletir sobre sororidade. Sobre lutarmos para nos livrarmos das amarras uma das outras, sem nunca esquecer que a ideologia patriarcal corrói nossa mente.
      Beijos.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Eita, parece ser um livro maravilhoso! Já perdi a conta de quanto tempo faz que li um bom livro com a temática feminista em destaque. Adoro quando autores conseguem utilizar de outras situações e metáforas nas páginas como exemplo e analogia ao que vivemos em sociedade. Fico triste em ver como algumas mulheres julgam de forma errônea o feminismo que é algo que nos trouxe tanta liberdade, mesmo que esse caminho ainda não esteja finalizado, visto que o machismo ainda é tão forte, não apenas no sexo masculino. Anotei aqui o nome do livro para procurá-lo para ler nessa quarentena. Obrigada pela dica! ❤

    Abraço,
    Parágrafo Cult | @paragrafocult

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  3. Tem autor que gosta de aumentar umas coisinhas ou outras, né? HEHEHE
    MAS nesse caso, mesmo assim foi uma grata surpresa, que legal!!
    Confesso que pela capa eu não imaginava que pudesse ser tudo isso heheheheh
    Achei interessante a premissa e qdo vc falou THG… eu já fiquei meio assim, com vontade de ler tambem hehe

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  4. OI Jessica! Eu já havia lido uma outra resenha da obra que menciona a sua importância para nós mulheres e vejo que para todos , no geral. Deve ser uma daquelas leituras que nos levam a pensar por vários dias, mesmo depois de fechar o livro. Dica anotada. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

    Curtido por 1 pessoa

  5. Oi Jéssica,
    Que resenha maravilhosa. Eu já estava louca pra conhecer esta história e fiquei ainda mais, apesar que sempre me bate certo medo, vide The Handmaid’s Tale.
    Gostei que a autora expõe os dois lados, e como mulheres acabam se tornando as próprias inimigas. Parece que dá pra tirar ótimas interpretações das entrelinhas. Adoro narrativas assim. kero

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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  6. Olá, Jessica.
    Eu comprei esse livro mas ainda não li ele. Achei muito interessante que a autora usa da história para fazer suas críticas ao machismo que infelizmente ainda está enraizado não apenas nos homens, mas nas mulheres também. Assim que der vou ler ele.

    Prefácio

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