( Resenha ) Querido Evan Hansen – Val Emmich

Minha vontade de ler Querido Evan Hansen surgiu desde o momento que soube de sua publicação no Brasil. Como uma grande fã de musicais, aprecio não somente as músicas como as histórias produzidas pela Broadway. De forma que quando surgiu a oportunidade de ler um livro inspirado em uma peça, não pude deixar passar. E acredito que apesar de algumas falhas, ainda sim será uma das leituras mais gratificantes do ano.

Querido Evan HansenTítulo: Querido Evan Hansen | Título Orginal: Dear Evan Hansen | Autor: Val Emmich, Steven Levenson, Justin Paul e Benj Pasek | Páginas: 336 | Ano: 2019 | Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ | Encontre: Goodreads | Skoob| Amazon
Sinopse: Dos criadores do premiado musical da Broadway Dear Evan Hansen, esta é uma história emocionante sobre solidão, luto, saúde mental e amizades inesperadas.
Evan Hansen sempre teve muita dificuldade de fazer amigos. Para mudar isso, decide seguir as recomendações de seu psicólogo e escrever cartas encorajadoras para si mesmo, com esperança de que seu último ano na escola seja um pouco melhor. O que não esperava era que uma das cartas fosse parar nas mãos de Connor Murphy, o aluno mais encrenqueiro da turma. Quando Connor comete suicídio e sua família encontra a carta de Evan, todos começam a pensar que os dois eram melhores amigos. Sem conseguir explicar a situação, Evan acaba refém de uma grande mentira.
Ao mesmo tempo, graças a essa (falsa) amizade, o garoto finalmente se aproxima de Zoe, a menina de seus sonhos, e passa a ser notado no colégio. No fundo, Evan sabe que não está fazendo a coisa certa, mas se está ajudando a família de Connor a superar a perda, que mal pode ter? Evan agora tem um propósito de vida. Até que a verdade ameaça vir à tona, e ele precisa enfrentar seu maior inimigo: ele mesmo.
Já esqueci o plano: Deixe as pessoas verem você.Como vou fazer isso? Andar jogando glitter por aí? Distribuir camisinhas? Simplesmente não nasci para essa história de “aproveitar o dia”.

Val Emmich tem uma escrita maravilhosa mesmo para um gênero saturado. Apesar de se tratar de um Young Adult e como tal apresentar um contexto escolar, a autora aliada aos seus parceiros consegue inserir um aspecto poético de insegurança e medo tão presentes no final da adolescência. Querido Evan Hansen é um livro sobre amadurecimento, que nos leva a refletir sobre nossos erros adolescentes e as justificativas que damos a nós mesmos para eles. 

Apaguei todas as coisas que escrevi de manhã. Toda aquela besteira sobre ser verdadeiro comigo mesmo. Só escrevi aquilo porque pensei que soava bem. É claro que soava bem. Ficção sempre soa bem, mas não ajuda muito quando a realidade vem e joga você de cara no chão. Quando enrola sua língua, prendendo as palavras na sua cabeça. Quando deixa você almoçando sozinho.
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Play list “Dear Evan Hansen” disponível em plataformas musicais.

Dentro do aspecto narrativo, fiquei feliz ao encontrar uma narrativa tão próxima a produção original. Dear Evan Hansen é um dos meus musicais favoritos e, em uma análise comparativa entre a peça e o livro, existe muita similaridade entre as letras das músicas e os acontecimentos, mas claro, com uma liberdade maior de explorar os sentimentos dos personagens, principalmente de Evan e Connor Murphy. 

Em termos de gênero, não sou das mais adeptas ao YA por conta de certa preocupação da maioria dos autores com o início dos jovens no mundo romântico. Não que considere isto ruim, apenas que depois de um tempo, acabei perdendo o interesse por uma literatura um tanto repetitiva e cansativa. Dessa forma, uma vantagem de Querido Evan Hansen é justamente seu pouco interesse nesse aspecto com perspectivas voltadas ao protagonista e aos seus sentimentos. 

Ver Evan sobre uma perspectiva crítica envolve duas vertentes. A primeira delas relacionada à sua ansiedade que se desenvolve de maneira excepcional. É palpável os medos de Evans e a maneira com o qual o rapaz lida com eles perdendo-se em um mar de medo. Com a saúde mental desestabilizada, Evan não sabe lidar com a própria vida pelo medo de como as pessoas irão reagir caso ele conte a verdade.

O pânico tem um gosto salgado. É como estar em um pequeno tanque de vidro que se enche de água. Sinto que a água está vindo do mar, por causa do sal. A água do mar entra com tudo em meu tanque. Já está na altura da minha boca e, em breve, vai cobrir meu rosto e vou me afogar. Não há como sair do tanque. Tudo que consigo fazer é esperar enquanto a água me cerca. Estico o pescoço para cima para tomar meu último fôlego. Estou ofegante. E, então, quando mal consigo prender o ar, ela para. A água recua, sempre. Nunca me afogo, mas não importa. A sensação de quase me afogar é ainda pior do que realmente me afogar. Afogar-se de verdade é paz. Quase se afogar é agonia pura.

De certa forma, em um primeiro plano, chega ser quase possível entender Evan e os motivos que o levou a cometer tantas mentiras. Entretanto, se aproveitar da morte de uma pessoa é hediondo, se tornando então impossível entender o que leva o protagonista a continuar com a farsa. 

Mas ao analisar o personagem por um viés não pessoal, encaro suas atitudes como pontos de segurança. Evan não é um protagonista perfeito, que toma decisões altruístas e que pensar sempre no melhor para outras pessoas; mas existe certo egoísmo de sua parte que exprime sua necessidade de contato humano que não tem em casa. Muito embora não se justifique suas mentiras, a personalidade dúbia de Evan se torna um ponto alto narrativo pela quebra do paradigma do gênero além de apresentar um protagonista mais realístico que comete erros e em seguida arca com as consequências.

Dessa forma, em um ponto contrário não acredito que podemos colocar Evan em uma posição heroica, mas um ante herói que precisa lidar com os efeitos de suas próprias mentiras. 

Sei muito bem como é isso. O momento de consciência depois do pior dos erros. O fogo cruzado de arrependimento, desamparo, desesperança, ódio e assim por diante. O tsunami de autopunição.

Além de Evan, outro personagem que merece destaque na obra é Connor Murphy. Com interlúdios vindo do seu espírito, Connor reage a história a medida que ela vai acontecendo. O desenrolar da sua morte invoca reflexões sobre o passado e o que levou a noite do suicídio. 

Entender Connor é entender uma versão ainda mais isolada de Evan. Não obstante, Connor não julga as atitudes do rapaz, mas a entende por ser um espelho de suas próprias necessidades. Connor era tão invisível como Evan. As pessoas viam exatamente aquilo que desejavam ver. Mas a medida que se conhece-o de maneira intimá, percebesse também sua sensibilidade e sua raiva abarcada pela incapacidade de falar com quem quer que seja sobre os problema que vem passando. 

É o que acontece quando as pessoas partem, acho. Quando elas morrem, você não precisa se lembrar de todas as coisas ruins. Elas podem fica exatamente como você quer que elas sejam para sempre. Perfeitas.

Os personagens secundários não possuem grande relevância na obra como um todo, afinal o foco está em Evan e Connor. Entretanto, vale ressaltar a relação intima de Evan com sua mãe que proporciona momentos de grande emoção. 

Querido Evan Hansen é uma leitura fácil, apesar dos temas pesados. Tem uma grande singularidade promovida por seu protagonista. Apesar da lentidão que se apodera da obra nas últimas páginas, ainda sim é uma obra que merece ser lida pelos temas que carrega. Mas principalmente por mostrar que todas as pessoas precisam de uma chance para serem vistas de verdade.

32 comentários sobre “( Resenha ) Querido Evan Hansen – Val Emmich

  1. Oi.
    Não conhecia a obra, não sou de assistir musicais, mas fiquei curiosa por conhecer a história e saber o desfecho dela. Cometer erros é do ser humano, porém isso trás consequências, gostaria de ver como o autor trabalhou esse aspecto.
    Parabéns pelo post 😍 Beijos e obrigada pela dica.

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  2. Oi Jess,

    Tenho muito interesse de ver o musical e ler este livro. Apesar de ler poucos YAs, fiquei bem interessada e curiosa. Gosto de livros assim, justamente por retratar o amadurecimento das personagens e nos proporcionar reflexões a respeito, além de apresentar assuntos bem delicados de forma leve, algo que nem todos os autores conseguem fazer com maestria, tem que ter muito cuidado com a forma de expor certas situações e assuntos. Mas me parece ser uma leitura muito boa. Adorei saber suas impressões!

    Bjokas!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com/

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ei! Tudo bem?
    Eu também sou apaixonada por musicais, tenho uma playlist no spotify com vários da broadway e uma das músicas é de Evan Hansen. Não li o livro, porque fiquei com medo de acabar com a magia da história, mas amei ler sua resenha e saber que a obra consegue abordar de forma leve temas tão sérios.
    Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Oi, Jess! Estou com muita vontade de ler esse livro desde quando descobri que ele era inspirado em um musical da Broadway. Aliás acho que descobri através de você mesmo xD Agora estou ainda mais interessada. Que resenha, hein? Eu gosto muito de ler YAs contemporâneos de tempos em tempos. Mesmo que não seja um dos meus gêneros favoritos, consigo compreender a relevância é a importância que eles proporcionam, tanto para o mercado como para minha experiência pessoal. E acredito que esse livro tem tudo o que eu mais gosto dentro do gênero, que consegue lidar com problemas tão delicados de forma sutil. Adorei a resenha, espero conseguir ler em breve. Beijos!

    http://abducaoliteraria.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

  5. Uau! Que resenha!
    Amo Broadway , amo músicais e já vi que vou amar esse livro hahaha , não sabia que eles faziam esse tipo de adaptação, então é uma agradável surpresa!

    Bisou bisou , Isa! ❤

    Curtido por 1 pessoa

  6. Olá, Jessica.
    Eu já li algumas resenhas desse livro, mas acredita que só agora entendi que ele é inspirado em um musical hehe. Eu acredito que não leria ele porque a premissa do livro não chama tanto assim a minha atenção.

    Prefácio

    Curtido por 1 pessoa

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