( Resenha ) Aos Perdidos Com Amor – Brigid Kemmerer – Livro 01

Sempre tive problema para lidar com Young Adults. Embora seja adepta a romances, as questões narrativas costumam-me parecer superficiais, muito travadas na batalha que os adolescentes tem em se descobrirem dentro de um relacionamento. Poucas vezes, encontrei livros que trouxessem um arco diferenciado, focado no amadurecimento solo dos personagens, para que então eles se engajassem em namoros.

Por esse motivo, fiquei surpresa com o transcorrer de Aos Perdidos Com Amor da autora americana Brigid Kemmerer. Pois apesar de iniciar sua trama através de um clichê, a poeticidade envolta em suas páginas deixou-me sem palavras ao ser concentrada em dois jovens que precisam encontrar um caminho para sobreviver as desesperanças da vida.

Aos Perdidos Com AmorTítulo: Aos Perdidos Com Amor | Autora: Bridge Kemmerer  |Editora: Plataforma 21 | Ano: 2017 | Páginas: 250

SINOPSE: Juliet Young sempre escreveu cartas para sua mãe. Mesmo depois da morte dela, continua escrevendo – e as deixa no cemitério. É a única coisa que tem ajudado a jovem a não se perder de si mesma. Já Declan Murphy é o típico rebelde. O cara da escola de quem sempre desconfiam que fará algo errado, ou até ilegal. O que poucos sabem é que, apesar da aparência durona, ele se sente perdido. Enquanto cumpre pena prestando serviço comunitário no cemitério local, vive assombrado por fantasmas do passado. Um dia, Declan encontra uma carta anônima em um túmulo e reconhece a dor presente nela. Assim, começa a se corresponder com uma desconhecida… exceto por um detalhe: Juliet e Declan não são completos desconhecidos um do outro. Eles estudam na mesma escola, porém são tão diferentes que sempre se repeliram. E agora, sem saber, trocam os segredos mais íntimos. Mas, aos poucos, a vida real começa a interferir no universo particular das confidências. E isso pode separá-los ou uni-los para sempre. Entre cartas, e-mails e relatos, Brigid Kemmerer constrói uma trama intensa, repleta de descobertas e narrada sob o ponto de vista dos dois personagens. Uma história de amor moderna de arrebatar o coração.

Narrado em primeira pessoa, o livro é dividido entre os pontos de vista dos protagonistas. Em primeiro plano, Kemmerer conseguiu dar bastante diferença entre os pensamentos de Juliet e Declan. Apesar dos dois corroborarem a ideia central do livro, suas emoções são divergentes entre si, pautadas pelas necessidades que cada um tem à nível individual. Isso resulta em um misto de sentimentos, que – ao mesmo tempo – se completam e se distanciam.

Tal fato, pode ser profundamente observado quando relacionado a peça fundamental que norteia a obra: as escolhas que fazemos e o que elas acarretam a todos nós

Você acredita em destino? Às vezes eu queria acreditar. Queria acreditar que todos nós estamos indo em direção a… alguma coisa, e que, por alguma razão, nossos caminhos se entrelaçaram.”

Isto pode ser observado desde o início quando Declan decide responder a carta de Juliet para, de certo modo, ajudá-la a superar a perda da mãe. E a partir daí, o peso das escolhas torna-se mais nítido: quando Juliet abandona a fotografia porquê era algo que fazia com a mãe; quando Declan assume a máscara de bad boy como forma de mascarar sua dor, sua culpa, e assim acaba atraindo para si todos os estigmas sociais que até mesmo sua família perpetua.

Assim, apesar do clichê que transcorre estes pontos da história, o resultado é uma autoafirmação identitária da reflexão acerca das nossas ações com nós mesmo. A culpa, o luto, o medo e o anseio de estar sozinho só podem ser dissolvidos quando aprendemos a nos perdoar. Somos os algozes de nossas mentes; o “e se” que nos rodeia por estarmos frágeis de mais para tentar entender além do mar de incertezas que tenta nos levar para baixo. 

Esse é o problema. Não tenho a coragem dela. Nunca tive. Se ela era um fogo de artifício que ilumina o céu, eu sou um fósforo prestes a se apagar antes mesmo de conseguir fazer qualquer coisa.

A partir daí, Kemmerer institui um dos romances mais bem elaborados que tive o prazer de ler. Sem questionar, os dois jovens apenas se compreendem. Eles se desprendem de si mesmo para dar reforço um ao outro, como uma forma de salvação, mesmo que a principio não seja me benefício próprio.

Aos Perdidos Com Amor é uma leitura linda que busca nos fazer enxergar o mundo, mesmo que estejamos perdidos de mais para encontrar o caminho. Um bálsamo que nos lembra constantemente que o medo da dor existe e é parte presente de nossas vidas, embora seja de nossa total escolha a forma que lidamos com isto.

Eu nem te conheço, mas sinto que te entendo. Sinto que você me entende. E é disso que eu mais gosto nessa história.

 

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