( Resenha ) O Jardim das Borboletas – Dot Hutchison

Esqueça quem você é e entre no Jardim das Borboletas. Esqueça suas convicções e esteja preparado para choque de um relato sobre a face mais hedionda e psicótica da humanidade.

O Jardim das BorboletasTítulo: O Jardim das Borboletas
Título original: The Butterfly Garden
Série: The Colector #01
Autora: Dot Hutchison
Editora: Planeta
Páginas: 304
Ano: 2017
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ❤
Encontre: Skoob | Amazon | Saraiva

Sinopse: Quando a beleza das borboletas encontra os horrores de uma mente doentia. Um thriller arrebatador, fenômeno no mundo inteiro. Perto de uma mansão isolada, existia um maravilhoso jardim. Nele, cresciam flores exuberantes, árvores frondosas… e uma coleção de preciosas “borboletas”: jovens mulheres, sequestradas e mantidas em cativeiro por um homem brutal e obsessivo, conhecido apenas como Jardineiro. Cada uma delas passa a ser identificada pelo nome de uma espécie de borboleta, tendo, então, a pele marcada com um complexo desenho correspondente. Quando o jardim é finalmente descoberto, uma das sobreviventes é levada às autoridades, a fim de prestar seu depoimento. A tarefa de juntar as peças desse complexo quebra-cabeça cabe aos agentes do FBI Victor Hanoverian e Brandon Eddinson, nesse que se tornará o mais chocante e perturbador caso de suas vidas. Mas Maya, a enigmática garota responsável por contar essa história, não parece disposta a esclarecer todos os sórdidos detalhes de sua experiência. Em meio a velhos ressentimentos, novos traumas e o terrível relato sobre um homem obcecado pela beleza, os agentes ficam com a sensação de que ela esconde algum grande segredo.

Mas, quando eu adormecesse, o pesadelo ainda estaria lá. Quando eu acordasse, o pesadelo ainda estaria lá. Todos os dias, durante três anos e meio, o pesadelo sempre, sempre estaria lá, e não havia conforto para isso. Mas, por algumas horas, eu podia fingir. Eu podia ser a menininha dos fósforos e jogar minhas ilusões contra a parede, perdida no calor até a luz diminuir e me levar de volta ao Jardim.

Uma das vantagens de se começar obras sem saber absolutamente nada sobre elas é a falta de expectativa. Eu já disse várias vezes em outras resenhas como me decepcionei com livros que pareciam ser uma coisa na sinopse e no fim das contas foram outra, não por serem totalmente diferentes, mas por apresentarem divergências sutis que acabam por contribuir para a decepção. Quando comecei O Jardim das Borboletas eu não tinha noção do que poderia esperar. Tudo na capa apresenta certa dualidade que se enquadraria em vários gêneros. Se eu soubesse que se tratava de um suspense teria formulado milhares de suposições. Mas ao em vez disso, fui presenteada com surpresas dadas pela ignorância. E assim o livro de Dot Hutchison me prendeu por sua sagacidade dramática e pela maneira com o qual os personagens foram desenvolvidos de modo a serem implacavelmente doentios e realistas.

Você parece sempre imaginar que fui uma criança perdida, como se tivessem me largado na rua como lixo. Mas as crianças como eu nunca estão perdidas. Talvez sejamos as únicas que nunca se perdem. Sempre sabemos exatamente quem somos e aonde podemos ir. E aonde não podemos ir, é claro.

A história é contada de forma branda não possuindo momentos de tensão caracteristicos de um thriller. Contudo  não considero isso algo ruim porque pela vista geral da obra não era estritamente necessário. O enredo é contado de modo póstumo ao fato fazendo com o que o leitor já entre na leitura sabendo que de modo que as cativeiras sobreviveram. Baseado nisso, posso afirmar que a questão do livro não é a fuga, mas a vida das Borboletas no Jardim. Por isso não espere nada eletrizante por conta de uma tensão factual, mas sim por causa de uma tensão sentimental.

Eu estava lá dentro, sem chance de escapar, sem ter como voltar à vida que conhecia, então por que me apegaria a isso? Por que causar a mim mesma mais dor lembrando-me daquilo que não possuía mais?

A configuração da narrativa é feita por duas pessoas em dois tempos  verbais. No presente, não temos o domínio da emoção nas falas de VictorEddison (os investigadores), pois, apesar dos homens verem reflexos de suas histórias na  da adolescente, ambos se privam de expressar sentimentos pela necessidade da realização de seu um trabalho para descobrir qual segredo a entrevistada esconde. Assim, o relato presente é uma condução mais aberta da narrativa. São passagens rápidas que ajudam o leitor a entender por meio de explicações mais diretas o que estava acontecendo de verdade. Quando a narrativa corta para o passado, Maya conta como era sua vida antes e depois de parar no cativeiro. Neste ponto sim temos o emaranhamento de sentimentos à contagem da história. Maya não se torna apenas a locutora dos fatos, mas também uma janela entre a mente das garotas sequestradas e o homem que havia feito isso. Através desses dois pontos contrários a autora amplia o poder da narrativa. Ao mesmo tempo em que Hutchison te bombardeia com emoções ela também te dá tempo para processar o significado daquilo causando um efeito devastador.

É uma forma de pragmatismo, acho eu. Pessoas carinhosas e amorosas que precisam desesperadamente da aprovação dos outros acabam sendo vítimas da síndrome de Estocolmo, já o resto de nós se rende ao pragmatismo. Por já ter vivenciado as duas possibilidades, sou a favor do pragmatismo.

A originalidade da história concentra-se nos personagens que a autora criou de modo tão crível. Antes de ler O Jardim das Borboletas nunca tinha tido contato com a mente de uma vítima de um psicopata de maneira tão clara e pavorosa em um sentido mais humanistico da coisa. Quando dá vida a protagonista, a autora se preocupa em explorar todos os antes e todos os depois que levaram Maya a se tornar tão introspectiva ao mesmo tempo tão corajosa. De certo modo, Hutchison parece criar duas histórias ao mesmo tempo com a finalidade de fortalecer sua heroína e fazer com que ela passasse pelo cativeiro de modo senil. Qualquer outra garota que não tivesse o passado tão conturbado teria se desesperado, mas a experiência faz com que Maya assuma o controle de sua mente. Assim a narrativa permanece lúdica e plausível e a protoganista torna-se inesquecível.

Algumas pessoas desabam e nunca mais levantam. Outras recolhem os próprios cacos e os colam com as partes afiadas viradas para fora.

Assim  como a principal, os personagens secundários também brilham dentro da narrativa. É interessante perceber como Hutchison não desperdiçou nomes e descrições  se delimitando a criar tipos consistentes que contribuem para a evolução do enredo. As outras Borboletas, por exemplo, são muitas mulheres embora grande parte delas seja apenas um borrão em uma multidão. A autora só deixa em contato com o leitor aquelas que possuem relevância para o enredo. Eu diria que aqui fica um dos pontos mais altos da narrativa pois Hutchison emoldura seu jardim com mulheres que variam suas emoções desde a raiva e o desespero à alegria e submisão. Cada qual lutando da melhor maneira que pode para se sobreviver aos horrores daquele lugar.

A beleza perde o sentido quando nos cerca em grande abundância.

Entre os personagens secundários que mais merecem destaque estão o Jardineiro e seus filhos que apresentaram personalidadades bastante controversas auxiliando o leitor a ter uma visão geral dos tipos existentes de sequestradores. Começando pelo Jardineiro, eu diria que ele é o mais assustador dos três. Isto porque é carinhoso com “suas” Borboletas e parece realmente acreditar que as garotas, quando transformadas  nos espécimes através das tatuagens, passam a ser sua propriedade. Mais que isso, ele acredita que está salvando-as do esquecimento e lhe dando uma vida perfeita. Cuida delas exatamente como quem cuida de animais. Parece gostar de seus espíritos diferentes, percebe a beleza delas, mas nunca as deixa sair do cativeiro. O Jardineiro é um maníaco obsessivo, a representação de um maníaco obsesseivo cheio de sentimentos loucos e doentios.

A covardia pode ser um estado natural nosso, mas ainda assim é uma escolha.

Os filhos do Jardineiro, Avery e Desmond são opostos. Avery é um psicopata verdadeiro não apresentando empatia alguma pelas garotas. Suas ações são feitas para provocar dor porque ele simplesmente gosta disso. Gosta de sentir o medo que emana de seus poros e da submissão que vem com ela. Ja Desmond é apenas um covarde que não consegue ir contra os pais. De certo modo, o rapaz representa uma parcela da sociedade que vê o que está errado mas não tem coragem suficiente para dizer alguma coisa. Desmond foi sem sombras de dúvida o vilão que eu mais odiei pela sua impotência covarde. Da tríade, é o pior porque é o único que apresenta sanidade intacta mas que por conta de seu egoísmo só serve a si mesmo.

Não fazer uma escolha é uma escolha. Neutralidade é um conceito, não um fato. Ninguém vive a vida desse jeito, não realmente.

A única coisa que me incomodou no livro foi a reviravolta final. Não que tenha sido ruim, mas achei um tantinho inverossímel de mais me dando a sensação de estar faltando peças para que o conjunto fizesse sentido. Talvez possa ser explicado por conta da protagonista que tentou esconder o fato durante toda a narrativa. Contudo, mesmo sabendo disso, não consegui entender as motivações de modo que acabei perdendo a sintonia com a obra: o encanto do poderia ser verdade foi arruinado naquele momento.

Não é bem assim. Digamos que eu seja mais uma criança esquecida e negligenciada do que problemática. Sou o ursinho de pelúcia acumulando poeira embaixo da cama, não o soldado de uma perna só.

Contudo, vendo pelo aspecto geral da obra e de tudo que ela me proporcionou, afirmo que O Jardim das Borboletas vai acabar se tornando uma das melhores leituras do ano. Dotado de profundas reflexões e de uma narrativa espetacular, o livro de Dot Hutchison é original e cativante ao seu modo doentio. Ao aproximar-se dessa obra, você verá o horror como nunca viu antes. Se serve de sugestão, esqueça tudo que você já leu, dispa-se de quem é e não vá atrás de explicações simplórias. Apenas observe esse mundo doentio não trazendo para a leitura nada de fora dele.

 

 

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27 comentários em “( Resenha ) O Jardim das Borboletas – Dot Hutchison”

  1. Nossa Jess, fiquei tensa só com sua resenha!
    Nem consigo imagina como possa ser esse trabalho psicológico dos personagens, e confesso que uma parte de mim quer se jogar nessa leitura mesmo com todos os horrores só pra descobrir isso.
    Acredito que tb vou detestar o filho egoísta que apesar de “normal” não consegue ir contra a maldade.

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Jess, tudo bem? Que resenha mais maravilhosa! Eu não conhecia esse livro mas, eu amo thrillers e tudo que envolve suspense e mistério chamam muito a minha atenção. Eu já li vários thrillers policiais mas, não me lembro de nenhum que desse nome de borboletas para as vitimas, já estou curiosa para saber mais sobre o livro e já estou procurando uma edição para comprar..rs!

    Beijos e Abraços VIVI
    Resenhas da Viviane

    Curtido por 1 pessoa

  3. Oiii Jess, Que resenha maravilhosa. Ta aí um livro que estou louca para ler. Gostei da premissa e a forma que o autor desenvolveu essa trama, só pela sua resenha já notei as diferenças da narrativa e sua construção diante de outros Thrillers, o que me deixou super curiosa e mega interessada.

    Deve ser uma leitura intensa, porque são personagens que estão numa situação perturbadora, estar em cativeiro rodeada por psicopatas não deve ser nada legal e acredito (pelo que entendi) que o autora deve passar toda a aflição, angustia e sofrimento dessas personagens para o leitor.

    Também não sou de ler sinopses, na verdade leio mais resenhas mesmo, justamente para saber a opinião das pessoas, pois às vezes (a maioria das vezes) as sinopses fogem da proposta do livro ou dão spoilers, e siiiiiim, concordo contigo, melhor coisa é iniciar um livro sem nenhuma expectativa e ficar de cara com a escrita e história criada pelo autor.

    Tipo quero pra hoje esse livro!!!
    NECESSITOOOOOOOOO!!!
    Amei!
    Bjokas da Elo!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com.br/

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  4. Oi Jess! Uau, que resenha! Estou pra ler esse livro, quem sabe ainda esse ano. E se antes já estava empolgada para ler, agora a empolgação dobrou. Não sou de ler muito desse gênero, mas tudo o que ouvi sobre esse livro me chamou atenção, então fiquei curiosa. Sobre tudo o que você disse, gostei mais de saber sobre os personagens, e a quantidade deles que têm algum destaque na trama. E parece uma característica comum do gênero ter esse tipo de problema com finais, né? Enfim, adorei a resenha, parabéns. Vou dar um jeitinho de encaixar essa leitura nas próximas tbrs hahaha. Beijos.

    http://abducaoliteraria.com.br

    Curtido por 1 pessoa

  5. Se eu visse esse livro sem ler a sua resenha e nem a sinopse eu iria me surpreender muito, porque se julgasse só o título eu poderia jurar que seria um romance ou alguma fantasia levinha, e erraria feio, rs.
    Mas mesmo errando, preciso dizer que amei a premissa do livro, e fiquei muito interessada em conhecer os personagens dele, que parecem tão críveis, e também para saber que reviravolta final foi essa. Sou curiosa, rs.
    Parabéns pela resenha!
    Bjo
    ~ Daniii

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  6. Oi, Jess!
    Eu não sabia muito do que se tratava esse livro, não vou mentir, mas sua resenha me deu uma boa iluminada. Ele parece ser do tipo de livro que vai mexer muito comigo. Vou anotar a dica pra quando estiver querendo um livro do tipo; bem instigador.
    Beijos
    Balaio de Babados

    Curtido por 1 pessoa

  7. Oi, tudo bem?

    Diva você está louca de postar uma resenha arrasadora dessas? eu fiquei hipnotizada pela resenha quem dirá sobre o livro, que parece muito intenso e o enredo está incrível assim como toda a proposta do livro. Os quotes estão empolgantes.

    Curtido por 1 pessoa

  8. Oi, Jéssica!
    Preciso ler esse livro agora. 😨 O foco nas diferenças de personalidade dos personagens e todas as suas nuances são de grande interesse e dão profundidade a esse gênero literário. Sua resenha me remeteu a outro livro com temática parecida e , igualmente bom, chamado Diário de uma Escrava, da brasileira Rô Mierling. Acho que depois desse livro nunca mais verá borboletas do modo.
    Beijos!
    Gatitaecia.blogspot.com.br

    Curtido por 1 pessoa

  9. Oi, Jéssica!
    Menina, eu não conhecia o livro, mas fiquei com muita vontade de ler! Ele foi direto para a wishlist e com uma estrela do lado.
    Sou muito fã do gênero e te entendo muito quando você fala sobre a expectativa quando vai ler um livro. Eu sempre tenho problemas com isso, por isso acabo comprando sem nem ler a sinopse.
    Espero que eu goste também, mas tendo essa visão tão real do psicopata, tenho certeza que vou gostar.
    Beijinhos.

    Galáxia dos Desejos

    Curtido por 1 pessoa

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