( Resenha ) O Conto da Aia – Margareth Atwood

Minhas caras Corujinhas. Para algumas pessoas, o mundo é preto e branco forjado naquilo que elas alimentam como verdade absoluta. Digo isso para que vocês possam se preparar para entrarem em uma sociedade onde a verdade que tentaram esconder de nós esta em pleno movimento.

o conto da aiaTítulo: O Conto da Aia
Título original:
 The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth
Editora: Rocco
Páginas: 368
Ano: 2017
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐❤
Encontre: Skoob | Saraiva | Amazon

Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano

Observações: Este post vai ser metade resenha e metade spoiler. Haverá sinalização de onde a segunda começa. 

Antes de mais nada, quero de cara pedir desculpas. Esse vai ser, com toda certeza, um dos mais longos posts do blog. Eu não costumo fazer isso, mas pelo conteúdo de O Conto da Aia e pelas minhas considerações durante a leitura e pós, me sinto a vontade para falar de modo mais aberto possível o que vai resultar em uma longa discussão.

Conheci O Conto da Aia pelo blog da Vivi (O Senhor dos Livros) através uma resenha fabulosa dela, que me deixou bastante interessada em ler esta obra. Dessa forma, quando tive a oportunidade de ler livro por intermédio da minha amiga Cris, não perdi a oportunidade e corri pra obra. E ao finalizar a leitura, ganhei a certeza de ter sido um dos melhores livros de minha vida. É uma ficção com cara de real que me fez pensar muito além daquilo que estou acostumada.

Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que tudo era assim.

O Conto da Aia é, antes de tudo, um livro sobre a humanidade. De certo modo, representa com clareza os seres primitivos que somos. Acima de tudo nosso egoísmo, nossa dependencia e nossa vontade de fazer nossas verdades mais fortes que as de outrem. Com uma narrativa lenta, mas profunda, Margareth Atwood demonstra como a República de Gilead está terrivelmente próxima à nossa. Não somente pelo tempo, mas pela maneira com que os cidadãos pensam sobre papéis de uma pessoa em sociedade.

O livro é pautado através dos preceitos biblicos interpretados ao pé da letra. É estranho ver como a autora se apropria de pedaços da Biblia para embasar a teoria que rege sua república. Pois do mesmo modo que podemos perceber a verdade de suas palavras, também é possível o tendecionalismo que a envolve. Isto simplifica então o verdadeiro paramêtro do livro: o machismo que predomina para retirar das mulheres o direito delas de serem livres pela premissa que isso não é digno delas.

Aquilo a que chamo de mim mesma é uma coisa que agora tenho que compor, como se compõe um discurso. O que tenho de apresentar é uma coisa feita, não algo nascido.

De todas as formas que consegue, então, a autora busca demonstrar como nós mulheres somos rejeitadas como individuos nessa sociedade. Deixamos de ser nossas, e passamos à pertencer aos comandantes. Isto é tão forte que você passa a si ver como componente da obra e não mais como somente um leitor. Somos levados a nos colocar na pele daquelas mulheres para sentir o que elas sentem. Os choques são nossos bem como o ódio pela situação imposta.

Os personagens propostos por Atwood são opostos com versões diferentes de um mesmo pensamento. É interessante perceber que mesmo narrado em primeira pessoa por Offred, a autora tem o trabalho de deixar pistas sobre o que os personagem refletem sobre o que está acontecendo. Mas muito mais do que isso, como existe um cuidado especial dela em colocar as filosofias dos personagens a mostra de maneira que não somente possamos entendê-las, mas conceber os caminhos que levaram esses personagens a terem essas verdades. Esse ponto é um dos fundamentais de Atwood: você entende – mesmo não concordando – e é levado a refletir os motivos pelos quais consgue ou não dar razão a estas pessoas.

Margaret Atwood escreveu um livro que merece ser lido por razões inúmeras. A principal dela, diria eu, é entender que certas concepções por mais que as neguemos ainda estão infiltradas no seio da nossa sociedade como se esperassem o momento certo para nos dominarem como aconteceu com a República de Gilead. Recomendo este livro à todos aqueles que almejam refletir sobre a importância de mudar e não aceitar nenhum tipo de destratar.

A partir deste ponto esta resenha conterá spoilers.

Melhor nunca significa melhor para todos… sempre significa pior para alguns.

Ler O Conto da Aia me trouxe alguns sentimentos estranhos e diria até que fundamentais. Certas coisas, certas compreensões todos sabemos que estão presentes em nosso cotidiano. E por mais que saibamos disto, é sempre difícil falar sobre o assunto. Geram discussões que a maioria busca evitar pela dor de cabeça que traz. Mas a verdade é que muitos de nós ficamos acovardados em lutar ou achamos infrutíferos o fazer. Por isso que ao ler esse livro tomei mais uma vez uma percepção de como as lutas são importantes, como precisamos criar novos permancer fortes perante aqueles que desejam nos subjulgar. E baseando-se na atual estrutura política não somente do país bem como de todo mundo, lutar pelo feminismo e contra o totalitarismo nunca foi tão importante.

2+Margaret+Atwood-Facebook
No cartaz: “O Conto da Aia não é um manual de instruções.” – Fonte: HuffPost Brasil.

O nome do livro já demonstra uma luta. Uma Aia em termos históricos é uma serva sem voz. Ela pertence aos seus donos e não tem posicionamento social ou político. Dessa maneira, a autora já deixa uma pista sobre não se calar, ser ouvida mesmo quando não podemos abrir a boca. Contar nossa versão da história mesmo quando formos levadas à não sermos ouvidas. Outro ponto que ressalta a importância de não se calar é o prefixo e radical dos nomes das mulheres: todas começam com Of  que em inglês significa De associada ao nome do Comandante ao qual elas pertencem. Isto é explicado no livro, mas também deixa margem para pensar sobre o desligamento. Afinal se fosse um diminutivo de Off  poderia ser interpretado como a perda em relação à si mesmo como pensante. Elas não tem mais autonomia sobre sua própria mente. Você não está mais online em si mesmo, sim offline para receber os pensamentos de outras pessoas.

Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça nesse labirinto

Causa certa estranheza entender como uma sociedade se deixa chegar ao ponto de ser subjulgada de tal modo. Mas devemos perceber que temos aqui, o funcionamento da lei do mais forte e daqueles que acreditam passos que apenas se adequam à sua trajetória, não levando em consideração o que eles querem dizer em realidade. As mulheres perderam muito porque machismo – e aqui incluo também as mulheres que também pensam dessa forma – foi retirando aos poucos seus direitos começando dos mais essenciais aos mais importantes. Nas memórias do passado de Offred é perceptivel como foram sutis as mudanças, sendo estas bem aceitas pela parcela da sociedade que queria ter o domínio sobre as vidas de todos. Como o pensamento de inferioridade feminina esteve – e está – presente em cada ação que todos tomam.

A maior ponte de ilustração em como a sociedade anterior já possuía aquele pensamento antes deste ser homologado vem do marido de Offred. Este homem sempre fez comentários machistas dissimulados em forma de brincadeiras. Isto apenas se prova quando ele fica extasiado ao saber que as contas das mulheres, inclusive a da sua, foram congeladas; que ela perdeu o emprego tomando para si o sentimento antiquado de importância, onde sua esposa voltará a depender dele para tudo. É tão revoltante isso, porque é cruelmente real. Quantos homens hoje em dia não acreditam mesmo que o lugar da mulher é em casa? Quantos não gostariam que as mulheres fossem impedidas de trabalhar?  Somos frutos desse pensamento, sim e como a própria autora afirma, é uma concepção que queremos acreditar que foi extinta mas que se faz presente em cada momento de nossas vidas.

Além desta questão feminista que Atwood denota em sua obra, também não podemos esquecer a fé radical que rege a República de Gilead. A autora toma como princípio para a fundação deste país a biblía e uma fala de Raquel que deseja que seu marido tome sua empregada como amante para que assim os dois tenham filhos. De modo à demonstrar como a ignorância é perigosa, a autora transforma o contexto dessa passagem outra. Ela é tomada ao pé da letra para que os habitantes sejam atraídos por esse pensar, sem que haja desconfiança do verdadeiro próposito opressão que o governo está se tornando. Em tempos atuais como não enxergar isso como o terrorismo e xenofobia? Pois existem tantas passagens de fé que são deturpadas para se tornarem armas daqueles que apenas precisam de um induto para cometer um crime. Não é uma verdade, mas sim uma desculpa fajuta para se tornar um radical de suas próprias opiniões.

Dessa forma, de todas as formas que consegue, Margareth Atwood transforma um livro provocativo. O mundo parece ter se perdido mais uma vez em suas ideias retrógradas onde somos levados à ser uma coisa ou outra: lascivos ou puritanos, forte ou fraco, direita ou esquerda. Não existe mais tolerância apenas raiva contra quem julgamos ser diferentes. Desse modo, O Conto da Aia se torna obrigatório por ser um manual de instruções daquilo que não devemos aceitar. Um livro que usa do passado para construir um futuro e com o intuito de modificar o nosso presente.

Como todos os historiadores sabem, o passado é uma escuridão, e repleta de ecos. Vozes podem nos alcançar a partir de lá; mas o que dizem é imbuído da obscuridade da matriz da qual elas vêm; e por mais que tentemos, nem sempre podemos decifrá-las precisamente à luz mais clara de nosso próprio tempo.

40 comentários em “( Resenha ) O Conto da Aia – Margareth Atwood”

  1. Oi Jess, fico feliz em saber que gostou do livro. Eu só posso falar , por enquanto pela série e concordo com você sobre a proximidade dessa ficção com nossa realidade, me envolvi com os dramas das personagens e foram diversas as vezes que me imaginei no lugar dessas e me perguntei: o que eu faria? Já queria ler o livro e depois de ler tua resenha tenho certeza que também amarei a leitura, que provavelmente será ainda mais profunda que a série. ❤

    Foi uma bela resenha, adorei saber seu ponto de vista e os levantamentos que você fez sobre a obra.
    Bjokas da Elo!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com.br/

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  2. Oi Jess! Poxa, O Conto da Aia estava na minha tbr de março, mas como passei por uma ressaca literária chata, não consegui ler ele. Agora gostaria muito de ter lido 😦 A sua resenha está incrível e eu sinto que esse livro vai mexer comigo de inúmeras formas. Me assusto ao ver que algumas questões abordadas na história, que foi escrita nos anos 80, são tão modernas. Chega ser assustador, e acredito que essa seja uma das principais características de uma distopia, chocar e assustar, ainda mais quando enxergamos as possibilidades que isso tem de se tornar real. Depois que ler, volto e leio sua resenha completa.

    Beijos,
    http://abducaoliteraria.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oii Gisele. O papel de uma ficcção cientifica desse tipo é justamente chocar né?
      Acho que o livro da Margareth é tão atual porque nós, como pessoas, estamos retornando aquelas mentes do passado. Ou deixando ela aflorar de mais. É um livro que impressiona pela força dele. Eu amei essa obra. Espero que você goste também. Beijos.

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  3. Oiieee

    Da Atwood eu tenho Vulgo Grace pendente pra ler e ainda não deu tempo de conferir. O conto de Aia será um que quero ler logo em seguida, pois sei que é uma leitura que vai mexer comigo, pois todas as resenhas que li garantem que é uma histórua tão bem fundada que não passa indiferente mesmo. Curiosa pra ver como a autora utiliza todos os conceitos biblicos na criação da sua sociedade…. ah deve ser bem interessante.

    Beijos

    http://www.derepentenoultimolivro.com

    Curtido por 1 pessoa

  4. Uau!!!!!!!!!!! Primeiramente, fiquei lisonjeada rsrs mesmo!
    E segundamente, vc falou com tudo, realmente são assuntos incomodos que é muito mais fácil fingir que não existem, eu mesmo levei dias pra digerir e aceitar tudo. Foi um livro bem difícil, mas ao fim enxergo como vc, uma manual sobre o que não podemos fazer com nossa sociedade.
    Parabéns pela resenha Jess!

    Ps: dá vontade de marcar todos os trechos do livro ne? rsrs

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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  5. Olá!
    Acho que atualmente todo mundo conheço esse livro por conta do hype em cima dele. Eu confesso que acho o tema dele muito interessante e tenho muita vontade de fazer essa leitura, principalmente, por conta dos ensinamentos que ele parece trazer. Eu fiquei muito contente com esse turbilhão de sentimentos que o livro parece ter. Vou anotar a dica.
    Beijos

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  6. Olá!! 🙂

    Eu confesso que não conhecia este livro, mas ainda bem que gostaste de fazer a leitura!

    Adoro livros assim, que não so existem porque sim, mas que querem mudar algo, o presente, o futuro.

    Boas leituras!! 😉
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  7. Eu sempre escuto maravilhas sobre esse livro, eu já tentei ler mas não fluiu para mim, achou que pode ter sido o momento né? Achou que ainda não to no momento de fazer a leitura. Mas gostei de conferir sua opinião sobre ele, está de parabéns.

    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  8. Tudo bem? Eu tenho esse livro.. E minha sensação com a leitura, foi um misto de sentimentos quase complicados de detalhar.
    Estou para assistir o seriado que já sei ser impactante e que as vezes é necessário uma pausa para respirar! A sensação que temos ao ler essa história é justamente essa.. que é uma obra necessária e até obrigatória, para entendermos onde não devemos ser coniventes ou passivos e por aí.
    É uma leitura impactante em muitos aspectos!
    Beijos.

    http://www.alempaginas.com

    Curtido por 1 pessoa

  9. Uau! O post de fato ficou longo, mas é inegável dizer que me vi envolta no que você escreveu e que estou curiosa sobre esse livro.

    Interessante ver como a vida imita a arte em alguns aspectos, né? Quem dera, fosse sempre uma bela imitação.

    Adotei mesmo seu post e já deixei a dica mega anotada.

    Mil beijos,
    Blog Diversamente

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  10. Oi tudo bem?
    Ainda não li ao livro mais pretendo, realmente essa não é uma distopia tão distante da realidade, muitos países já vivem isso e outros caminham para isso com seis próprios pés ao elegerem governos misoginos e intolerantes.

    Curtido por 1 pessoa

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