( Algo à Ver ) Chernobyl – Craig Mazin

Com finalização no Brasil prevista para hoje, Chernobyl é uma daquelas séries que ninguém pode perder. Apesar de ser baseada em fatos, existe certa imprevisibilidade no enredo. E muito mais que contar uma versão dos fatos, a série nos envolvem em sentimentos que vão da pura raiva ao mais alto temor. 

Não recomendada para menores de 16 anos.

327703-conheca-a-serie-chernobyl-mais-novo-s-696x0-2Título: Chernobyl| Diretor: Craig Mazin | Elenco: Jared Harris. Emily Watson e Stellan Skarsgárd | Minutos: 68m por episódio| Ano: 2019| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤

No dia 26 de abril de 1986, o reator nuclear número quatro da Central Nuclear V. I. Lenin (conhecia como Usina Nuclear de Chernobylexplodiu provocando um incêndio que arderia por vários dias. Durante a queimada, o minério de Grafite foi lançado ao ar contaminando não somente as cidades próximas como países para além da fronteira da Rússia. Trinta e uma pessoas morreram diretamente, quinze indiretamente e mais de noventa mil¹ pessoas podem ter contraído câncer de tireoide por contaminação do ar ou água.

Nos últimos anos, foram feitas diversas produções literárias e cinematográficas sobre os sobreviventes, os julgamentos e a cidade fantasma de Pripyat. Dessa forma, talvez aqui esteja o grande mérito da nova série da HBO, que segue por um caminho inverso não focando apenas nesses pontos, mas ressaltando todo lado político que envolveu a catástrofe.

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Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) e Valery Legasov (Jared Harris). Fonte: HBO.

Estreando no Brasil com timidez, Chernobyl não era apta ao sucesso comercial devido a baixa divulgação da emissora que não parecia acreditar que a série atingiria as demandas, principalmente por não ser fantasiosa o suficiente para agradar os espectadores órfãos de Game Of Thrones. Ironicamente, em menos de um mêsl tusaornou-se a série mais bem avaliada do IMDb sendo aclamada até mesmo pela crítica especializada. Pode-se dizer que a série abriu novos horizonte para produções ao apresentar um novo tipo de público que se interessa pelas histórias reais de seu próprio mundo.

O sucesso imediato de Chernobyl pode ser creditado ao brilhantismo da direção coordenada por Craig Mazin. Sem lidar com os clichês americanos de sotaques carregados ou personalidades frias, Mazin expões fatos verídicos complementando-os com a ficção. Não podemos dizer que a série funciona como documentário, mas não podemos ignorar as pesquisas minuciosas realizadas antes de suas filmagens.

Ulana Khomyuk (Emily Watson)

Em primeiro plano, a série alude ao desastre para em seguida dar margem a politicagem com que foi tratado o assunto pelo governo da URSS. É cabível ressaltar que a então União Soviética encontrava-se cristalizada pela Guerra Fria, com políticas autoritárias provocadas pela constante “ameaça nuclear” vinda Estados Unidos. No que diz respeito aos fatos, o governo não queria abrir sua política nuclear aos olhos do mundo, assim, cortou telefones, redes de televisão e quaisquer meios de comunicação que poderiam dar ao mundo alguma dimensão do que estava acontecendo.

Chernobyl usa disto para destacar personalidades dúbias daqueles que não poderiam ir contra a nação ou contra o parlamento. Em apenas algumas falas, somos tomados por sentimentos de raiva e indignação concentrados na dificuldade de entender como as relações internacionais eram mais importantes que a vida de milhares pessoas.

David Dencik como Mikhail Gorbachev
Mikhail Gorbachev (David Dencik). Fonte: HGBO

Entretanto, a série surpreende ao não se concentrar em criar vilões, mas apresentar os heróis por trás das medidas e ações realizadas para conter a catástrofe. O trio formado por Valery Legasov (Jared Harris), Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) e Ulana Khomyuk (Emily Watson) apresentam dois lados de uma mesma moeda. Enquanto Shcherbina tem dificuldade de entender as dimensões do que está acontecendo, Khomyuk e Legasov criam os laços de empatia necessários para enlaçamento do público. A personagem de Emily Watson investiga os fatos dotada de grande sensibilidade às vítimas, ao passo que Legasov usa seus conhecimentos para tentar conter desastres derivados.

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Mas se podemos definir um dos três como protagonista da série, certamente será o personagem de Jared Harris que entrega uma atuação brilhante.

Muitas das mortes causadas pela tragédia, foram de trabalhadores responsáveis por construir o sarcófago que abafou as partículas de radiação. A série parte disto para dar vazão a uma de suas grandes questões: sabendo que isto causaria a morte de dezenas de homens, você seria capaz de mentir para que o serviço fosse feito?

Através de Legasov, Chernobyl equilibra a pergunta de maneira quase filosófica, nunca perdendo o enlace com a realidade. Entretanto,  a resposta não virá de forma torna clara, mas subtendida na interpretação de cada espectador.

Chernobyl é nossa própria história contada para que nos faça refletir. Humanizando uma das maiores catástrofes do planeta, a série entra para o hall das melhores produções do ano ao não apresentar vilões, mas falhas humanas que poderiam ter acontecido por qualquer pessoa que vê a ganância e majestade como principal ferramenta de sucesso.

1. Fonte: https://www.greenpeace.org/brasil/publicacoes/novo-estudo-do-greenpeace-revela-que-numero-de-mortes-por-cancer-de-chernobyl-pode-chegar-a-93-mil/