( Algo à Ver ) Olhos Que Condenam – Ava DuVarney

Lançado em maio na plataforma da Netflix, Olhos Que Condenam teve grande sucesso ao retratar em quatro episódios a história real d’Os Cinco de Nova York. Com uma narrativa chocante e arrebatadora, a produção de Ava DuVarney sem dúvida é uma das melhores do ano, muito embora se concentre em trazer uma visão comum a este tipo de narrativa.

Olhos que condenamTítulo: Olhos Que Condenam | Ano: 2019 | Distribuição: Netflix | Duração: 80m por episódio | Avaliação: 🎬 🎬 🎬 🎬

Os Cinco do Central Park é um dos casos mais emblemáticos envolvendo prisões indevidas devido ao pensamento racista dos Estados Unidos. Trinta anos depois, com grande força para as discussões atuais, a diretora Ava DuVernay surge com uma produção sufocante para contar a história dos meninos do Harlem. Com idades entre catorze e quinze anos, cada um viu suas esperanças de um futuro melhor serem reduzidas a pó quando a imprensa, a população e o judiciário os condenaram por um crime que não cometeram.

Situada em 1989, através dos cinco personagens principais, DuVernay tece a escravidão ainda presente na sociedade quando os meninos são considerados culpados antes mesmo de serem julgados. A justiça cega condena-os pelo lugar de onde vem, mas principalmente pela cor de sua pele.

A série inicia-se da data do ataque à corredora Patrícia Miles até a soltura dos meninos em 2002 quando verdadeiro culpado assume o crime. Em 1989, Antron McCray (Caleel Harris), Yuseff Salaam (Ethan Herisse), Raymond Santana Jr (Marquis Rodriguez) e Kevin Richardson (Asante Blackk) são levados para delegacia pela participação na arruaça feita no Central Park por um grupo de jovens na noite do ataque. O quinto integrante, Korey Wise (Jharrel Jeromel) mesmo sem ter estado lá, vai a delegacia para não deixar o amigo – Youseff – sozinho.

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A partir daí, a promotora Linda Fairstein (Felicity Huffman) que tem uma ideia fixa na cabeça de como o crime aconteceu, passa por cima da lei e modifica a história contada para fazê-los culpados do crime. Sem provas consistente, em meio ao abuso físico e psicológicos, os policiais conseguem que cada um confesse o crime usando de Korey para unificar a narrativa cheia de furos.

Nos episódios seguintes, Olhos Que Condenam destrincha as consequências. A vida dos cinco garotos é mudada completamente, suas inocências são perdidas e as tentativas de ressocialização parecem longe. Mas muito além da vida em sociedade, Ava é enfatiza os problemas psicológicos causados nas famílias – desoladas pelas perdas – e nos próprios rapazes, principalmente em Korey Wisey.

O quarto episódio é quase todo dedicado a vida do rapaz nas diversas prisões que ficou. Com a marca de abusador sexual pairando sobre sua cabeça, Korey, que na época era o único com maioridade penal, foi mandado direto para uma prisão adulta sem quaisquer perspectivas de um dia sair daquele lugar. É impressionante como Jharrel Jeromel – o único que interpreta as duas fases de vida de um integrante dos cinco – consegue passar todos os sentimentos conflitantes de Wisey. Pois. apesar dos horrores que sofre, Wisey não deixa de ser uma criança deixada para morrer pelos preconceitos sociais.

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Olhos Que Condenam é série difícil de se ver. Extrema, sufocante e bastante real – até porque é baseada em fatos –, que dá um soco no estômago a cada cena. Mas mesmo assim não posso dizer que foi perfeita.

Antes de fazer meu artigo sobre Olhos Que Condenam (ao qual tinha amado em princípio), pesquisei sobre a história dos rapazes. Em minhas pesquisas, me deparei com a seguinte fala do jornalista brasileiro Dodô Azevedo:

“São narrativas que se recusam a representar negros exclusivamente sofrendo. São olhos que condenam “Olhos que Condenam”. Narrativas exclusivamente dolorosas podem ser, na verdade, alienantes. De imediato, catarse sintética. A longo prazo, esquecimento. É por isso que não há uma história, um mito originário africano, que seja exclusivamente trágico —ou inteiramente uma festa.” (Folha de São Paulo, 2019)

Foi a partir desse momento que comecei a pensar no significado da história contada DuVernay e como ela se equipara ao “clássico” para o gênero. Produções sobre racismo têm características parecidas de impulsionar sentimento de piedade, mas nunca apresentar uma solução para além disto. Consequentemente são películas que apresentam grande sucesso social – como Histórias Cruzadas –, mas que são vistos apenas uma vez e logo são esquecidos pelos espectadores. Não que a denúncia não deva ser feita ou mesmo os horrores não devam ser mostrados, mas talvez falte em Hollywood a sugestão de algo mais; uma narrativa que apresente os negros como heróis e não somente são vítimas da sociedades.

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Em uma comparação simbólica, a segunda temporada de The Handmades Tale foi um choque para os espectadores pelas cenas de violências constantes. A falta do posicionamento, da coragem e de certa subversão tornou-se um ponto amargo em uma série que começara tão bem. Muito embora para esta não se trate de um caso real, vale ressaltar que o entretenimento quando voltado a minoria não deveria ser demonstrar apenas sofrimento, mas soluções ou cura.

Assim sendo, muito embora seja uma produção digna de todas as indicações – principalmente aos atores que tornaram a série maior –, não posso considerar-lhe a melhor do ano. É uma série necessária, dolorosa e impossível de segurar as lágrimas à certa altura. Entretanto, como uma produção elaborada para levantar questões pertinentes aos direitos humanos, é uma série plana, sem ambiguidade nos personagens destinada a um único propósito: levantar uma denúncia, mas não direcionar esforços para contestá-la. Uma única visão a partir de uma janela comum as produções do gênero.

23 Respostas para “( Algo à Ver ) Olhos Que Condenam – Ava DuVarney

  1. Pingback: ( Algo à Ver ) Missão no Mar Vermelho – | Fantástica Ficção·

  2. Olá!

    Parece ser uma ótima série, anotei a dica, mas por enquanto não tenho como assistir, com as aulas voltando, vou entrar na rotina mais insana, mas vou deixar aqui anotando para quando estiver um pouquinho livre.

    Beijos,
    Blog Diversamente

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  3. Olá Jéssica, gostei da indicação.
    Mas no momento estou dando um tempo em séries pesadas. Assisti umas que Jesuiss, pensei… Por que assisti isso? O que isso me trouxe de bom ou novo que eu já não sei? Por isso, no momento tô só no relax mesmo kkk. Quem sabe depois, bjus, ótimo ponto de vista o seu.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ei Jess,

    Adorei saber tuas impressões. Tenho muito interesse de assistir essa série. Inclusive, acompanho muitas que retratam crimes baseados em fatos reais na netflix, fico de cara com algumas coisas que vejo: negligências, descaso, incompetências, manipulação de informações….

    E concordo contigo falta mesmo mais disso>>> “uma narrativa que apresente os negros como heróis e não somente são vítimas da sociedades.”

    Em breve pretendo assistir para gente trocar mais figurinhas!<3
    Bjokas!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com/

    Curtido por 1 pessoa

  5. Ei! Tudo bem?
    Eu tenho muita vontade de assistir, mas estou esperando o momento certo, porque sei como pode ser uma série pesada.
    Achei interessante o ponto que você apresentou sobre os filmes e séries que falam sobre minorias e concordo com ele. Acredito que o que esteja acontecendo seja ou uma passagem (já que antes não se falavam sobre o assunto) e/ou um preconceito que ainda exista.
    Beijos!

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  6. Oi,tudo bem ?

    Nossa, já vi olhos que condenam no catalogo da Netflix …. não só gostei da proposta, como acho necessário trazer a tona essa realidade e impactar as pessoas. Muitos ainda vivem em uma bolha e tantos outros vão entender perfeitamente, assim como se identificar . Com toda certeza é uma série forte.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Nesse caso a proposta era mostrar a história real ne, com sua injustiça, acredito que cumpriu seu propósito.
    Uma boa história com solução e o devido mérito é Mãos Talentosas. Acho que ela mostra bem que o caminho pode ser trágico ou de sucesso, dependendo do rumo da vida que o protagonista segue. Mas particularmente com esses garotos, eles não puderam escolher, infelizmente :/

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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    • Sim Vivi. De certo modo ela se cumpre, mas eu diria que apenas em perspectiva de si mesma. Num plano maior, ela é apenas mais uma em um milhão. De modo que ao criticar a não solução é criticar o motivo que se leva a construção da série e consequentemente seu impacto.
      Beijos.

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  8. Imagino o quanto essa série é forte e o quanto vai mexer com meus sentimentos, ainda mais por ser baseada em uma história real. Fiquei com o coração apertado já por aqui.
    Excelente indicação e como gosto de temas fortes, que venha pra mexer mesmo, vou começar a assistir o mais breve. Depois te falo.

    bjs

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  9. Olá, Jessica.
    Eu assisti essa série chorando o tempo todo. E acho muito válido o ponto que você abordou sobre mostrar uma solução. Mas acredito que é um começo, porque até então é raro vermos produções como essa alcançando um publico tão grande. Porque infelizmente tem gente que ainda acha que não existe racismo.

    Prefácio

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  10. Oi Jessica, td bem?
    Entendi totalmente seu ponto na crítica e concordo! Precisamos de mais ficção em que os negros tenham um protagonismo mais “livre das amarras”, apesar de ter me emocionado muito com “Histórias Cruzadas”, por exemplo. Pensando aqui, acho que “O ódio que você semeia” traz um pouco dessa “solução”, não é um livro/filme que fica só no convencional. Vc já leu/assistiu?
    Eu ainda não assisti “Olhos que condenam”, estou me preparando psicologicamente, rs.
    Bjs
    A Colecionadora de Histórias – Blog

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    • Oii Carol.
      Sim, ja li e penso o mesmo que você. O Ódio Que Voce semeia se comporta para além da crítica e eu acho isso sensacional.
      Espero que você goste de Olhos Que Condenam. Apesar dos pesares, vale muito à pena.
      Beijos

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