(Resenha) O Aliciador – Donato Carissi

Em meu primeiro contato com o autor italiano Donato Carissi, a apresentação vem através de um jogo onde o mais cruel dos homens está dando as cartas. Para entender a mente do criminoso, precisamos nos despir de qualquer humanidade e enxergar – através dessas páginas – as escolhas que os seres-humanos fazem quando não estão sendo observados.

Título: O Aliciador | Título original:  Il Suggeritore| Série: Mila Vasquez| Autor: Donato Carissi| Editora: Record| Páginas: 434| Ano: 2009| Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐  | Encontre: SkoobSaraivaAmazon

22029588Sinopse: O criminologista Goran Gavila e a equipe de homicídios enfrentam um caso perturbador, que exige toda a habilidade dos policiais do Esquadrão Especial: seis braços direitos são desenterrados em um bosque, cinco meninas entre 9 e 13 anos estão desaparecidas. Liderada por Gavila e pelo Capitão Roche, a equipe segue as pistas do caso e, um a um, os corpos das garotinhas emergem, deixando evidente que o culpado é um serial killer cuja frieza e ferocidade não têm limites. As esperanças de que uma sexta menina esteja viva provocam uma corrida contra o tempo, mas as pistas, em vez de levarem a equipe ao culpado, revelam-se parte de um plano friamente arquitetado pela mente cruel e brilhante do assassino, que parece estar sempre um passo à frente. Em cada cena de crime, novas evidências levam os detetives a acreditar que não se trata de apenas um, mas de vários assassinos, agindo em conjunto. É quando se junta a eles a investigadora Mila Vasquez, especialista em casos de sequestro.Aos poucos a polícia descobre que seu alvo é capaz de assumir as aparências mais variadas, colocando-os à prova incessantemente. Nesse caso, cada vez que o mal vem à luz, traz consigo um agouro, obrigando os detetives a enfrentar sobretudo a escuridão que carregam dentro de si. A investigação se transforma em um jogo de pesadelos habilmente velados, um desafio contínuo.

Mila acreditava que cada um tem seu caminho. Um caminho que leva para casa, para as pessoas mais caras, as quais somos mais ligados. Em geral, o caminho é sempre esse, aprendido na infância, e cada um o segue a vida inteira. Mas algumas vezes esse caminho se quebra. Às vezes recomeça em outro lugar ou, depois de desenhar um percurso tortuoso, retorna ao ponto em que tinha se quebrado. Ou fica em suspenso. As vezes, porém, ele se perde na escuridão.

Donato Carissi tem um narrativa que causa estranheza em seus prós e contras. Apesar de ter gostado da escrita do autor no modo com qual ele expunha os detalhes técnicos do livro em todas suas gamas factuais, o decorrer da narrativa em ganchos reduzia o impacto destes pois constantemente quebrava o ritmo da leitura. Existem autores que sabem trabalhar com narrativas em diversos pontos de vista, mas não posso dizer que Carissi se enquadra nesse time. As cenas colocadas entre os capítulos e dentro deles, muitas vezes não faziam sentido na complexidade da obra e me deixavam com um ponto de interrogação enfeitado na testa.

Outro problema que tive com a narrativa foi a mecanicidade que tudo pareceu transcorrer. Sempre gostei de obras que sejam bem detalhadas, mas isso exige certo grau de sentimentalismo se não acaba por se tornar maçante. Muito embora o livro em si seja dotado de fatos que deixam a história mais próxima do real (o que eu achei o máximo), o modo com o qual eles transcorreram foi pasmem. Mesmo tendo terminado o livro no período de dois dias, admito que foi com bastante esforço para manter a concentração e descobrir a verdade por trás da brutalidade dos assassinatos contra crianças inocentes.

As crianças não veem a morte, porque sua  vida dura um dia, da hora em que acordam a hora em que vão dormir.

Os personagens são bem construídos apesar de me revelarem pouca empatia. Mila, apelido de Maria Helena, é uma policial forte que tem traços perturbadores a revelar. Corajosa, tem disposição a fazer de tudo para encontrar os desaparecidos e apesar de aparentar grande quantidade presunção, não vejo isso como um problema já que esse é um aspecto importante para quem busca fazer extraordinários. Apesar disso, assim como com Goran, Stern, Bóris e Sarah (os outros componentes da equipe) não posso dizer que torci por ela. A falta de emoção do autor comprometeu meu grau de aproximação. O robotismo não me fez ver cada um deles reais.

O que me agradou no livro contudo, foi a permissão que o autor nos deu de imaginar as coisas a medida que a equipe avançava no caso. Por estarmos falando de serial killer, no gênero é mais fácil receber as coisas mastigadas. Somos levados a ver tudo através de binóculos: vemos como se estivéssemos de perto, mas estamos separados por um mar de distância. Aqui, ao contrário, podemos perceber que o autor vai inserindo perguntas que serão respondidas mais à frente, mas que abrem um espaço para que o leitor tente encontrar suas respostas tornando o livro desafiante.

Outro ponto que achei positivo, foi a maneira com o qual as peças foram colocadas. O livro tem vários pontos desencadeadores de ações, a começar pelas meninas sequestradas e mortas que estão sempre a apontar mistérios escondidos. Contudo, como nem tudo são flores, o final acabou ficando mau costurado apesar da crescente perfeita. Donato pareceu não saber como terminar e jogou duas de três peças a grande esmero inserindo dois outros contextos que pelo tom da obra ficaram perdidos. Apesar de que um grande segredo revelado ao fim tenha sido bastante forte e verossímil, o modo com o qual o assassino foi capturado e o epílogo deixaram a desejar pois despedaçou o que poderia ser um fim magnífico. A lição do livro fica, mas tudo mais que poderíamos manter se tornou obsoleto.

Mais do que os sucessos, são as tragédias humanas que unem  as pessoas

Deixando de lado os problemas de narrativa e finalização, posso ressaltar que a prerrogativa do livro é pesada mas bastante válida. Muito embora o título revele pelo menos 40% da obra, é interessante notar como Carissi constrói o Aliciador para que este tenha um papel ativo em sua história mesmo estando tão “longe”. Palavras são fortes e podem despertar os mais terríveis sentimentos. O ser humano contudo não é fraco, mas precisa de empurrãozinho para ceder ao lado obscuro da natureza. O que somos capazes de fazer quando ninguém está olhando define quem somos. Pois é a sensação de poder, de nunca sermos descobertos, é o que nos faz atroz.

O Aliciador é um livro com falhas, mas que vale a pena pelo conceito abordado por Donato Carissi em suas mais de quatrocentas páginas. Todos homens são capazes de escolher e todos podemos ser influenciáveis, mas o que nos define é a capacidade de dizer não para todo mal que causamos no mundo.